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Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Fundamentos da Fé Cristã - Índice Geral

Artigos em Série

Segunda-feira, Junho 08, 2009

A TRÍPLICE FUNÇÃO DA LEI MORAL

“Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei” (Rm 7.7)

A Escritura mostra que Deus destinou sai lei para funcionar de três modos, que Calvino cristalizou em uma forma clássica para o benefício da igreja como o tríplice uso da lei.
Sua primeira função é ser um espelho que reflete para nós tanto a justiça perfeita de Deus como nossa própria pecaminosidade e deficiências. Assim, “a lei nos obriga, à medida que tentamos atender a suas exigências e nos torna fatigados em nossa fraqueza debaixo dela para sabermos como pedir a ajuda da graça” ( Agostinho ). A lei destina-se a dar-nos conhecimento do pecado (Rm 3.20; 4.15; 5.13; 7.7-11) pois nos mostra o perigo da condenação e nossa necessidade de perdão. A lei destina-se também a conduzir-nos em arrependimento e fé a Cristo (Gl 3.19-24).
Sua segunda função é restringir o mal. Embora não possa mudar
o coração, a lei pode, em certa extensão, inibir a ilegalidade por suas ameaças de julgamento, especialmente quando amparada por um código civil que aplica no presente punições por violações provadas (Dt 13.6-11; 19.16-21; Rm 13.3,4). Assim, ela garante alguma ordem civil e, de certo modo, protege o justo do injusto.
Sua terceira função é guiar os regenerados às boas obras que Deus planejou para eles (Ef 2.10). A lei diz aos filhos de Deus o que agrada ao Pai celestial. Ela pode ser chamada seu código de família. Cristo estava falando deste terceiro uso da lei quando disse que os que se tornaram seus discípulos devem ser ensinados a guardar a lei e a fazer tudo o que ela ordena (Mt 5.18-20; 28.20), e que é sua obediência a seus mandamentos que prova a realidade de seu amor por Ele (Jo 14.15). O cristão é livre da lei como um suposto sistema de salvação (Rm 6.14; 7.4.6; 1Co 9.20; Gl 2.15-19; 3.25), mas está “sob a lei de Cristo”, como uma regra de vida (1Co 9.21; Gl 6.2).
J. IAN

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Brincar de Deus

PECADO

O PECADO É UM TEMA vital e precisamos tomar conhecimento dele. Dizer que a nossa necessidade primária na vida é conhecimento sobre o pecado, pode soar estranho, mas no sentido tencionado, expressa uma profunda verdade. É necessário fixar em nossas mentes, ter idéias “claras sobre o pecado”

Isso porém não é tarefa fácil, pelo menos por três razões.

EM PRIMEIRO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado não lisonjeia; e, naturalmente, mostramos aversão a qualquer opinião a nosso respeito que nos seja desfavorável. O nosso instinto de autodesculpa é muito forte, sendo ele mesmo produto do pecado (Gn 3.12,13). Deriva-se daí a tentação de suavizarmos a doutrina no pecado. Homens bons têm cedido a essa tentação, desde o início da igreja. É mister graça e iluminação espiritual para crermos que nossos pecados são um problema sério aos olhos de Deus, conforme a Bíblia nos diz. Precisamos orar para que Deus nos torne humildes e dispostos a aprender, quando estudamos esse tema.

EM SEGUNDO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado emerge do conhecimento bíblico acerca da santidade de Deus, conhecimento esse que anda muito escasso em nossos dias. O pecado só pode ser devidamente compreendido pelo lado de dentro, conforme o achamos e nós mesmos.

Tal como Isaías no templo, só começamos a perceber o pecado em nós quando no defrontamos conscientemente com o Deus Santo (Is 6.3-5). No cristianismo moderno, embora os conceitos da boa vontade e da compaixão de Deus muito signifiquem, pouco significam os conceitos acerca da sua santidade e da sua impureza. O fermento do cristão liberal na nossa herança, somando ao indiferentismo moral de nossa cultura, mas a nossa insensível apatia e desinteresse para com as coisas espirituais combinaram-se para suprimir o senso de santidade de Deus. Os escritores realmente autorizados a falar sobre o pecado - o próprio Isaías, Amós, Oséias, Jeremias, Ezequiel, Paulo, João, Agostinho, Lutero, João Calvino, John Owen, Thomas Goodwin, Jonathan Edwards... comunicaram um senso tão poderoso da santa presença de Deus que quase chega a ser tangível. Visto que a sentiam tanto, puderam compartilha-la conosco. Mas, a maioria de nós hoje não tem o conhecimento eu eles tinham do pecado, pois que também não temos a consciência que eles tinham da presença de Deus.

EM TERCEIRO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado tem sido secularizada nos tempos modernos. As pessoas continuam a falar sobre o , mas não mais meditam sobre ele de maneira teológica. O termo “pecado” tem deixado de transmitir a idéia de uma ofensa contra Deus e agora indica apenas uma quebra dos padrões
aceitáveis de decência, particularmente nas questões sexuais. Porém, quando a Bíblia fala sobre o pecado, refere-se a ele precisamente como uma ofensa contra Deus. Embora o pecado seja cometido pelo homem, e com freqüência contra a sociedade, ele não pode se definido em termos do homem ou da sociedade. Jamais compreenderemos o que o pecado realmente é, enquanto não aprendemos a pensar nele em termos de nosso relacionamento com Deus.

NATUREZA DO PECADO

Os termos que nossa Bíblia traduz por “pecado”, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, significam ou errar o alvo, ou falhar em alcançar um padrão, ou falhar em obedecer uma autoridade. Seja o padrão inalcançado, o alvo não atingido, a vereda abandonada, a lei transgredida ou a autoridade desafiada, em cada caso é o homem contra Deus. O pecado é medido à luz de Deus e sua vontade. O pecado é desviar-se do caminho que Deus determinou (Ex 32.8), pra um caminho proibido, um caminho de própria escolha (Is 53.6). o pecado consiste em andar contrariamente a Deus, retroceder para longe de Deus, voltar as costas para Deus, desafiar e ignorar Deus.

Em termos positivos, qual é a essência do pecado? BRINCAR DE DEUS. E, como um meio para tanto, recusar-se a permitir que o Criador seja Deus, até onde estiver envolvido aquele que assim agir. A atitude que é a essência do pecado consiste em viver, não para Deus, mas para si mesmo; amar, servir, e agradar a si mesmo, sem importar-se com o Criador. Consiste em tentar ser tão independente de Deus quanto possível, colocando-se fora do alcance de sua mão, mantendo-O afastado, consevando as rédeas da vida em suas próprias mãos, agindo como a própria pessoa e os seus prazeres fossem a finalidade para a qual as demais coisas, incluindo Deus, existissem. O pecado é a exaltação de si mesmo contra o Criador, evitando prestar a homenagem que Lhe é devida e pondo-se no lugar dEle como padrão final de referência, em todas as decisões da vida. Agostinho analisou o pecado como orgulho (superbia"), aquela louca paixão de ser superior até mesmo a Deus, como um estado de espírito afastado de Deus para uma atitude de auto-absorção ( Homo incurvatus in se). Assim, o pecado é a imagem do diabo, pois o orgulho outro-exaltado foi o sei pecado antes que se tornasse o nosso (1Tm 3.6).

Todos esses elementos estavam embrionariamente contidos no primeiro pecado humano, que consistiu em entregar-se à tantação de ser "como Deus" (Gn 3.5). Paulo nos mostra que o pecado começou quando os homens, "tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças" (Rm 1.21). Ele mesmo nos oferece a mais precisa análise do espírito do pecado contida na Bíblia, ao dizer que "o pendor da carne (a mente e o coração do pecador não-regenerado) é inimizade contra Deus" (Rm 8.7) - descontentamento para com o seu governo, ressentimento contra suas reivindicações e hostilidade para com sua Palavra; tudo expresso por meio da teterminação fixa e inalterável de seguir a sua própria independência, em desafio ao Criador. O substantivo abstrato "inimizade" intensifica a idéia, como se Paulo houvesse dito "essencia da inimizade", ou então "inimizade pura".

Dessa atitude de autodeificação brotam atos de autodeterminação contra Deus e nossos semelhantes: atos de irreligiosidade, no primeiro caso; atos de desumanidade, no segundo caso. Um ser que desprezou o primeiro grande mandamento - amarás a Deus com todas as tuas forças - dificilmente poderia mostrar muito respeito para com o segundo - amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Disso deriva-se o espírito do pecado, que destroça as relações entre o homem e o seu Criador e também destrói a sociedade humana. Paulo nos apresenta três formas características em que essa ação destruidora se manifesta (Rm 1.26-31; Gl 5.19-21 e 2Tm 3.2-4).

Terça-feira, Setembro 19, 2006

A Presciência de Deus

Que controvérsias têm sido engendradas por este assunto no passado! Mas que verdade das Escrituras Sagradas existe que não se tenha tornado em ocasião para batalhas teológicas e eclesiásticas? A deidade de Cristo, Seu nascimento virginal, Sua morte expiatória, Seu segundo advento; a justificação do crente, sua santificação, sua segurança; a Igreja, sua organização, oficiais e disciplina; o batismo, a ceia do Senhor, e uma porção doutras preciosas verdades que poderiam ser mencionadas. Contudo, as controvérsias sustentadas não fecharam a boca dos fiéis servos de Deus; então, por que deveríamos evitar a disputada questão da presciência de Deus porque, com efeito, há alguns que nos acusarão de fomentar contendas? Que outros se envolvam em contendas, se quiserem; nosso dever é dar testemunho segundo a luz a nós concedida.

Há duas coisas referentes à presciência de Deus que muitos ignoram: o significado do termo e o seu escopo bíblico. Visto que esta ignorância é tão amplamente generalizada, é fácil aos pregadores e mestres impingir perversões deste assunto, até mesmo ao povo de Deus. Só há uma salvaguarda contra o erro: estar firme na fé. Para isso, é preciso fazer devoto e diligente estudo, e receber com singeleza a Palavra de Deus infundida. Só então ficamos fortalecidos contra as investidas dos que nos atacam. Hoje em dia existem os que fazem mau uso desta verdade, com o fim de desacreditar e negar a absoluta soberania de Deus na salvação dos pecadores. Assim como os seguidores da alta crítica repudiam a divina inspiração das Escrituras e os evolucionistas a obra de Deus na criação, alguns mestres pseudo-bíblicos andam pervertendo a presciência de Deus com o fim de pôr de lado a Sua incondicional eleição para a vida eterna.

Quando se expõe o solene e bendito tema da preordenação divina, e o da eterna escolha feita por Deus de algumas pessoas para serem amoldadas à imagem do Seu Filho, o diabo envia alguém para argumentar que a eleição se baseia na presciência de Deus, e esta “presciência” é interpretada no sentido de que Deus previu que alguns seriam mais dóceis que outros, que responderiam mais prontamente aos esforços do Espírito e que, visto que Deus sabia que eles creriam , por conseguinte, predestinou-os para a salvação. Mas tal declaração é radicalmente errônea. Repudia a verdade
da depravação total, pois defende que há algo bom em alguns homens, Tira a independência de Deus, pois faz com que os Seus decretos se apóiem naquilo que Ele descobre na criatura. Vira completamente ao avesso as coisas, porquanto ao dizer que Deus previu que certos pecadores creriam em Cristo e, por isso, predestinou-os para a salvação, é o inverso da verdade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e, portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa , e a nossa fé em Cristo, o efeito .

Antes de continuar discorrendo sobre este tema, tão erroneamente interpretado, façamos uma pausa para definir os nossos termos. Que se quer dizer por “presciência”? “Conhecer de antemão”, é a pronta resposta de muitos. Mas não devemos tirar conclusões precipitadas, nem tampouco apelar para o dicionário do vernáculo como o supremo tribunal de recursos, pois não se trata de uma questão de etimologia do termo empregado. O que é preciso é descobrir como a palavra é empregada nas Escrituras. O emprego que o Espírito Santo faz de uma expressão sempre define o seu significado e escopo. Deixar de aplicar esta regra simples tem causado muita confusão e erro. Muitíssimas pessoas presumem que já sabem o sentido de certa palavra empregada nas Escrituras, pelo que negligenciam provar as suas pressuposições por meio de uma concordância. Ampliemos este ponto.

Tomemos a palavra “carne”. Seu significado parece tão óbvio, que muitos achariam perda de tempo examinar as suas várias significações nas Escrituras. Depressa se presume que a palavra é sinônima de corpo físico e, assim, não se faz pesquisa nenhuma. Mas, de fato, nas Escrituras “carne” muitas vezes inclui muito mais que a idéia de corpo. Tudo que o termo abrange, só pode ser verificado por uma diligente comparação de cada passagem em que ocorre e pelo estudo de cada contexto, separadamente.

Tomemos a palavra “mundo”. O leitor comum da Bíblia imagina que esta palavra equivale a “raça humana” e, conseqüentemente, muitas passagens que contêm o termo são interpretadas erroneamente. Tomemos a palavra “imortalidade”. Certamente esta não requer estudo! É óbvio que se refere à indestrutibilidade da alma. Ah, meu leitor, é uma tolice e um erro fazer qualquer suposição, quando se trata da Palavra de Deus. Se o leitor se der ao trabalho de examinar cuidadosamente cada passagem em que se acham “mortal” e “imortal”, verá que estas palavras nunca são aplicadas à alma, porém sempre ao corpo.

Pois bem, o que acabamos de dizer sobre “carne”, “mundo”, e “imortalidade”, aplica-se com igual força aos termos “conhecer” e “pré-conhecer”. Em vez de imaginar que estas palavras não significam mais que simples cognição, é preciso ver que as diferentes passagens em que elas ocorrem exigem ponderado e cuidadoso exame. A palavra “presciência” (pré-conhecimento) não se acha no Velho Testamento. Mas “conhecer” (ou “saber”) ocorre ali muitas vezes. Quando esse termo é empregado com referência a Deus, com freqüência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas sim afeição pelo objeto em vista. “... te conheço por nome” (Êxodo 33:17). “Rebeldes fostes contra o Senhor desde o dia em que vos conheci ” (Deuteronômio 9:24). “Antes que te formasse no ventre te conheci ... “ (Jeremias 1:5). “... constituíram príncipes, mas eu não o soube ...” (Oséias 8:4). “De todas as famílias da terra a vós somente conheci ...” (Amos 3:2). Nestas passagens, “conheci” significa amei ou designei .

Assim também a palavra “conhecer” é empregada muitas vezes no Novo Testamento no mesmo sentido do Velho Testamento. “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci ...” (Mateus 7:23). “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido ” (João 10:14). “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Coríntios 8:3). “... o Senhor conhece os que são seus...” (2 Timóteo 2:19).

Pois bem, a palavra “presciência”, como é empregada no Novo Testamento, é menos ambígua que a sua forma simples, “conhecer”. Se cada passagem em que ela ocorre for estudada cuidadosamente, ver-se-á que é discutível se alguma vez se refere apenas à percepção de eventos que ainda estão por acontecer. O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas . Pessoas é que Deus declara que “de antemão conheceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas. Para provar isto, citaremos agora cada uma das passagens em que se acha esta expressão ou sua equivalente.

A primeira é Atos 2:23. Lemos ali: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Se se der cuidadosa atenção à terminologia deste versículo, ver-se-á que o apóstolo não estava falando do conhecimento antecipado que Deus tinha do ato da crucificação, mas sim da Pessoa crucificada: “A este (Cristo) que vos foi entregue”, etc.

A segunda é Romanos 8:29-30. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho; a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou”, etc. Considere-se bem o pronome aqui empregado. Não se refere a algo , mas a pessoas , que ele conheceu, de antemão. O que se tem em vista não é a submissão da vontade, nem a fé do coração, mas as pessoas mesmas .

“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu...” (Romanos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas, e somente a pessoas.

A última citação é de 1 Pedro 1:2: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai...” Quem são “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, a Diáspora, a Dispersão, os judeus crentes. Portanto, aqui também a referência é a pessoas, e não aos seus atos previstos.

Ora, em vista destas passagens (e não há outras mais), que base bíblica há para alguém dizer que Deus “pré-conheceu” os atos de certas pessoas, a saber, o seu “arrependimento e fé”, e que devido a esses atos Ele as elegeu para a salvação? A resposta é: absolutamente nenhuma. As Escrituras nunca falam de arrependimento e fé como tendo sido previsto ou pré-conhecido por Deus. Na verdade, Ele sabia desde toda a eternidade que certas pessoas se arrependeriam e creriam ; entretanto, não é a isto que as Escrituras se referem como objeto da “presciência” de Deus. Esta palavra se refere uniformemente ao pré-conhecimento de pessoas; portanto, conservemos “... o modelo das sãs palavras. . .” (2 Timóteo 1:13).

Outra coisa para a qual desejamos chamar particularmente a atenção é que as duas primeiras passagens acima citadas mostram com clareza e ensinam implicitamente que a “presciência” de Deus não é causativa , pelo contrário, alguma outra realidade está por trás dela e a precede, e essa realidade é o Seu decreto soberano . Cristo “... foi entregue pelo (1) determinado conselho e (2) presciência de Deus” (Atos 2:23). Seu “conselho” ou decreto foi a base da Sua presciência. Assim também em Romanos 8:29. Esse versículo começa com a palavra “porque”, conjunção que nos leva a examinar o que o precede imediatamente. E o que diz o versículo anterior? “... todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles... que são chamados por seu decreto”. Assim é que a “presciência” de Deus baseia-se em Seu decreto (ver Salmo 2:7).

Deus conhece de antemão o que será porque Ele decretou o que há de ser . Portanto, afirmar que Deus elege pessoas porque as pré-conhece é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta: Ele as “pré-conhece” porque as elegeu . Isto retira da criatura a base ou causa da eleição, e a coloca na soberana vontade de Deus. Deus Se propôs eleger certas pessoas, não por haver nelas ou por proceder delas alguma coisa boa, quer concretizada quer prevista, mas unicamente por Seu beneplácito. Quanto ao por que Ele escolheu os que escolheu, não sabemos, e só podemos dizer: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus li :26). A verdade patente em Romanos 8:29 é que Deus, antes da fundação do mundo, elegeu certos pecadores e os destinou para a salvação (2 Tessalonicenses 2:13). Isto se vê com clareza nas palavras finais do versículo: “... os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”, etc. Deus não predestinou aqueles que “dantes conheceu” sabendo que eram “conformes”, mas, ao contrário, aqueles que Ele “dantes conheceu” (isto é, que Ele amou e elegeu), “predestinou para serem conformes”. Sua conformidade a Cristo não é a causa, mas o efeito da presciência e predestinação divina.

Deus não elegeu nenhum pecador porque previu que creria, pela razão simples, mas suficiente, de que nenhum pecador jamais crê enquanto Deus não lhe dá fé; exatamente como nenhum homem pode ver antes que Deus lhe dê a vista. A vista é dom de Deus, e ver é a conseqüência do uso do Seu dom. Assim também a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9), e crer é a conseqüência do uso deste Seu dom. Se fosse verdade que Deus elegeu alguns para serem salvos porque no devido tempo eles creriam, isso tornaria o ato de crer num ato meritório e, nesse caso, o pecador salvo teria motivo para gloriar-se, o que as Escrituras negam enfaticamente (veja Efésios 2:9).

Certamente a Palavra de Deus é bastante clara ao ensinar que crer não é um ato meritório. Afirma ela que os cristãos vieram a crer “pela graça” (Atos 18:27). Se, pois, eles vieram a crer “pela graça”, absolutamente não há nada de meritório em “crer”, e, se não há nada de meritório nisso, não poderia ser o motivo ou causa que levou Deus a escolhê-los. Não; a escolha feita por Deus não procede de coisa nenhuma existente em nós , ou que de nós provenha, mas unicamente da Sua soberana boa vontade.

Mais uma vez, em Romanos 11:5 lemos sobre “... um resto, segundo a eleição da graça”. Eis aí, suficientemente claro; a eleição mesma é “da graça”, e a graça é favor imerecido , coisa a que não tínhamos direito nenhum diante de Deus.

Vê-se, pois, como é importante para nós, termos idéias claras e bíblicas sobre a “presciência” de Deus. Os conceitos errôneos sobre ela, inevitavelmente levam a idéias que desonram em extremo a Deus. A noção popular da presciência divina é inteiramente inadequada. Deus não somente conheceu o fim desde o princípio, mas planejou, fixou, predestinou tudo desde o princípio. E, como a causa está ligada ao efeito, assim o propósito de Deus é o fundamento da Sua presciência. Se, pois, o leitor é um cristão verdadeiro, é porque Deus o escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), e o fez não porque previu que você creria , mas simplesmente porque Lhe agradou fazê-lo; você foi escolhido apesar da tua incredulidade natural. Sendo assim, toda a glória e louvor pertence a Deus somente. Você não tem base nenhuma para arrogar-se crédito algum. Você creu “pela graça” (Atos 15:27), e isso porque a tua própria eleição foi “da graça” (Romanos 11:5).

A. W. Pink

Sexta-feira, Setembro 15, 2006

A Velha Regra Adâmica - Tozer

TAMANHO É PALAVRA CARACTERÍSTICA DA CRIATURA.


Para Deus a qualidade é imensamente importante, e o tamanho tem pouca importância. Quando postos em oposição mútua, a qualidade é tudo e o tamanho não é nada.

Não é difícil entender isso, visto que tamanho é palavra característica da criatura, e só se aplica a matéria. Tem a ver com dimensão, peso ou número de coisas criadas. Deus não tem tamanho, pela simples razão de que nenhum dos atributos da matéria se aplica a Ele, e tamanho é atributo da matéria.

Atribuir tamanho a Deus é faze-lo sujeito a graus, o que Ele nunca pode ser, visto que a própria idéia de grau relaciona-se unicamente com as coisas criadas. Aquilo que é infinito não pode ser mais ao menos, maior ou menor, e Deus é “Eu Sou o que Sou” é como Ele, em Sua condescendente paciência, explica a inteligência criada o Seu Ser incriado.

Qualidade, no sentido em que usamos aqui a palavra, tem a ver com o ser puro, com o intrínseco, e não admite propriamente grau. Por esta razão podemos atribuir qualidade a Deus, não tamanho, porém.

Deus fez o homem à sua imagem e lhe deu intelecto, emoção e vontade, juntamente com percepções moral e capacidade de conhecer e cultuar a seu Criador. Estes atributos constituem qualidade do ser e diferenciam o homem do mundo que o cerca, e mesmo do seu próprio corpo. Os corpos materiais têm extensão no espaço, peso e forma, mas lhes falta capacidade para pensar, sentir, amar, comover-se, cultuar. Porque lhes falta esta capacidade, e especialmente porque lhes falta o poder da vontade, não possuem qualidades morais e espirituais de nenhuma espécie. E porque não têm estas qualidades, não são nada em si mesmos. Seu único significado é aquele que ocasionalmente lhes pode ser outorgado por Deus ou pelo homem, que Ele fez a sua semelhança.

A queda moral do homem obscureceu a sua visão, confundiu o seu pensamento e o tornou sujeito à ilusão. Uma evidência disso é a sua quase incurável propensão para confundir os valores e pôr o tamanho antes da qualidade em sua apreciação das coisas. A fé cristã inverte esta ordem, mas até os cristãos tendem a julgar as coisas pela velha regra adâmica.
QUE TAMANHO? QUANTO? QUANTOS? São as questões levantadas mais freqüentemente pelas pessoas religiosas quando tentam avaliar as coisas cristãs. Isto se faz mediante uma sorte de reflexo inconsciente, porque no mundo da matéria, do movimento , do espaço e do tempo, essas questões têm significação válida. No mundo do espírito nada significam, e, apesar disso, nós as carreamos para dentro do reino de Deus, prova suficiente de que as nossas mentes só foram renovadas imperfeitamente.

Nosso problema é que pensamos como homens. Temos gosta da terra, e não do céu, e a nossa psicologia não é a de Cristo, mas, sim, a de Adão. Todo o tempo insistimos teimosamente em que somos cristãos bíblicos, mas é para vergonha nossa que muitos filósofos pagãos tinham mais inclinação espiritual que nós. Sócrates, Epicteto, Marco Arrelio e muitíssimos mais poderiam apresentar-se para testemunhar contra nós. Foram mais sábios em sua geração destituída da luz do Novo Testamento do que nós a possuímos.

A fé cristã bate-se por um reino espiritual onde a qualidade do ser é tudo. “Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai e espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura pra seus adoradores. Deus é espírito e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Com estas palavras Jesus mostrou como os judeus e os samaritanos estavam extraviados em seus argumentos sobre o lugar próprio para o culto. Nem a beleza de uma cidade, nem o vulto de um monte têm importância para o Pai. Verdade e espírito, e toda a riqueza de qualidades morais que os cercam: estas coisas são o supra-sumo de tudo.

Não é raro encontrar estudantes universitários cuja fé em Cristo foi lamentavelmente abalada por expor-se aos ensinamentos da ciência. Depois de algumas aulas de astronomia e uma olhada pelo telescópio, o seu pulcro e diminuto universo começa a desmoronar-se. A consumada enormidade dos corpos celestes e a imensidão do espaço os oprimem. A Terra é apenas uma pinta microscópica na vastidão do espaço, e o homem nada mais que uma cabeça de alfinete na superfície da Terra, e Deus é algo que está além da mais distante estrela, afastado bilhões de anos-luz – como, pois, poderia Deus fazer-se homem e habitar entre nós? E de que vale o homem, insignificantemente pequeno e de vida pateticamente curta?

Pensar deste jeito é confundir tamanho com qualidade; é pensar de maneira ignóbil do Deus Altíssimo; é identifica-lo com a matéria e fazê-lo servo do tempo e do espaço; é degradar o conceito cristão da Divindade e cair vítima da incredulidade.

A verdade é que uma só alma feita à imagem de Deus Lhe é mais preciosa do que todo o universo repleto de astros.

A astronomia lida com espaço, matéria e movimento; a teologia lida com a vida, a personalidade e o mistério do ser. O corpo do salmista Davi, por exemplo, embora de porte médio, era tão pequeno que podia ter ficado oculto numa fenda das montanhas da Judéia sem nunca ser encontrado, ainda que o procurassem durante mil anos. Tamanho é isso, e não é muito importante. Entretanto, numa hora de inspiração, Davi escreveu o Salmo do Pastor! Qualidade é isso, e quão preciosa é poder-se inferir do som de dez mil vozes contando aquele salmo todos os domingos do ano ao redor do mundo inteiro.

A igreja dedica-se a coisas que importam. Qualidade importa. Não nos deixemos arrastar para fora do rumo pelo tamanho das coisas.

A. W. Tozer

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

A Ira de Deus

É triste ver tantos cristãos professos que parecem considerar a ira de Deus como uma coisa pela qual eles precisam pedir desculpas, ou, pelo menos, parece que gostariam que não existisse tal coisa. Conquanto alguns não fossem longe o bastante para admitir abertamente que a consideram uma mancha no caráter divino, contudo, estão longe de vê-la com bons olhos, não gostam de pensar nisso e dificilmente a ouvem mencionada sem que surja em seus corações um ressentimento contra essa idéia. Mesmo dentre os mais sóbrios em sua maneira de julgar, não poucos parecem imaginar que há na questão da ira de Deus uma severidade terrificante demais para propiciar um tema para consideração proveitosa. Outros dão abrigo ao erro de pensar que a ira de Deus não é coerente com a Sua bondade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos.

Sim, muitos há que fogem de visualizar a ira de Deus, como se fossem intimados a ver alguma nódoa no caráter divino, ou algum defeito no governo divino. Mas, o que dizem as Escrituras? Quando a procuramos nelas, vemos que Deus não dez tentativa alguma para ocultar a realidade da Sua ira. Ele não se envergonha de ar a conhecer que a vingança e a cólera Lhe pertencem. Eis o Seu desafio: "Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum Deus comigo; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantei a minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada reluzente, a travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos meus aborrecedores"(Dt.32:39-41). Um estudo na concordância mostrará que há mais referências nas Escrituras à indignação, à cólera e à ira de Deus, do que aos Seu amor e ternura. Porque Deus é santo, ele odeia todo pecado; e porque ele odeia todo pecado, a Sua ira inflama-se contra o pecador. (Sl.7:11).

Pois bem, a ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se Nele não houvesse "ira"! A indiferença para com o pecado é uma nódoa moral, e aquele que não odeia é um leproso moral. Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelência olhar com igual satisfação para a virtude e o vício, para a sabedoria e a estultícia? Como poderia Aquele que é infinitamente santo ficar indiferente ao pecado e negar-Se a manifestar a Sua "severidade"(Rm.11:22) para com ele? Como poderia Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e de odiar o que é impuro e vil? A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão real, um requisito tão imperativo e eterno como o céu o é. Não somente não há imperfeição nenhuma em Deus, mas também não há Nele perfeição que seja menos perfeita do que outra.

A ira de Deus é sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina equidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável. Os insurgentes contra o governo de Deus saberão um dia que Deus é o Senhor. Serão levados a sentir quão grandiosa é aquela Majestade que eles desprezaram, e como é terrível aquela ira de que foram ameaçados e a que não deram a mínima importância. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maldosa e mal intencionada, infligindo agravo só pelo prazer de infligi-lo, ou devolver a ofensa recebida. Não; embora seja verdade que Deus vindicará o domínio como Governador do universo, ele não será revanchista.

Evidencia-se que a ira divina é uma das perfeições de Deus, não somente pelas considerações acima apresentadas, mas também fica estabelecido claramente pelas declarações expressas da Sua Palavra. "Porque do céu manifesta a ira de Deus..."(Rm.1:18). "Manifestou-se quando foi pronunciada a primeira sentença de morte, quando a terra foi amaldiçoada e o homem foi expulso do paraíso terrestre; e depois, mediante castigos exemplares como o dilúvio e a destruição das cidades da planície com fogo do céu, mas, especialmente pelo reinado da morte no mundo todo. Foi proclamada na maldição da lei para cada transgressão, e foi imposta na instituição do sacrifício. No capítulo 8 de romanos, o apóstolo Paulo chama a atenção para o fato de que a criação inteira ficou sujeita à vaidade, e geme e tem dores de parto. A mesma criação que declara que existe um Deus, e publica a Sua glória, também proclama que Ele é inimigo do pecado e o vingador dos crimes dos homens. Acima de tudo, porém, do céu se manifestou a ira de Deus quando o Filho de Deus veio a este mundo para revelar o caráter divino, e quando essa ira foi demostrada nos Seus sofrimentos e morte, de maneira mais terrível do que por todas as provas que Deus antes dera da Sua aversão pela pecado. Além disso, o castigo futuro e eterno dos ímpios agora é declarado em termos mais solenes e explícitos do que antes. Sob a nova dispensação há duas revelações dadas do céu, uma da ira, a outra da graça"(Robert Haldane).

Mais: que a ira de Deus é uma perfeição divina está demostrado claramente pelo que lemos nos Salmo 95:11: "Por isso jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso". Duas sãos as ocasiões em que Deus "jura": quando faz promessas (Gn22:16), e quando faz ameaças(Dt.1:34). Na primeira, jura com misericórdia dos Seus filhos; na Segunda, jura para aterrorizar os ímpios. Um juramento é feito para confirmação: Hb.6:16. Em Gn.22:16 disse Deus: "Por mim mesmo, jurei". NO Sl.89:35 ele declara: "Uma vez jurei por minha santidade". Enquanto que no Sl.95:11 ele afirma: "Jurei na minha ira". Assim é que o grande Jeová pessoalmente recorre à Sua "ira" como a uma perfeição igual à sua "santidade": tanto jura por uma como pela outra! Ainda: como em Cristo "...habita corporalmente toda a plenitude da divindade"(Cl.2:9), e como todas as perfeições divinas são notavelmente manifestadas por Ele (Jo.1:18), por isso lemos sobre "... a ira do Cordeiro"(Ap.6:16).

A ira de Deus é uma perfeição do caráter divino sobre a qual precisamos meditar com freqüência. Primeiro, para que os nosso corações fiquem devidamente impressionados com a ojeriza de Deus pelo pecado. Estamos sempre inclinados a uma consideração superficial do pecado, a encobrir a sua fealdade, a desculpá-lo com escusas várias. Mas, quanto mais estudarmos e ponderarmos a aversão de Deus pelo pecado e a maneira terrível como se vinga dele, mais probabilidade teremos de compreender quão horrível é o pecado. Segundo, para produzir em nossas almas um verdadeiro temor de Deus: "... retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade ("santo temos"); porque o nosso Deus é fogo consumidor"(Hb.12:28-29). Não podemos serví-lO "agradavelmente" sem a devida "reverência" ante a sua tremenda Majestade e sem o devido "santo temor" de Sua ira, e promoveremos melhor estas coisas trazendo freqüentemente à memória o fato de que "o nosso Deus é um fogo consumidor". Terceiro, para induzir nossas almas a fervoroso louvor a Deus por Ter-nos livrado "... da ira futura"(I Ts.1:10).

A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: "... pensavas que (Eu) era como tu"(Sl.50:21). Se não nos alegramos "... em memória da sua santidade"(Sl.97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração sumamente gloriosa da Sua ira, tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda, permanecemos em nossos pecados, rumo às chamas eternas.

"Jubilai, ó nações (gentios), com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança..."(Dt.32:43). E ainda lemos: "E, depois destas coisas, ouvi no céu como que uma grande voz de grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verdadeiros e justos sãos os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia..." (Ap.19:1-3). Grande será o regozijo dos santos naquele dia em que o Senhor irá vindicar a sua majestade, exercer o Seu domínio formidável, magnificar a Sua justiça, e derribar os orgulhosos rebeldes que ousaram desafiá-lO.

"Se tu, Senhor, observares (imputares) as iniquidades, Senhor quem subsistirá? (Sm. 130:3). Cada um de nós pode bem fazer esta pergunta, pois está escrito que "...os ímpios não subsistirão no juízo..." (Sl.1:5). Quão dolorosamente a alma de Cristo padeceu ao pensar na ação de Deus observando as iniquidades do Seu povo quando estas pesaram sobre Ele! Ele "... começou a Ter pavor, e a angustiar-se"(Mc. 14:33). Sua agonia terrível, Seu suor de sangue, Seu grande clamor e súplicas (Hb.5:7), Suas reiteradas orações: "Se é possível, passe de mim este cálice", Seu último e tremendo brado, "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?"- tudo manifesta que pavorosas apreensões Ele teve quanto ao que era para Deus "observar iniquidades". Bem que nós, pobres pecadores, podemos clamar: Senhor, quem subsistirá, se o próprio Filho de Deus tremeu tanto sob o peso da Tua ira? Se tu, meu leitor, ainda não correste em busca do refúgio em Cristo, o único salvador, "... que farás na enchente do Jordão?"(Jr.12:5).

"Quando considero como a bondade de Deus sofre abusos da maior parte da humanidade, não posso senão apoiar quem disse: "O maior milagre do mundo é a paciência e generosidade de Deus para como mundo ingrato. Se um príncipe tem inimigos metidos numa de suas cidades, não lhes envia provisões, mas mantém sitiado o local e faz o que pode para vencê-los pela fome. Mas o grande Deus, que poderia levar todos os Seus inimigos à destruição num piscar de olhos, tolera-os e se empenha diariamente para sustentá-los. Aquele que faz o bem aos maus e ingratos, pode muito bem ordenar-nos que bendigamos os que nos maldizem. Não penseis, porém, que escapareis assim, pecadores; o moinho de Deus mói devagar, mas mói fino; quanto mais admirável é agora a Sua paciência e generosidade, mais terrível e insuportável será a fúria resultante dos abusos feitos à Sua bondade. Nada é mais brando do que o mar; contudo, quando se agita e forma temporal, nada se enfurece mais. Nada é tão suave como a paciência e bondade de Deus, e nada tão terrível como a sua ira quando se inflama" (William Gurnall, 1660). "Fuja", pois, meu leitor, fuja para Cristo; fuja "... da ira futura"(Mt.3:7), antes que seja tarde demais. Nós lhe rogamos com todo o empenho, não pense que esta mensagem tem em vista outra pessoa. É para você que está lendo! Não fique satisfeito em pensar que você já fugiu para Cristo. Obtenha certeza disso! Rogue ao Senhor que sonde o teu coração e te revele o que tu és (pois o erro ou engano, será fatal e eterno).




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Uma palavra aos pregadores: Irmãos, em nossos ministérios temos pregado sobre este solene assunto tanto como deveríamos? Os profetas do Velho Testamento muitas vezes diziam aos seus ouvintes que as suas vidas ímpias provocavam o Santo de Israel, e que estavam entesourando para si mesmos ira para o dia da ira. E as condições do mundo hoje não são melhores do que eram então! Nada se presta mais para despertar os indiferentes e fazer com que os crentes carnais sondem os seus corações, do que alongar-nos sobre o fato de que Deus "... se ira todos os dias" com os ímpios (Sl.7:11). O precursor de Cristo exortava os seus ouvintes a fugirem "... da ira futura"(Mt.3:7). O Salvador ordenava a quantos O ouviam: "Temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno, sim, vos digo, a esse temei"(Lc.12:5). O apóstolo Paulo dizia: "... sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens..."(2Co.5:11). A fidelidade exige que falemos tão claramente do inferno como do céu.

A. W. Pink

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Reverência pela Vida

Albert Schweitzer - Teólogo, médico e escritor francês ganhador do prêmio Nobel da paz, disse que a "ética nada mais é que reverência pela vida". Hoje, mesmo aqueles que defendem a ética, na maioria das vezes, já nem sabem mais o que ela quer dizer. Ética e moral tem se tornada palavras sinônimas. Isso é sinal da confusão que permeia o cenário da ética hoje. Historicamente o significado de ambas e completamente distinto. Ética vem do grego ethos - que se deriva da raiz que quer dizer estábulo, um, lugar para cavalos. Juntava dois sentidos - um lugar para morar e um lugar de estabilidade e permanência. Por outro lado, moralidade vem da palavra mores, que descreve os padrões de comportamento de uma sociedade.

A diferença então é fundamental. Ética é uma ciência normativa, que busca fundamentos principais que irão descrever obrigações e deveres. A ética está interessada efetivamenteno que é imperativo e na premissa filosófica em que se apóia o imperativo.

A moralidade é uma ciência apenas descritiva. Está interessada no que É - e no indicativo. A moral descreve o que as pessoas fazem; a ética define o que as pessoas deveriam fazer. A diferença entre elas é entre o normal e o normativo.


A Ética então é:


Normativa
Imperativa
O que deveria ser
Absoluto


A Moral é:


Descritiva
Indicativa
O que é
Relativo

Aqui então entra o drama que vivemos hoje, no país, na igreja, na vida pessoal... Quando a moral é identificada como ética, o normal se torna o normativo, e o imperativo é engolido por como vive a maioria.

Neste esquema, o que é bom é determinado pelo normal, e o normal é determinado pela média estatística. A "norma" é descoberta por uma análise do normal. A conformidade com essa norma torna-se então uma obrigação ética.


Somos orelhas ou juízes? O poeta espanhol Fracisco de Quevedo y Villegas dizia que "quem julga pelo que ouve e não pelo que sabe, é orelha e não juiz" - O que sabemos sobre o que realmente importa? Como temos nos relacionado com a sociedade que nos cerca? Quando de conformismo existe em nós? Tá bom, chega de perguntas.
Como vimos anteriormente, há uma grande confusão hoje entre ética e moral. Talvez fosse mais saudável se as pessoas, como aquela frase de parachoque de caminhão falassem: "não me sigam, estou perdido também" .

A norma, como vimos, é descoberta por uma análise do "normal", e o normal é determinado pela média estatística. Como funciona isso?

1. Compilamos uma análise dos padrões de comportamento estatístico. Por exemplo; se descobrimos que a maioria das pessoas está de fato participando de relações sexuais antes do casamento, então declaramos tal atividade como normal.

2. Rapidamente nos movemos e declaramos que o normal é o autênticamente humano. O que é humano é definido como sendo o que os humanos fazem. Daí, se o ser humano normal está engajado em relações sexuais antes do casamento, concluímos que tal atividade é normal, e portanto boa.

3. O terceiro passo é declarar que os que se desviam do padrão normal como sendo anormais, não humanos, não autênticos. Neste esquema, a castidade se torna um comportamento sexual anormal. O estigma então é colocado sobre a (o) virgem, e não sobre a (o) não virgem.

Nesta consideração "humanista" da ética, o bem supremo (summun bonnum) é definido pela atividade que é mais "autenticamente" humana. Isso alegra muito a alguns, talvez a maioria. Mas se nós fizermos uma análise estatística, por exemplo, da experiência de trapacear e tirar cola entre os estudantes, ou mentir... descobriremos que a maioria, alguma vez trapaceou, e que talvez todas as pessoas, alguma vez já mentiu. Se essa "maralidade" e suas regras forem aplicadas, só poderíamos chegar ao veredicto de que trapacear os professores, ludibriar no merecimento outros alunos, ou mentir para os outros é uma virtude.
Mas esses padrões tem sido usados quase que universalmente.


Ética cristã é baseada na antítese entre o que é e o que deveria ser. Em que mundo vivemos? Num mundo caído; uma análise do comportamento humano decaído descreve o que é normal para uma situação completamente anormal - a corrupção humana.
Deus nos chama para fora - isto é ou deveria ser a igreja. Somos chamados para fora do indicativo do mundo pelo Imperativo de Deus. Nosso chamado não é para "... muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender..." - Não! Nosso chamado é para a não-conformidade, para uma ética transformadora que quebra o status quo.

Sola Fide e Tiago 2

A Prova da Sola Fide

O caluniador moderno faz objeção - sola fide é só um argumento que veio da experiência psicológica de Lutero e dos debates escolásticos medievais da época. [Dizem eles que] simplesmente não é o ensino direto do Novo Testamento. Mas, com Lutero e Calvino, estou persuadido de que se a pessoa entende o ensino de Paulo em Romanos e Gálatas, então sola fide realmente é o ensino claro do Novo Testamento. A contribuição de Lutero foi esta - ele trouxe á luz do dia o ensino claro e significativo da doutrina de Paulo da sola fide. Ele não a inventou, nem a redescobriu, pelo menos no sentido de que já havia sido tão claramente afirmada antes.

Quando Lutero foi atacado por acrescentar a palavra somente à sua tradução alemã de Romanos 3.28, ele respondeu que "... a palavra extra foi necessária no alemão para destacar a força do original". Será que ele está certo em sua afirmação?
Se vamos responder a essa pergunta, devemos observar algumas coisas muito importantes que Paulo ensina especificamente com respeito à fé e o relacionamento dela com a nossa justificação. Primeiro, o apóstolo, referindo-se à fé do patriarca Abraão em Gênesis 15.6, escreve:

"Pois que diz a Escritura? 'Abraão creu e isso lhe foi imputado para justiça'. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como recompensa. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça" (Aos Romanos 4.3-5).

Seria fatal para o evangelho e para o argumento todo de Paulo transformar a fé referida aqui em "obra". A fé de Abraão não foi um substituto da obediência (cf. Hb 11.8). Para ser preciso, era uma fé para (eis) justiça, não em vez de (anti) justiça.
Em Romanos 4.3-5 há uma clara antítese. A antítese não está entre o que trabalha e o que não trabalha, e sim entre o que trabalha e a pessoa que não trabalha, porém crê. Esse crer tem uma qualidade e orientação específica, a saber, "{crê} naquele que justifica o ímpio...".

Segundo, Paulo ensina com a mesma clareza que os crentes são justificados "mediante a fé" (dia pisteos, Rm 3.25). E mais tarde, em
3.28, é aquilo que é "pela fé" (pistei). E novamente em [Romanos] 3.30 é "por fé" (ek pisteos). J. I.Packer observa apropriadamente:

"O dativo com a preposição dia (mediante) representa a fé como o meio instrumental pelo qual Cristo e sua justiça são apropriados; a preposição ek (de, saído de) mostra que a fé ocasiona, e logicamente precede, nossa justificação pessoal. Que os crentes são justificados dia pistin, por causa da fé, Paulo nunca diz e haveria de negar."

Se a fé fosse a base real da justificação, a fé seria então uma obra meritória. Se a fé fosse uma obra meritória, em qualquer sentido, então Paulo estaria dizendo algo do qual discorda redondamente em outros lugares da Bíblia. Em Romanos 11.6, ouvimos o mesmo apóstolo dizendo "... se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". A fé não é justiça, nem mesmo um substituto da justiça. A fé é, antes, as mãos vazias de uma alma crente que se estende para aquele que justifica os ímpios na base de misericórdia somente.

Terceiro, fazer da fé o único canal da justificação é coerente com a ênfase da doutrina de Paulo de que as obras são inteiramente excluídas da declaração de Deus de que o pecador crente está justificado. Romanos 3.28 declara: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei". E Gálatas 2.16 acrescenta: "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei, ninguém será justificado". O texto clássico sobre isso é muitas vezes citado mas poucas vezes apreciado. Efésios 2.8,9 diz: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie".

Deve-se notar nesse ponto que se as obras contribuem para a justificação diante de Deus ou antes ou depois que nos chegamos à fé em Cristo, então nossa salvação também não é somente pela graça. Isso leva a uma rejeição de sola gratia tão certamente como de sola fide. Mas que diremos do ensino de Tiago? A epístola não ensina que a justificação é alcançada por meio de obras meritórias, nem mesmo de fé que opera interiormente pelo amor, e sim que as obras dão prova de fé. Tiago condena esse tipo de fé sem eficácia, isto é, uma fé que não confia genuinamente. Paulo condena as obras em termos de estarem acrescentando algo de mérito (ou de valor) à fé do pecador crente. O conflito por vezes imaginado entre essas duas epístolas não existe quando elas são entendidas corretamente. Para o apologista católico contemporâneo Scott Hahn, dizer repetidamente que Lutero ensina a fé somente enquanto Tiago ensina a fé que opera é uma deturpação tanto de Lutero como de Tiago (veja abaixo a Análise de Tiago 2).

Quarto e último, Paulo revela, ao se apoiar em Habacuque (citado em Rm 1.17), que ele crê que o homem piedoso ("o justo") goza o favor de Deus e a vida por causa de sua resposta confiante a Deus, Paulo diz: "... visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: 'O justo viverá por fé'"(Rm 1.16-17).
Gramaticalmente, o versículo 17 pode estar dizendo ou que "pela fé" um homem é "justo" ou que "pela fé" "ele viverá". Lutero optou pelo primeiro. Os comentadores contemporâneos como Cranfield concordam. Outros optam pela segunda possibilidade. O primeiro sentido parece fazer melhor uso do contexto da epístola, mas por qualquer dos dois Paulo está dizendo que a justiça é absolutamente necessária para salvação. Mas o que é essa "justiça que é pela fé"? Como o pecador chega a essa justiça? Como Deus a dá ao pecador? Filipenses 3.9 se refere a isso como "a justiça que procede de Deus mediante a fé". É a justiça de Deus precisamente porque Deus a providenciou. A Nova Versão Internacional (NIV) da Bíblia traduz essa expressão paulina corretamente quando a chama de "uma justiça de Deus" (dikaiusune Theou).

Essa "justiça de Deus" pode ser entendida como o ato de Deus ou então pode ser a provisão de Deus. De um modo ou de outro Paulo está falando de algo inteiramente objetivo, isto é, fora do homem. Esse é o sentido óbvio de Romanos 3.21 onde Paulo diz mais que, "agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus...". Nenhum cumprimento da lei pelo crente pode acrescentar um til à salvação que é toda de graça.

Além disso, Romanos 4.6 diz: "... Deus atribui justiça, independentemente de obras". A questão central, tanto aqui como no versículo 5, é esta - Deus imputa a justiça, isto é, ele a atribui àqueles que crêem, só na base de promessas graciosas e bondosas de Deus (cf. Rm 4.18). O conceito de imputação, que é entendido na palavra "atribui" (vs. 6), é sinônimo de justificação nessa frase. Se isso não for verdade, então todo o argumento de Paulo cai por terra. Sua tese é bem clara - a justificação é por fé e não por obras, portanto é sozinha, e deve ser sozinha, porque do contrário algo teria, necessariamente, de lhe ser acrescentado.

E quando Paulo diz que essa justiça de Cristo é "de fé em fé", ele quer dizer que é pela fé do começo ao fim. É um modo de dizer que a graça é recebida por fé e por nada senão a fé - isto é, sola fide. Ele reforça essa declaração sumária em vários pontos, como em 4.6 onde diz: "... o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras".

A verdadeira fé salvadora, por definição bíblica, precisa vir só - qualquer coisa que lhe fosse acrescentada tornaria algo diferente de fé. Essa idéia está presente em declarações explícitas, como já vimos, mas também pode ser vista tanto nos contrastes como nas negativas que vemos em vários desses textos. "Somente" é parte integrante do sentido paulino da fé em si. Se a graça de Deus não é dada ao homem por meio da fé somente, então o que chamamos de fé bíblica não é fé de maneira alguma. Ou eu levo algo para a aceitação de Deus pela graça ou eu nada levo. Se nada apresento, então sou salvo pela, ou mediante a, fé somente. Se levo algo á aceitação de minha pessoa por Deus como pecador culpado, então tenho algum espaço para me gloriar. Se nada levo, então tudo que posso fazer é confiar inteiramente em Cristo e sua justiça. Como diz um velho hino:

Numa vida que não vivi,
Numa morte que não morri,
A vida de Outro, a morte de Outro,
Nisto repousa toda a minha eternidade.

Ainda mais, se a justificação não é pela fé somente, como Paulo raciocina, então não pode ser por Cristo somente, ou "pela justiça de Cristo". Por quê? Porque fé significa, simplesmente, que Cristo me salva, não a igreja, não minhas obras, não outro salvador mas Cristo somente! Eu nada posso fazer. Nada preciso fazer senão confiar, e mesmo essa confiança, essa fé, me é dada graciosamente pelo próprio Deus. De fato, não pode haver lugar para o ser humano gloriar-se numa obra divina tão grande.

A Justificação pela Fé somente e Tiago 2

Aqueles que mantém uma visão tridentina da justificação, negando que a fé somente seja suficiente, apelam para Tiago 2.14-26 como sendo sua prova textual. Afrimam que a Bíblia nunca emprega a frase “justificação pela fé somente”, o que concedemos, mas que ela declara que Abraão não foi salvo pela fé somente. Na verdade, nos é dito que Abraão foi “justificado por suas obras". Tiago 2.14-26 diz assim:

(14) Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? (15) Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, (16) e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? (17) Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (18) Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. (19) Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.(20) Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? (21) Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? (22) Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, (23) e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. (24) Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente. (25) De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? (26) Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.

Aparentemente, a impressão é que Paulo e Tiago estão divergindo entre si. Paulo ensina que Abraão foi justificado pela fé somente e Tiago parece estar ensinando o contrário, que Abraão foi justificado por suas obras. São duas visões diferentes, ao que parece, e ambas estão apelando para Abraão para provar sua tese.

Distinguir a verdade aqui não é tão difícil quanto pode parecer à primeira vista. O livro de Tiago é o equivalente no Novo Testamento à literatura de “sabedoria” do Antigo Testamento. Na mente hebraica, a sabedoria é como se vive. É prática e não teoria ou, talvez, prática baseada em teoria. Tiago está respondendo à pergunta: “O que é uma fé viva e vital?” ou como Lutero chamava “uma fides viva”.

Às vezes a terminologia teológica impede nossa compreensão do Novo Testamento. Por exemplo, em 1 Timóteo 2.15, Paulo diz que as mulheres serão salvas por darem à luz. Ora, sabemos que as mulheres não são justificadas por ficarem grávidas. As palavras têm sentidos diferentes de acordo com seu contexto. E a palavra grega para justificação ou justificado pode ter pelo menos sete sentidos diferentes.

Em Romanos, Paulo está escrevendo doutrina, e tratando da questão de como uma pessoa é levada à paz com Deus. Tiago não está escrevendo doutrina, e sim examinando qual é a essência da fé autêntica, ou a evidência da fé justificadora. Em Mateus 11.19, Jesus afirma que a “sabedoria é justificada por suas obras”. Será que isso significa que a sabedoria é levada a um relacionamento correto com Deus? Não, Jesus simplesmente diz que a sabedoria prova ser sabedoria pelos frutos de sabedoria!
Precisamente falando, Paulo e Tiago não estão discorrendo [exatamente] sobre a mesma coisa. Paulo apela para Gênesis 15.6: “Abraão... creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça”. Pela fé, Abrão (Abraão) foi justificado diante de Deus. Por outro lado, Tiago apela para Gênesis 22.9-18, uma diferença de sete capítulos! Em Gênesis 22, Deus pôs Abraão à prova, e a autenticidade da fé de sua fé foi manifesta (cf. 2 Co 13.5). Em Gênesis 12, Abraão foi justificado por sua fé. Em Gênesis 22, a fé de Abraão é justificada por sua obediência.

Tiago não está respondendo à pergunta “Como posso ser salvo?” e sim “Como posso saber que minha fé é autêntica?” Podemos ver isso pela declaração do versículo 18: “Você DIZ que tem fé”. A validação dessa afirmativa é dada no mesmo versículo: “Mostre-me sua fé POR suas obras”. A fé já existe, mas ela é evidenciada pelas necessárias obras que se seguem. Minha fé não prova minha fé para Deus. Ele já conhece meu coração; você não. Você pode ver minhas obras mas não pode ver meu coração. As obras são um testemunho para mim e para você.

O nobre puritano Thomas Manton disse: “Pela justiça da fé somos quitados do pecado, e pela justiça das obras somos quitados da hipocrisia”. As obras da obediência nada acrescentam à sua justificação; são a prova visível dela.

É isso que Paulo quer dizer em Romanos 1.5 com a expressão “a obediência por fé”. A fé, em sua essência, é fidelidade ou obediência pactual. Não é que as obras estejam de um lado e a fé de outro, mantendo-se como opostos, e sim que a fé salvadora, em sua essência, é uma fé obediente. A propriedade intrínseca ou indispensável que caracteriza a fé bíblica é a obediência. A fé salvadora, pela natureza do caso, produz obras por causa daquilo que é.

Em Tiago 2 não se encontra uma refutação da justificação pela fé somente, nem em qualquer outro lugar na Bíblia, para dizer a verdade. É uma doutrina resolvida e segura tanto em Tiago quanto em Paulo. Possamos nós pregá-la com confiança e ousadia!

Dr. John Armstrong

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Deus Deve Ser Amado por Ele Mesmo - Tozer

SENDO DEUS O QUE ELE É, precisamos buscá-lo por Ele mesmo e jamais como um meio para obter uma outra coisa.

Quem quer que busque outros objetos e não Deus está sozinho; é possível que venha a conseguir tais objetos, mas jamais terá Deus. Deus nunca é encontrado acidentalmente: “Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29.13).

Quem quer que busque a Deus como um meio para atingir um fim desejado, não encontrará Deus. O Deus poderoso, o criador dos céus e da terra, não será um dentre muitos tesouros, nem sequer o maior deles. Ele será tudo em todos ou nada será. Deus não se deixa manipular. Sua misericórdia e graça são infinitas e sua compreensão paciente é incomensurável, mas não ajudará os homens em seu esforço egoísta para obter ganhos pessoais. Não auxiliará os homens a atingir fins que, uma vez alcançados, usurpem o lugar que por direito lhe pertence no seu interesse e afeição.

O cristianismo popular, entretanto, dá a sua maior ênfase à idéia de que Deus existe para ajudar as pessoas a progredirem neste mundo. O Deus dos pobres tornou-se o Deus de uma sociedade afluente. Cristo não mais se recusa a ser juiz ou divisor entre irmãos gananciosos. Ele pode ser agora persuadido a ajudar o irmão que o aceitou a aproveitar-se do irmão que o rejeitou.

Um exemplo crasso do esforço moderno para manipular Deus, favorecendo propósitos egoístas, é a história do conhecido comediante que depois de repetidos fracassos, prometeu a alguém que chamava de Deus que se o ajudasse a ter sucesso no mundo do palco ele o recompensaria contribuindo generosamente para o cuidado das crianças enfermas. Pouco depois teve êxito em várias casas noturnas e na televisão. Ele cumpriu a sua palavra e está levantando grandes somas em dinheiro para construir hospitais infantis. Essas contribuições para a caridade, em sua opinião, são o preço bem pequeno a pagar pelo sucesso em um dos campos mais difíceis do empreendimento humano.

É possível desculpar a atitude desse artista como algo a ser esperado de um pagão do século XXI; mas que multidões de evangélicos no mundo acreditassem realmente que Deus tivesse algo a ver com o acontecido não pode ser tão facilmente posto de lado. Esta visão diminuída e falsa da divindade é uma das principais razões da imensa popularidade gozada por Deus hoje em dia entre os bem nutridos ocidentais.

O ensino bíblico é que Deus é Ele mesmo o fim para o qual o homem foi criado. “Quem mais tenho eu no céu?” clamou o salmista, “não há outro em quem eu me compraza na terra” (Sl 73.25). O primeiro e maior mandamento é amar a Deus com todas as fibras do nosso ser. Onde existe um amor assim, não pode haver lugar para um segundo objeto. Se amarmos a Deus quanto devemos, não podemos certamente sequer imaginar um objeto a ser amado além dEle, que possa ajudar-nos a obter.

Bernard de Clairvaux inicia seu pequeno e brilhante tratado sobre o amor de Deus com uma pergunta e uma resposta. A pergunta: por que devemos amar a Deus? A resposta: Porque Ele é Deus. Ele desenvolve ainda mais a idéia, mas para o coração esclarecido pouco mais precisa ser dito. Devemos amar a Deus porque Ele é Deus. Além disto os anjos não podem pensar.

Sendo quem é, Deus deve ser amado por Ele mesmo. Ele é a razão para que o amemos, da mesma forma que é a razão de seu amor por nós e para todos os outros atos por Ele realizados, os que irá realizar e está realizando, perpetuamente. O principal motivo de Deus para tudo é o seu próprio prazer. A busca de razões secundárias é gratuita e perfeitamente inútil. Ela supre os teólogos de uma ocupação e acrescenta páginas aos livros de doutrina, mas é duvidoso que apresente quaisquer explicações válidas.

Está, porém, na natureza de Deus partilhar. Seus poderosos atos de criação e redenção foram feitos para o seu próprio prazer, mas o seu prazer se estende a todas as coisas criadas. Basta olhar para uma criança sadia brincando ou ouvir o canto de um pássaro no fim da tarde e saberemos que Deus quis que seu universo fosse cheio de alegria.

Os que foram espiritualmente capacitados a amar a Deus por Ele mesmo, irão descobrir milhares de fontes brotando do trono cercado de arco-íris, e ofertando tesouros incontáveis que deve ser recebidos com gratidão reverente como sendo o transbordar do amor de Deus por seus filhos. Cada dom é um presente da graça que, por não ter sido buscado igoisticamente, pode ser gozado sem prejuízo para a alma. Neles se incluem as bênçãos simples da vida, tais como a saúde, o lar, a família, amigos congeniais, alimento, abrigo, as alegrias puras da natureza ou os prazeres artificiais da música e da arte.

O esforço de encontrar esses tesouros, buscando-os diretamente, em separado de Deus, tem sido a principal atividade humana no correr dos séculos; e este tem sido o fardo e o mal do homem. O esforço de obtê-los como o motivo oculto por trás da aceitação de Cristo pode ser algo novo sob o sol; mas novo ou velho é um mal que só pode terminar em condenação.

Deus quer que nós o amemos por Ele mesmo sem quaisquer razões ocultas, confiando nEle para que seja tudo o que nossas naturezas requerem. Nosso Senhor disse isto muito bem: Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).

Que é Graça? Abraham Booth ( 1734 - 1806 )

QUE É GRAÇA?

Paulo emprega a palavra “graça” para significar o oposto de “obras e méritos”. “Pela graça sois salvos...não por obras” (Ef 2.8,9). Graça significa FAVOR IMERECIDO OU FAVOR DADO SEM QUE SEJA GANHO POR ESFORÇO ALGUM”.

Pela palavra “misericórdia” entendemos que alguém em dificuldade ou derrotado está recebendo um benefício. Misericórdia faz supor uma pessoa sofredora a quem ela é concedida. Semelhante, “graça” sempre pressupõe indignidade na pessoa que a recebe.

Se alguém nos dá qualquer coisa por graça, é porque nós não merecemos. Qualquer coisa que mereçamos por direito não pode ser nossa por graça. Graça e mérito não podem estar ligados no mesmo ato. São realidades tão opostas como luz e trevas. “Se é por graça, então não é por obras; de outra maneira, a graça já não é graça” (Rm 11.6)

Assim, dizemos que nós recebemos a graça de Deus. Estamos dizendo, ao mesmo tempo, que somos indignos dela e que não podemos trabalhar por ela. Dessa maneira, definimos graça com ela é usada no Novo Testamento, ou seja,

“o eterno e absolutamente livre favor de Deus na doação de bênçãos espirituais e eternas concedido a pessoas indignas e culpadas”.

Nas páginas que se seguem tentarei descrever em que consistem estas bênçãos espirituais e eternas, porém, por agora, note que a graça de Deus é eterna.

A graça de modo algum depende do mérito humano; depende só da vontade de Deus. Não é ganha por mérito nem perdida por culpa. A graça é absolutamente livre de qualquer influencia humana. Portanto nada há que possa derrotá-la, uma vez que ela tenha sido dada. Por isso, Deus pode dizer: “... pois que com amor eterno te amai” (jer 31.3) Tal é a gloriosa base da nossa salvação!

Graça não é como uma franja de ouro na fímbria do vestuário; não é como um enfeite que decora um vestido; porém, é como o propiciatório do Tabernáculo, que era de ouro – de ouro puro – inteiramente de ouro!

Portanto, aprendemos como estão inteiramente enganados os que sugerem que a grala de Deus pode ser alcançada pelas boas obras. A graça de Deus recusa-se a ser ajudada naquilo que ela tem que fazer.

Não seria um insulto à soberania de Deus sugerir que Ele precisa de ajuda do pobre desempenho do homem? Ou a graça é absolutamente livre de toda a nossa influência, ou então NÃO É GRAÇA DE MODO ALGUM.

Luz Requer Visão - A. W. Tozer

Para achar o caminho precisamos de algo mais que luz; precisamos de visão também.

As Escrituras Sagradas são fonte de luz moral e espiritual. “A revelação das tuas palavras esclarece”, diz o salmista; e outra vez., “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz par os meus caminhos”.

Creio na inspiração plenária das Escrituras como originalmente dadas, e posso cantar:

“Louvamos-te pelo brilho
Que da página sagrada
Que é luz para nossos passos,
Através das eras fulge”.

Entretanto, penso que não lanço nenhuma desonra à página sagrada quando digo que o brilho dela não basta. A luz, só, não é suficiente.

A luz é uma figura que a Bíblia e os mestres religiosas empregam com freqüência quando querem falar de conhecimento.Enquanto os homens não têm conhecimento, diz-se que estão nas trevas. A vida do conhecimento é como o surgir do sol. Mas o raiar do sol nada significa para os olhos que não vêem. Somente os dotados de visão se beneficiam com a luz do sol.

Entre a luz e a visão a diferença é grande. Uma pessoa pode ter luz sem ter visão; é cega. Outra pode ter visão sem ter luz; é temporariamente cega, mas a chegada da luz rapidamente a capacita a ver. O carcereiro de Filipos tinha bons olhos, mas pediu “uma luz” para ver Paulo na escuridão. Mas nem toda a luz do sol, da lua e das estrelas poderiam ajudar Sansão, pois os filisteus lhe tinham furado os olhos.

É sempre noite para o cego, e sempre é dia para o homem que leva consigo uma lâmpada – desde que possa ver. Um dístico do Livro Hindu do Bom Conselho assinala isto:

“Mesmo que o cego leve uma lanterna
Seus passos se desviarão”.

Que nos diz isso tudo? Simplesmente que a instrução religiosa, mesmo da boa, não é suficiente em si. Traz luz mas não dá visão. Sem a iluminação do Espírito, o texto não pode salvar o pecador. A salvação resulta de uma ação do Espírito no coração. Não pode haver salvação isolada da verdade, mas pode haver, e muitas vezes é o que se dá, verdade sem salvação. Quantos múltiplos milhares aprenderam de cor o catecismo, e ainda vagam nas trevas morais porque não houve iluminação interior!

A suposição de que luz e visão são sinônimos tem trazido tragédia espiritual a milhões. O cego pode encarar um lindo panorama com os olhos bem abertos, e nada vê; e o coração cego pode ouvir a verdade salvadora, e nada entende. Os fariseus olharam diretamente a Luz do Mundo por três anos, mas nenhum raio de luz chegou ao interior do seu ser. A luz não basta.

Os discípulos de Jesus foram instruídos nas Escrituras. Cristo os instrui pessoalmente na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos; todavia, foi preciso um específico ato de “abertura” interior para que pudesse captar a verdade. “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.45). Quando Paulo pregou em Filipos, certa mulher chamada Lídia ouviu, creu, foi batizada e imediatamente pôs a sua casa à disposição de Paulo. Mas uma pequena frase, altamente significativa, explica a coisa toda: “o Senhor lhe abriu o coração” (At 16.14). Lídia recebeu visão bem como luz.

O apóstolo aprendeu bem cedo no seu ministério que, como ele o coloca, “a fé não é de todos”. Ele sabia por quê. “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.3,4)

Satanás não teme a luz enquanto pode manter as suas vítimas sem visão. A mente incapaz de compreender não é afetada pela verdade. O intelecto do ouvinte pode captar a verdade salvadora, e apesar disso o coração não lhe dá resposta moral. Um exemplo clássico disto se vê na história de Benjamim Franklin e George Whitefield. Em sua autobiografia, Franklin narra com alguns pormenores, como ouvira a poderosa pregação do grande evangelista. Chegou a dar uma volta ao redor da praça onde estava Whitefield para verificar pessoalmente a que distância ia aquela voz de ouro. Whitefield falou pessoalmente com Franklin sobre a sua necessidade de Cristo e prometeu orar por ele. Anos mais tarde, Franklin escreveu com muita tristeza que as orações do evangelista não deviam ter feito bem nenhum, pois ainda não se convertera.

Ninguém poria em dúvida o brilhantismo intelectual de Franklin, e certamente Whitefield pregava a verdade integralmente; contudo, aquilo deu em nada. Por quê? A única resposta é que Franklin tinha luz sem visão. Ele jamais viu a luz do mundo. Faze-lo requer um ato de iluminação interna operado pelo Espírito, coisa que aparentemente Franklin nunca recebeu.

A operação interior do Espírito Santo é necessária à fé salvadora. O Evangelho é luz, mas somente o Espírito pode dar visão. Ao procurarmos trazer perdidos a Cristo, devemos orar continuamente no sentido de que recebam o dom de ver. E devemos contrapor a nossa oração àquele espírito trevoso que cega o coração dos homens.

A. W. Tozer

O Legado (Pelagiano ) de Charles Finney

Jerry Falwell descreveu Finney como um de meus heróis e de muitos evangélicos, incluindo Billy Graham.. Lembro-me de ter visitado o Instituto Billy Graham alguns anos atrás; ali observei o lugar de honra dado a Finney na tradição evangélica. Isto foi reforçado pela recordação de minha primeira aula de teologia em uma faculdade evangélica, na qual foi solicitado que lêssemos a obra de Finney.

O avivalista de Nova Iorque tem sido freqüentemente citado e celebrado, como um herói, pelo famoso cantor evangélico Keith Green e pela organização Jovens com Uma Missão. Finney é particularmente estimado entre líderes de movimentos evangélicos conservadores e liberais, tanto por Jerry Falwell quanto por Jim Wallis (da revista Sojourner). E sua marca pode ser vista em vários movimentos que parecem ter posições diferentes, mas que na realidade são herdeiros do legado de Finney.

Para grupos tais como o movimento Vineyard e o de Crescimento de Igrejas, em campanhas políticas e sociais, no televangelismo e no movimento Promise-Keepers (Guardiões da Promessa), .Finney continua vivo!., citando as palavras de um dos presidentes do Wheaton College. Isto acontece porque o impulsomoralista de Finney idealizou uma igreja que, em grande escala, seria um agente de reforma da sociedade e do indivíduo, ao invés de uma instituição onde os meios da graça, a Palavra de Deus e as ordenanças, são colocados à disposição dos crentes que, em seguida, levam o evangelho ao mundo.

No século XIX, o movimento evangélico identificou-se, de maneira crescente, com as causas políticas . a abolição da escravatura, leis sobre o trabalho infantil, os direitos da mulher e a proibição de bebidas alcóolicas. Na virada do século, com a afluência de imigrantes católicos romanos, o que deixou apreensivos muitos protestantes americanos, o secularismo começou a minorar a influência do movimento evangélico sobre instituições (universidades, hospitais, organizações filantrópicas) que os crentes haviam criado e mantido. Em um desesperado esforço para reconquistar este poder institucional e a glória da América Cristã. (um ideal que sempre tem dominado a imaginação de alguns, mas, após a desintegração da Nova Inglaterra Puritana, se tornou ilusório), o protestantismo da virada do século lançou campanhas para americanizar imigrantes, enfatizando o ensino de valores morais e a educação do caráter.

Os evangelistas modelaram seu evangelho em termos de utilidade prática ao indivíduo e à nação. Este é o motivo por que Finney é tão popular. Ele foi grandemente responsável pela mudança da ortodoxia reformada, evidente no Grande Avivamento (nos ministério de Edwards e Whitefield), para o avivalismo arminiano (na realidade, também pelagiano), evidente desde o Segundo Grande Avivamento até ao presente. Para
demonstrar a dívida do evangelicalismo moderno para com Finney, temos de inicialmente observar seus desvios teológicos. Com base nestes desvios, ele tornou-se o pai de alguns dos grandes desafios contemporâneos dentro das próprias igrejas evangélicas, ou seja, o Movimento de Crescimento de Igrejas, o Pentecostalismo e o Avivalismo Político.

Quem era Charles Finney?

Reagindo contra o calvinismo do Grande Avivamento, os sucessores daquele grande movimento do Espírito afastaram-se do caminho do Senhor e seguiram o dos homens, apartaram-se da pregação de conteúdo objetivo (ou seja, Cristo crucificado) para seguir a ênfase de levar as pessoas a fazerem uma decisão.

Charles Finney (1792-1875) ministrou nos rastros do Segundo Avivamento., conforme esse tem sido chamado. Era um advogado e membro da igreja presbiteriana; em certo dia, experimentou .um poderoso batismo do Espírito Santo., que, .à semelhança de uma onda de energia., ele relatou, .percorreu todo meu ser, parecendo vir em ondas de amor líquido.. Na manhã seguinte, ele informou ao seu primeiro cliente: .Não posso mais defender sua causa; tenho um chamado para defender a causa do Senhor Jesus.

Recusando-se a assistir aulas no Seminário Princeton (ou qualquer outro seminário), Finney começou a promover avivamentos na parte norte do Estado de Nova Iorque. Um de seus mais populares sermões era .Os Pecadores Estão Obrigados a Mudar Seus Próprios Corações.

Ao considerar qualquer assunto a ser ensinado, esta era a pergunta fundamental de Finney: Isto é bom para converter pecadores?. Um dos resultados do avivalismo de Finney foi a divisão dos presbiterianos dos Estados de Filadélfia e de Nova Iorque em facções calvinistas e arminianas.

As .Novas Medidas de Finney incluíam o banco dos ansiosos (precursor do atual apelo para (.vir à frente.), táticas emocionais, que levavam as pessoas a sentirem-se desesperadas e chorarem, e outros .incentivos., como ele e seus seguidores os chamavam. Finney se tornou mais e mais hostil ao presbiterianismo, referindo-se de maneira crítica na introdução de sua obra ,Teologia Sistemática; à Confissão de Westminster e a seus elaboradores, como se eles tivessem criado um .periódico papal. e .elevado sua Confissão e Catecismo ao trono do papa e ao lugar do Espírito Santo.

De maneira notável, Finney demonstra quão profundamente o avivalismo arminiano, por causa de seu apelo aos sentimentos naturais, tende a ser uma forma polida de liberalismo teológico, visto que ambos se renderam ao Iluminismo e seu culto do entendimento e da moralidade humana:

O fato de que a Confissão elaborada pela Assembléia de Westminster seria reconhecida no século XIX como um padrão para a igreja ou para um grupo específico dela não é apenas surpreendente, mas também (tenho de afirmar) é bastante ridículo. É tão ridículo na teologia quanto o seria em qualquer outra ciência. É melhor ter um papa vivo do que um morto.

O que estava errado na teologia de Finney?

Não precisamos ir além do índice de sua Teologia Sistemática para reconhecer que toda a teologia de Finney girava em torno da moralidade humana. Os capítulos 1 a 5 falam sobre o governo, a obrigação e a unidade de ação moral. Os capítulos 6 e 7 referem-se à .Obediência Completa.; os capítulos 8 a 14 discursam sobre o amor, o egoísmo, virtudes e pecados em geral. Somente no capítulo 21, o leitor acha alguma coisa especificamente cristã, reportando-se à expiação.

A este capítulo segue um discurso sobre a regeneração, o arrependimento e a fé. Existe um capítulo sobre a justificação acompanhado por seis sobre a santificação. Em outras palavras, Finney realmente não escreveu uma Teologia Sistemática, e sim uma coletânea de ensaios a respeito de moralidade.

Entretanto, não estamos afirmando que a obra de Finney não possui algumas declarações teológicas significativas.
Respondendo à pergunta: .O crente deixa de ser crente sempre que comete um pecado?.Finney disse: .Sempre que comete pecado, o crente deixa de ser santo. Isto é evidente. Sempre que peca, ele precisa ser condenado; tem de incorrer na penalidade da lei de Deus. Se alguém disser que o preceito da lei ainda vigora, mas que, no caso do crente, a penalidade foi anulada para sempre, eu respondo afirmando que anular a penalidade da lei é cancelar seu preceito, pois, se o preceito não demanda punição, não existe lei, e sim apenas uma advertência ou conselho. Por conseguinte, o crente é justificado em proporção à sua obediência e precisa ser condenado, quando pecar; de outra forma, o antinomianismo se torna verdadeiro...

Neste sentido, o crente que peca e o incrédulo encontram-se exatamente na mesma situação. (p. 46). Finney acreditava que Deus exige perfeição absoluta, mas, ao invés de levar as pessoas a buscarem a perfeita justiça em Cristo, ele concluiu que: ....a plena obediência no presente é a condição da justificação. Porém, quanto à pergunta: o homem pode ser justificado enquanto o pecado permanece nele?, respondemos: é certo que não, quer seja com base em princípios da lei ou do evangelho, a menos que a lei seja anulada.

Ele pode ser perdoado, aceito e justificado, no sentido evangélico, enquanto o pecado, em qualquer grau, permanece nele? Absolutamente, não. (p. 57).

Posteriormente falaremos mais sobre a doutrina da justificação ensinada por Finney, mas agora já podemos ressaltar que ela está fundamentada sobre a negação da doutrina do pecado original. Afirmado tanto por católicos quando por evangélicos, este ensino bíblico repete com insistência que todos somos nascidos em pecado e herdamos a corrupção e a culpa de Adão. Estamos, portanto, em escravidão a uma natureza pecaminosa.

Conforme alguém disse: Nós pecamos porque somos pecadores; a condição de pecado determina nossos atos pecaminosos, e não vice-versa. Finney, entretanto, seguiu os ensinos de Pelágio, o herege do quinto século, que, por negar essa doutrina, foi condenado pelos concílios da igreja, mais do que qualquer outra pessoa na história eclesiástica.

Ao contrário da doutrina do pecado original, Finney acreditava que os seres humanos são capazes de escolher se desejam ser corruptos por natureza ou redimidos, referindo-se à doutrina do pecado original como um dogma sem lógica e fundamento bíblico. (p. 179). Em termos claros, ele negou a idéia de que os homens possuem uma natureza pecaminosa (ibid.). Por conseguinte, se Adão nos leva ao pecado e isto ocorre não porque herdamos a sua culpa ou corrupção, e sim porque seguimo s o seu triste exemplo, tal idéia nos conduz a pensar logicamente que Cristo, o Segundo Adão, nos salva por meio de seu exemplo. Este é exatamente o ponto aonde Finney chegou, ao explicar a doutrina da expiação.

A primeira coisa que temos de observar sobre a expiação, dizia Finney, é que Cristo não poderia ter morrido em favor do pecado de qualquer outra pessoa, exceto o dele mesmo. Sua obediência à lei e sua perfeita justiça eram suficientes para salvar somente a Si mesmo, mas não podiam ser aceitas em favor de outros.

O fato de que toda a teologia de Finney resultou de uma intensa paixão por aperfeiçoamento moral pode ser visto nesta afirmativa: .Se Cristo tivesse obedecido a lei como nosso Substituto, por que a insistência bíblica sobre nosso retorno à obediência pessoal, apresentando esta obediência como um requisito fundamental para nossa salvação?. (p. 206). Em outras palavras, por que Deus insiste em salvar-nos por meio de nossa obediência, se a obra de Cristo foi suficiente?
O leitor recordará as palavras do apóstolo Paulo, no que concerne a este assunto: .Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão. (Gl 2.21).

A resposta de Finney parece concordar com este versículo. A diferença é esta: ele não tinha dificuldade para aceitar ambas as premissas. É evidente que essa não é toda a verdade, pois Finney acreditava que Cristo havia morrido por algum motivo não por alguém, mas por alguma coisa. Em outras palavras, Cristo morreu por um objetivo e não por um povo.

O objetivo da morte dEle foi reafirmar o governo moral de Deus e conduzir-nos à vida eterna por meio de seu exemplo, assim como o exemplo de Adão nos incita ao pecado. Por que Cristo morreu? Deus sabia que .a expiação ofereceria às criaturas os mais elevados motivos a
serem imitados. O exemplo é a mais poderosa influência moral que pode ser praticada... Se a benevolência manifestada na expiação não subjuga o egoísmo dos pecadores, a situação destes é desesperadora. (p. 209).

Portanto, não somos pecadores desesperados que precisam ser redimidos, e sim pecadores desorientados que necessitam de uma demonstração de altruísmo tão comovente, que seremos motivados a abandonar o egoísmo. Finney não apenas acreditava que a teoria de uma expiação de influência moral, era a principal maneira de se entender a cruz; ele explicitamente negava a expiação vicária, pois esta admite que a expiação foi literalmente o pagamento de um débito, que, conforme vimos, não é coerente com a natureza da expiação.
É verdade que a expiação, por si mesma, não assegura a salvação de qualquer pessoa (p. 217).

Agora consideremos a opinião de Finney a respeito de como se aplica a expiação. Rejeitando o calvinismo ortodoxo dos antigos presbiterianos e congregacionais, Finney argumentou tenazmente contra a crença de que o novo nascimento é um dom de Deus, insistindo que .a regeneração consiste na atitude do próprio pecador mudar sua intenção, sua preferência e sua escolha definitiva; ou mudar do egoísmo para o amor e a benevolência., impulsionado pela influência moral do comovente exemplo de Cristo (p.224). .A pecaminosidade original, a regeneração física e todos os dogmas resultantes e similares a estes opõem-se ao evangelho e são repulsivos à inteligência humana. (p.236).

Não levando em conta o pecado original, a expiação vicária e o caráter sobrenatural do novo nascimento, Finney prosseguiu adiante e atacou .o artigo pelo qual a igreja mantém-se de pé ou cai: a justificação gratuita exclusivamente pela fé.

Os reformadores protestantes insistiam, com base em evidentes textos bíblicos, que a justificação (no grego, .declarar justo., ao invés de tornar justo.) era um veredito forense (isto é, .judicial.). Em outras palavras, enquanto o catolicismo romano sustentava que a justificação era um processo para tornar melhor uma pessoa má, os reformadores argumentavam que a justificação era um pronunciamento ou uma declaração de que alguém possuía a retidão de outra pessoa (ou seja, Cristo). Portanto, a justificação era um veredito perfeito, outorgado de uma vez por todas, declarando que alguém permanecia íntegro desde o início da vida cristã, e não em qualquer outra etapa desta.

As palavras chaves da doutrina evangélica eram forense (significando judicial) e imputação. (lançar na conta de alguém; opondo-se à idéia de .infusão. de justiça na alma da pessoa). Sabendo tudo isso, Finney declarou: É impossível e absurdo que os pecadores sejam declarados legalmente justos... Conforme veremos, há várias condições, mas apenas um fundamento, para a justificação dos pecadores. Já dissemos que não existe uma justificação no sentido forense ou judicial, e sim uma justificação fundamentada na ininterrupta, perfeita e universal obediência à lei. Isto, sem dúvida, é negado por aqueles que asseveram que a justificação evangélica, ou a justificação de pecadores arrependidos, possui o caráter de uma justificação forense ou judicial.
Eles se apegam à máxima judicial de que aquilo que um homem faz através de um outro é considerado como sendo feito por ele mesmo; portanto, a lei considera a obediência de Cristo como nossa, com base no fato de que Ele a obedeceu por nós. A isto o próprio Finney respondeu: .A doutrina de uma justiça imputada, ou seja, que a obediência de Cristo à lei foi reputada como nossa, fundamenta-se em uma suposição falsa e sem lógica. Afinal de contas,
a justiça de Cristo poderia justificar somente a Ele mesmo. Jamais poderia ser imputada a nós...
Era naturalmente impossível para Ele obedecer a lei em nosso favor. Esta .interpretação da expiação como base da justificação dos pecadores tem sido uma ocasião de tropeço para muitos. (pp. 320-322).

O conceito de que a fé é a única condição da justificação expressa um ponto de vista antinomiano., disse Finney. .Veremos que a perseverança na obediência até ao fim é também uma condição para a justificação..Além disso, a .santificação presente, no sentido de plena consagração a Deus, é outra condição... da justificação. Alguns teólogos transformaram a justificação em uma condição para a santificação, ao invés de fazerem da santificação uma condição para a justificação. Porém, conforme observaremos, este é um conceito errado sobre a justificação. (pp. 326-327). Cada ato de pecado exige .uma nova justificação. (p. 321).

Referindo-se .aos elaboradores da Confissão de Fé de Westmisnter. E ao ponto de vista de uma justiça imputada, Finney admirou-se, afirmando: .Se isto não é antinomianismo, não sei o que é. (p. 332). Essa imputação legal era irracional para ele, por isso concluiu: .Considero estes dogmas como fantasiosos, descrevendo mais um romance do que um sistema teológico. (p. 333).

Na seção em que falou contra a Assembléia de Westminster, ele finalizou dizendo: As relações entre o antigo ponto de vista da justificação e o ponto de vista da depravação é óbvio. Os membros da Assembléia sustentam, conforme já vimos, que a constituição do homem, em todas as suas partes e faculdades, é pecaminosa. Naturalmente, um retorno à santidade pessoal, no presente, no sentido de uma completa conformidade à lei de Deus, na opinião deles, não pode ser uma condição para justificação. Eles precisam ter uma justificação
enquanto ainda permanecem em certo grau de pecado. Isto tem de ser realizado por meio da justificação imputada. O intelecto se revolta diante de uma justificação em pecado. Portanto, um método foi inventado para que os olhos da lei e de seu Doador sejam retirados do pecador e focalizados em seu Substituto, que obedeceu perfeitamente a lei. (p.339).

Finney chamou essa doutrina de outro evangelho. Insistindo que a descrição realística de Paulo em Romanos 7 realmente se refere à vida do apóstolo antes que ele houvesse atingido a .perfeita santificação., Finney ultrapassou Wesley ao argumentar em favor da possibilidade da santificação completa nesta vida.

John Wesley dizia que é possível para o crente atingir a plena santificação, mas, quando reconheceu que o melhor dos crentes peca, ele acomodou-se à realidade dos fatos, afirmando
que a experiência da .perfeição cristã. era uma questão de coração e não de ações. Em outras palavras, um crente pode ser aperfeiçoado em amor, de modo que este amor se torne a única motivação para as suas atitudes, enquanto ocasionalmente comete erros.

Finney rejeitou esta opinião e insistiu que a justificação está condicionada à perfeição completa e total . ou seja, a .inteira conformidade à lei de Deus, e o crente pode fazer isso; mas, quando ele transgride em algum ponto, uma nova justificação é exigida.
Conforme ressaltou eloqüentemente B. B. Warfield, o teólogo de Princeton, há duas religiões na história da raça humana: o paganismo da qual o pelagianismo é uma expressão . e a redenção sobrenatural.

Juntamente com Warfield e outros que com seriedade advertiram seus irmãos sobre os erros de Finney e seus sucessores, também temos de avaliar as idéias amplamente heterodoxas dos protestantes americanos.

Com suas raízes no avivalismo de Finney, talvez o protestantismo liberal e o protestantismo evangélico, afinal de contas, não estejam tão afastados um do outro! As .Novas Medidas de Finney, semelhantes às do moderno Movimento de Crescimento de Igreja, tornaram a escolha do homem e as emoções o centro do ministério da igreja, ridicularizaram a teologia e substituíram a pregação de Cristo por uma pregação voltada a conversões.

Com base no moralismo natural advogado por Finney, as campanhas políticas e sociais dos cristãos alicerçaram sua fé na humanidade e em seus próprios recursos para a salvação de si mesma. Ecoando um pouco de deísmo, Finney declarou: Na vida espiritual nada existe além das capacidades naturais; ela consiste totalmente no correto exercício dessas capacidades. É apenas isto e nada mais.

Quando a humanidade se torna verdadeiramente religiosa, as pessoas são capacitadas a demonstrar esforços que eram incapazes de manifestar antes. Exercem apenas capacidades que tinham antes, e utilizavam de maneira errônea, e agora as empregam para a glória de Deus. Deste modo, visto que o novo nascimento é um fenômeno natural, o mesmo ocorre ao avivamento: Um avivamento não é um milagre, tampouco depende deste, em qualquer sentido; é simplesmente um resultado filosófico da correta utilização dos meios estabelecidos, assim como qualquer outro resultado produzido pelo emprego destes meios.. A crença de que o novo nascimento e um avivamento dependem necessariamente da atividade divina era perniciosa para Finney.

Ele disse: Nenhuma doutrina é mais perigosa do que esta para o progresso da igreja, e nada pode ser mais absurdo. (Revivals of Religião [Avivamentos da Religião], Revell, pp. 4-5).

Quando os líderes do Movimento de Crescimento de Igreja reivindicam que a teologia impede o crescimento da igreja e insistem que, não importando o que determinada igreja acredita em particular, o crescimento é uma questão de seguir os princípios adequados, estes líderes estão demonstrando seu débito a Finney.

Quando os líderes do movimento Vineyard exaltam a iniciativa subcristã de Finney, bem como o gritar, a desordem, o falar alto, o rir e outros fenômenos estranhos, com base na idéia de que isto funciona. e que devemos julgar a verdade destas coisas pelos frutos produzidos, esses líderes estão seguindo as idéias de Finney e de William James, o pai do pragmatismo americano.

Este último declarou que uma verdade precisa ser julgada de acordo com seu valor na prática.
Deste modo, na teologia de Finney, Deus não é soberano, o homem não é pecador por natureza, a expiação realmente não é um pagamento pelo pecado, a justificação por meio da imputação é um insulto à razão e à moralidade, o novo nascimento é apenas o resultado da utilização de técnicas bem-sucedidas, e o avivamento é o resultado natural de campanhas inteligentes.

Em sua recente introdução à edição do bicentenário da Teologia Sistemática de Finney, Harry Conn recomenda o pragmatismo de Finney: .Muitos servos de Deus procuram um evangelho que funciona; sinto-me feliz em declarar que o acharão nesta obra.
Conforme Whitney R. Cross cuidadosamente documentou em seu livro, The B u r n e d - Over
District; The Social and Intellectual History of Enthusiastic Religion in Western New York, 1800- 1850 (Cornell University Press, 1950), todo o território em que com mais freqüência se realizavam os avivamentos de Finney era também o berço dos cultos perfeccionistas que infestaram aquele século. Um evangelho que .funciona. hoje, para os zelosos perfeccionistas, apenas cria os supercrentes iludidos e esgotados de amanhã.

É desnecessário dizer que a mensagem de Finney é radicalmente contrária à fé evangélica, assim como as diretrizes fundamentais de movimentos vistos ao nosso redor, que demonstram as marcas de Finney: o avivalismo (ou seu representante moderno, .o Movimento de Crescimento de Igreja.), o perfeccionismo e o emocionalismo pentecostal, e as tendências anti-intelectuais e antidoutrinárias do fundamentalismo e evangelicalismo moderno.

Foi por intermédio do .Movimento da Vida Superior. (Higher Life Movement), do final do século XIX e início do século XX, que o perfeccionismo de Finney chegou a dominar o recém nascido movimento dispensacionalista através de Lewis Sperry Chafer, fundador do Seminário de Dallas e autor de He That Is Spiritual (Aquele que é Espiritual), Finney, entretanto, não é o único responsável; ele é mais um produto do que um produtor.

Apesar disso, a influência que ele exerceu e continua exercendo é abrangente. O avivalista não apenas abandonou o princípio fundamental da Reforma (a justificação), tornando-se um rebelde contra o cristianismo evangélico, como também rejeitou as doutrinas que têm sido acreditadas por católicos e protestantes (tais como o pecado original e a expiação vicária). Por isso, Finney não é simplesmente um arminiano, mas um pelagiano. Ele não é apenas um inimigo do protestantismo evangélico mas também do cristianismo histórico, no mais abrangente sentido da palavra.

Não enfatizo estas coisas com satisfação, como se desejasse regozijar-me em denunciar os heróis dos evangélicos americanos. Porém, sempre é bom, especialmente quando perdemos algo de valor, retroceder nossos passos, a fim de determinar onde ou quando, pela última vez, o tínhamos em nossa possessão.

O propósito deste artigo é focalizar, com sinceridade, o grave afastamento do cristianismo bíblico promovido através do avivalismo americano. Até que sejamos capazes de encarar este afastamento, estaremos perpetuando um caminho perigoso e distorcido. Em uma afirmativa, Finney estava absolutamente correto: o evangelho afirmado e defendido pelos teólogos de Westminster (os quais ele atacou diretamente) e por todos os evangélicos é .outro evangelho., no sentido de ser distinto daquele que Finney proclamava. A grande questão do momento é: Qual destes é o nosso evangelho?

Todas as citações de Finney foram retiradas de seu livro Teologia Sistemática (.Systematic Theology., Bethany, 1976).

M. S. Horton

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Milagres falsos.

A questão que envolve o problema de Deus realizar milagres nos dias de hoje é complexa e freqüentemente controversa. Se uma pessoa no campo evangélico declara que não crê nos milagres que acontecem hoje, ela freqüentemente é vista com desconfiança. A suspeita se levanta porque a descrença nos milagres está associada ao naturalismo, ceticismo ou Liberalismo (Uso a letra L maiúscula para Liberal a fim de me referir a uma escola diferente de teologia e não a uma pessoa que, de algum modo, possa ser considerada liberal.)

Uma vez que um ponto muito importante da disputa entre o Liberalismo e o protestantismo envolve milagres bíblicos, a disputa se estende à questão dos milagres atuais também. Há uma tendência aqui de atribuir culpa por associação; como o Liberalismo não crê que os milagres acontecem hoje, estamos propensos a pensar que qualquer pessoa que negue que os milagres acontecem hoje deva ser Liberal. A diferença fundamental entre evangélicos e Liberais na questão dos milagres não é se eles acontecem hoje, mas se eles aconteceram no passado, como afirma a Bíblia.

João Calvino, por exemplo, raramente é considerado um Liberal. Calvino e Lutero, na época da Reforma, foram repetidamente desafiados pela Igreja Católica Romana a realizarem milagres que autenticassem seus ensinamentos. Roma apelou para seus milagres documentados de santos como provas de que Deus estava falando por intermédio da Igreja Católica Romana e não por meio dos reformadores. De sua parte, os reformadores negaram que o ofício apostólico continuava na Igreja ou que a Igreja era a fonte de nova revelação divina.

A discussão sobre a revelação contínua era crítica à posição da Reforma de Sola Scriptura , a crença de que as Escrituras eram suficientes e a única fonte de revelação especial escrita. Roma alegava que uma segunda fonte de tal revelação especial acontecia na tradição da Igreja. Essa fonte dupla de revelação foi decretada no Concílio
de Trento no século XVI e reafirmada pela encíclica papal de Pio XII, Humani Generis , no século XX. Roma, consciente da importância bíblica de comprovação e testemunho dos milagres aos agentes da revelação, podia apelar aos milagres da Igreja para sustentar sua declaração de que ele era a verdadeira Igreja e que os reformadores eram falsos profetas.

Esta questão da falta de milagres dos reformadores foi mencionada por Calvino em sua carta ao rei da França que introduz sua famosa obra As Institutas. Calvino diz:

Que de nós exigem milagres, agem de má fé. Ora, não estamos [nós] a forjar algum Evangelho novo, ao contrário, retemos aquele mesmo à confirmação de cuja verdade servem todos os milagres que outrora operaram assim Cristo como os Apóstolos. E isto de singular têm [eles] acima de nós, que podem confirmar a sua fé mediante constantes milagres até o presente dia! Contudo, [o fato é que] estão antes a invocar milagres que se prestam a perturbar o espírito doutra sorte inteiramente sereno, a tal ponto são [eles] ou frívolos ou ridículos, ou vão e mendazes (As Institutas – Editora Cultura Cristã, 1985, SP; vol. 1, p. 20).

Os reformadores magisteriais alegavam que a doutrina que seguiam era confirmada pela autoridade da Bíblia. Observamos nesses argumentos que nem Roma, nem os reformadores desafiaram a premissa de que os milagres funcionam como sinais que autenticam os agentes da revelação; eles concordavam sobre essa questão. O pomo da discórdia era se a revelação continuava além da era apostólica e com a revelação contínua, a autenticação contínua por meio do milagre. Calvino e Lutero desafiaram a autenticidade não só dos ensinamentos de Roma e de sua declaração de uma autoridade apostólica e revelação contínua, mas a autenticidade de seus milagres declarados. Os reformadores achavam que os milagres de Roma não eram apenas frívolos, mas falsos. Eles negavam que os milagres eram verdadeiros de fato.

Uma coisa está clara sobre esta disputa. A questão não era se Deus podia realizar milagres, mas se a Bíblia era a única fonte de revelação especial registrada. Essa questão é freqüentemente ignorada na discussão atual sobre a continuidade de milagres. Dentro do cristianismo hoje, especialmente, mas não exclusivamente na facção carismática, vêm sendo feitas declarações da nova revelação de Deus e a presença abundante de novos milagres. A possibilidade de milagres atuais é considerada tão grande que cartazes são vendidos nas livrarias cristãs e adornam os gabinetes de muitos pastores com a frase “Espere por um Milagre!”. Nesses círculos, os milagres não são só considerados possíveis, mas são esperados. Os evangelistas prometem milagres em seus cultos de renovação e, até mesmo, declaram realizá-los em rede nacional de televisão.

Devemos também ter o cuidado de observar que muitos evangélicos estão convencidos de que a revelação não continua até hoje, mas que os milagres continuam. Eles separam os milagres da revelação na suposição de que podemos ter operadores de milagres sem revelação enquanto outros alegam que você pode ter a revelação sem os milagres. Uma vez que os milagres têm outras funções além de agentes que testificam a revelação, eles podem continuar sem qualquer revelação correspondente.

A posição clássica da Reforma sobre essa questão concorda que os milagres têm outras funções além de autenticar os agentes da revelação, como vimos. Isto é, os milagres podem fazer mais do que atestar os agentes da revelação. Contudo, a questão continua; Eles podem fazer menos? Nisto reside o problema. Se um não-agente da revelação é capaz de realizar milagres, como os milagres podem funcionar como provas do testemunho de um agente da revelação? Se agentes e não-agentes da revelação podem realizar milagres, que valor de testemunho pode existir em um milagre? Se um falso profeta pode realizar um milagre, o verdadeiro profeta não pode apelar aos milagres como provas de sua própria posição. O problema fica mais difícil quando vemos que o Novo Testamento apela aos milagres dos apóstolos como provas de sua autoridade, o que é claramente um apelo ilegítimo e um argumento falso se é verdade que os não-agentes da revelação podem realizar milagres.

Fui convidado certa vez para falar em uma reunião de livreiros cristãos na época em que o livro Bom Dia, Espírito Santo, de Benny Hinn, era o mais vendido no mercado cristão. Perguntei: se Hinn estava realizando os milagres que ele declarava realizar, por que ninguém estava defendendo que seu livro fosse acrescentado ao cânon do Novo Testamento? Hinn declarava ter recebido uma nova revelação, que Deus ainda falava audivelmente a ele; conseqüentemente, ele tinha todas as credenciais exigidas de um profeta da Bíblia.

Uma das coisas que está notavelmente ausente no repertório dos operadores de milagres modernos é o tipo de milagres que eram realizados por intermédio dos agentes bíblicos da revelação. Benny Hinn realiza seus milagres em um palco com um equipamento cênico que teria escandalizado os apóstolos. Ele não realiza milagres no cemitério. Quem é o operador de milagres hoje que é capaz de transformar água em vinho ou ressuscitar pessoas que morreram há quatro dias? Benny Hinn não pode separar o mar Vermelho ou fazer com que machados flutuem. Por que não? A qualidade do milagre que sobrevive até os dias de hoje é menor do que aquela dos realizados pelos agentes bíblicos da revelação? Será que o braço do Senhor está encolhido?

Está claro que, como quer que definamos um milagre, devemos colocar os pretensos milagres de hoje em uma classe ou categoria diferente daqueles registrados nas Escrituras. Ninguém está tirando algo do nada atualmente – exceto o dinheiro fabricado pelo governo federal!

Isto significa então que Deus, na sua providência, não está mais agindo? Deus suspendeu e desistiu de exercer seu poder sobrenatural em nosso meio? Deus não responde às orações de modos extraordinários ou concede pedidos de cura quando os médicos dizem que tal cura não pode acontecer? De maneira alguma. Deus ainda vive e age. Ele responde às orações do seu povo de maneiras notáveis. Sua graça sobrenatural está manifesta entre nós todos os dias. Se considerarmos estas coisas como milagres, então, devemos admitir que os milagres ainda estão acontecendo.

Distinguimos três categorias de questões levantadas pela função de milagres para testificar os agentes da revelação e autenticar sua Palavra escrita. Essas categorias incluem a providência comum de Deus, sua providência extraordinária e seus milagres (no sentido restrito já definido). Dentro dessas três categorias, afirmamos que Deus continua sua obra de providência comum e sua obra de providência extraordinária, mas não sua obra de autenticar os agentes da revelação especial com milagres no sentido restrito.


Milagres Satânicos

A questão continua: E os milagres de Satanás? A Bíblia não ensina que Satanás, o Grande Enganador, também pode realizar milagres? Observemos alguns dos textos relevantes da Bíblia que levantam esta questão:

Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti, e te der um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio, de que te houver falado, dizendo: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los; não ouvirás as palavras daquele profeta ou sonhador de sonhos; porquanto o Senhor vosso Deus vos prova, para saber se amais o Senhor vosso Deus com todo o vosso coração, e com toda a vossa alma (Dt 13.1-3).

Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade (Mt 7.22,23).

Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito.

Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais; eis que ele está no interior da casa, não acrediteis (Mt 24.23-26).

A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade (2Ts 2.9-12).

Esta amostra de textos bíblicos chama a atenção para a sóbria admoestação acerca dos poderes e do engano de Satanás. Sua primeira aparição como serpente no Éden foi marcada pela malícia e astúcia, e ele continua a ser um adversário formidável para o povo de Deus. Como Lutero disse: “astuto e mui rebelde” e, uma vez que está unido ao “ânimo cruel”, ele se torna ainda mais perigoso. Satanás é tão habilidoso na arte de enganar que ele é capaz de nos aparecer sub species boni , ou sob os auspícios do bem. Ele pode se transformar em anjo de luz, e ele busca enganar até “os escolhidos” (Mt 24.24 e Mc 13.22).

As Escrituras retratam Satanás como um ser superior a nós. Ele é um ser angelical, embora seja um anjo caído. Como tal, estritamente falando, ele não é um ser sobrenatural. Ele pode ser superior ao que esperamos ver na “natureza” comum, mas ele ainda pertence à ordem natural no sentido de que ele é uma criatura e parte da ordem de criaturas da natureza. Ele não está no nível de Deus e não possui atributos divinos incomunicáveis. Ele é um ser espiritual, porém um espírito finito. Ele não é infinito, eterno, imutável, onisciente ou onipresente. Ele pode ter mais conhecimento do que temos e um poder maior, mas ele não tem o poder divino.

Quando a Bíblia fala de pretensos “milagres” de Satanás, suas obras são chamadas de “sinais e prodígios de mentira” (2Ts 2.9). A questão é a seguinte: o que quer dizer o termo mentira? Isto significa que Satanás pode realizar milagres verdadeiros em favor de uma causa mentirosa? Ou significa que os sinais e prodígios que ele realiza são mentiras na medida em que são truques fraudulentos e não milagres verdadeiros? Os teólogos se dividem nesta questão.

Alguns crêem que Satanás pode realizar milagres verdadeiros no sentido de que ele pode fazer obras que são contra naturam, e alegam que essas obras não são contra peccatum , ou “contra o pecado”. Esta distinção técnica tem o objetivo de mostrar que, embora Satanás possa agir contra a natureza, ele nunca pode, ou pelo menos não poderá, agir contra seus próprios propósitos do mal, que são “a favor do pecado” em vez de “contra o pecado” . O raciocínio é que uma casa dividida contra si mesma não permanece e Satanás nunca agirá contra seus próprios objetivos fazendo milagres. Seus milagres sempre são direcionados contra o bem e a verdade de Cristo. Sabemos, por defensores dessa opinião, que podemos discernir a diferença entre os milagres de Satanás e os milagres de Deus, sujeitando-os à prova da Escritura.

Esse argumento sofre de uma falácia fatal, a falácia do raciocínio circular. Antes de podermos testar os milagres de Satanás pelo contexto da Escritura, devemos, primeiro, ter uma Escritura pela qual testá-los. Lembramos que a Escritura é atestada pelos milagres realizados pelos agentes da revelação que certificam que são porta-vozes de Deus. Contudo, como sabemos que os milagres que os atestaram não foram satânicos? Talvez Nicodemos devesse ter corrigido sua afirmação para, “Bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus ou de Satanás; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele”. Na verdade, foi essa a acusação que os fariseus fizeram contra Jesus, que ele estava realizando milagres pelo poder de Satanás. Neste ponto, sua teologia foi inferior àquela de Nicodemos, que foi mais restritiva na sua visão de milagre.

O mesmo problema que encontramos com a questão dos milagres realizados por não-agentes da revelação está exagerado pelo problema dos milagres satânicos. Se Satanás pode realizar milagres verdadeiros, então o apelo bíblico aos milagres como certificação de que os operadores de milagres vêm de Deus é um apelo ilegítimo.

Penso que faz mais sentido concluir que a “mentira” que descreve os sinais e prodígios de Satanás não só descreve seu objetivo, mas seu caráter. Eles são sinais mentirosos por serem fraudulentos e falsos. Seus sinais se assemelham aos truques espantosos realizados pelos magos do Egito que buscavam ter os mesmos poderes de Moisés:

E o Senhor falou a Moisés e a Arão, dizendo: Quando Faraó vos falar, dizendo: Fazei por vós algum milagre; dirás a Arão: Toma a tua vara, e lança-a diante de Faraó, e se tornará em serpente. Então Moises e Arão entraram a Faraó, e fizeram assim como o Senhor ordenara; e lançou Arão e sua vara diante de Faraó, e diante dos seus servos, e tornou-se em serpente.

E Faraó também chamou os sábios e encantadores e os magos do Egito fizeram também o mesmo com os seus encantamentos. Porque cada um lançou sua vara, e tornaram-se em serpentes; mas a vara de Arão tragou as varas deles (Êx 7.8-12).

Os magos do Egito não tinham mais mágicas do que os mágicos têm hoje. A diferença é que a maioria dos mágicos modernos no mundo ocidental realmente não declara fazer mágica, contudo, está muito disposta a se chamar de “ilusionista”, ou mestre do truque de mão. Existem muitas lojas de magia onde aqueles interessados nessa forma moderna de entretenimento podem aprender muitos truques da arte. Certa vez, tive um vizinho que era marceneiro. Sua especialidade era fazer gabinetes especiais para a realização de mágicas. Eles tinham mecanismos inteligentes de dobradiças, fundos falsos, painéis secretos e freqüentemente espelhos. Os mágicos de hoje não têm problemas para esconder um coelho em uma cartola ou mesmo uma cobra em um tubo desmontável. Quando Moisés e Arão realizaram seus milagres, os magos do Egito acharam que podiam fazer igual. Contudo, não só suas serpentes foram tragadas no processo, eles ficaram aflitos quando logo se esgotou seu saco de truques e não puderam realizar os feitos dos verdadeiros operadores de milagres.

Alguns dos truques realizados pelos mágicos modernos são verdadeiramente espantosos para aqueles que os assistem. A ironia é que, embora muitos deles exijam grande habilidade e anos de uma cuidadosa prática, alguns dos feitos mais magníficos que eles realizam são, ao mesmo tempo, alguns dos mais simples de se executar.

Lou Costello ganhava muito dinheiro em apostas quando mostrava uma pilha normal de cartas e pedia a um “trouxa” para selecionar qualquer carta do monte. Então, Lou lhe dizia que conhecia alguém em uma cidade distante que era um confiável telepata. Lou apostava que se o homem ligasse para o telepata e pedisse para falar com o mago, esse mago lhe contaria, por meio de telepatia, qual carta ele tinha selecionado. Quando o tolo fazia a aposta (como Jackie Gleason admitiu ter feito uma vez), ele discava o número e chamava o mago. O mago pedia que o homem pensasse na carta que tinha selecionado e, então, prontamente, lhe dizia a carta pelo telefone… Este truque funcionava todas as vezes.

Como Costello ou o mago faziam isso? Era um trambique simples. Costello tinha cinqüenta e dois “magos” espalhados por todo o país. Cada um era responsável por uma carta em particular. Costello memorizava o mago e seu número de telefone para todas as cinqüentas e duas cartas do monte. Quando o trouxa escolhia uma carta, Costello simplesmente lhe dava o nome do mago responsável pela carta em questão. Toda vez que aquela pessoa recebia um telefonema de alguém pedindo um mago, ela sabia qual era a carta que devia identificar.

Os truques de Satanás são bem mais sofisticados do que isso, contudo não deixam de ser truques. Seu ilusionismo pode exceder o de Houdini, mas de maneira alguma se aproxima do poder miraculoso de Deus, que sozinho pode tirar algo do nada e a vida da morte.

Os agentes de Satanás perderam a disputa com Moisés e Arão. Eles foram derrotados por Elias no monte Carmelo. E eles não foram páreo para Cristo no deserto ou durante seu ministério na terra. Satanás buscou induzir Jesus a usar seu verdadeiro poder miraculoso a serviço de Satanás, um poder que Satanás cobiçava. Simão, o mágico, buscou em vão comprar o poder do Espírito Santo (At 8.9).

A providência de Deus é servida pelo poder de Deus. Os milagres são parte do governo soberano de Deus sobre a criação e sobre a história. Sua Palavra é soberanamente autenticada por aquele poder que ele não está disposto a conceder aos poderes das trevas. Os truques de Satanás são expostos pela Palavra, cuja verdade foi confirmada e comprovada pelo testemunho miraculoso de Deus.

A Igreja atual enfrenta uma grave ameaça daqueles que querem reivindicar o poder e a autoridade apostólicos. Neste aspecto, o cristão deve estar sempre vigilante e fugir daqueles que têm tais pretensões.

R. C. Sproul

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

AUTENTICIDADE.

“Prata de refugo” (Jr 6.30)
“Nada, senão folhas” (Mc 11.13)
“Na amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (I Jô 3.18)
“Que tens nome de que vives e estás morto” (Apc 3.1)

Se declaramos ser cristãos, procuremos ter certeza de que nosso cristianismo é VERDADEIRO. O Cristianismo verdadeiro não é algo externo a nós mesmos ou temporário; é interno, firme, vivo e duradouro. Sabemos a diferença entre o ouro puro e o barato, entre algo que é genuíno e sua imitação. Pensemos nisto enquanto meditamos sobre nosso cristianismo. Você tenciona que seu cristianismo lhe dê conforto nesta vida e esperança na hora da morte e deseja suportar o teste do julgamento de Deus? Então, peço-lhe que pare e considere se o seu cristianismo é semelhante ao ouro maciço ou se é apenas uma imitação.

1. Nosso Cristianismo deve ser Verdadeiro

Quero começar mostrando-lhe como é importante que seu cristianismo seja verdadeiro. Talvez você imagine que há pouco perigo em não ser ele genuíno. Se pensa assim, você está errado, pois a Bíblia freqüentemente nos recorda que isto é muito perigoso.

Olhe para as parábolas contadas por nosso Senhor Jesus Cristo. Observe quantas delas referem-se ao contraste entre o verdadeiro cristão e o cristão aparente – por exemplo, as parábolas do semeador, do joio , das bodas e das dez virgens, entre outras (Mt 13.1-43; 22.1-14; Mt 25.1-13). Estas mostram o perigo de um cristianismo superficial e não-genuíno.

Note a linguagem que nosso Senhor Jesus Cristo usou a respeito dos escribas e fariseus. Oito vezes, em um só capítulo, utilizando uma linguagem assustadora, Ele os denunciou como hipócritas (Mt 23). Falando de forma tão severa, o Senhor Jesus nos ensinou quão abominável é, aos olhos de Deus, a falsidade.

Atente para o espantoso fato de que a quase toda graça cristã verdadeira corresponde uma situação não-genuína, descrita na Palavra de Deus. Existe falso arrependimento, pois Saul, Acabe, Herodes... o tiveram e nunca foram salvos. Existe fé não-genuína – foi o caso de Simão, em Samaria, pois seu coração não era reto diante de Deus. Existe santidade não-genuína; o rei Joás parecia santo e bom, mas apenas enquanto o sacerdote Joiaida estava vivo. Existe amor não-genuíno, pois o apóstolo João nos alerta: “Não amemos de palavra, nem de língua, mais de fato e de verdade”. Existe oração não-genuína, pois nosso Senhor condenou o pecado dos fariseus, os quais, por aparência e presunção faziam longas orações.

Certamente tudo isso deve nos fazer pensar. Quanto cuidado devemos tomar para termos certeza de que o NOSSO CRISTIANISMO é real.

2. Testes de Autenticidade.

Quero agora propor alguns testes através dos quais você pode verificar a autenticidade de seu cristianismo. Não apenas suponha que tudo está bem. Lembre-se de que esta é uma questão de vida ou morte eterna.

Comece perguntando a si mesmo que lugar o seu cristianismo ocupa no SEU CORAÇÃO. Não basta apenas crer na verdade em sua mente ou professa-la com seus lábios; não é suficiente que algumas vezes ela produza fortes emoções em seu íntimo. O verdadeiro cristianismo governa o coração, controla os seus sentimentos, orienta a vontade, direciona os gostos, escolhas e decisões. O seu cristianismo GOVERNA o seu coração?

Em segundo lugar, pergunte a si mesmo como o seu cristianismo ENCARA O PECADO. O verdadeiro cristianismo que o Espírito Santo produz no coração, nos levará sempre a pontos de vista muito sérios a respeito da malignidade do pecado. Você não pensará no pecado simplesmente como algo infeliz que torna os pecadores objetos dos quais sentimos compaixão, mas o verá como algo que Deus odeia e que torna o pecador culpado, perdido e sujeito a ira e condenação da parte de Deus. Você enxergará o pecado como a causa de toda a infelicidade do mundo, aquilo que arruinou a boa criação de Deus. Acima de tudo, você o reconhecerá como aquilo que nos arruinará eternamente, a menos que nossa dívida esteja paga e estejamos livres de seus laçoes. É desta forma que você encara o pecado?

Em terceiro lugar, pergunte a si mesmo que PERSPECTIVAS de Cristo o seu cristianismo produz. Um falso cristão pode acreditar que Cristo realmente existiu e fez o bem aos homens. Pode mostrar respeito por Cristo e comparecer ao culto cristão. Mas um cristão verdadeiro se gloriará em Cristo como o Redentor, o Libertador, o Grande Sumo Sacerdote, o Amigo, sem o qual ele jamais teria qualquer esperança. O verdadeiro cristão crerá em Cristo, amará a Cristo e se regozijará em Cristo, encontrando conforto nEle, como o Mediador entre Deus e os homens e como Aquele que é alimento, luz, vida e paz para sua alma. É esta a sua perspectiva de Cristo?

Em quarto lugar, que FRUTOS o seu cristianismo está gerando em seu coração, em sua vida? Um cristianismo genuíno é conhecido por seus frutos – os frutos do arrependimento, fé, esperança, amor, humildade, espiritualidade, benevolência, autonegação, capacidade de perdoar os outros, domínio próprio, honestidade e paciência. O grau em que cada um destes é percebido será variável de um crente para o outro, mas a raiz de cada um deles está presente em cada um dos verdadeiros filhos de Deus. Você demonstra possuir estes frutos?

Por último, como você se sente em relação aos MEIOS DA GRAÇA e o que você faz a respeito deles? Por “meios de graça”, me refiro àquelas coisas que Deus estabeleceu como instrumentos para nosso crescimento espiritual. Qual o seu sentimento em relação ao dia do Senhor? É um prazer para você, uma agradável e pequena amostra do que teremos no céu? Como você se sente a respeito dos cultos, quando os irmãos se reúnem para orar, adorar, ouvir a Palavra de Deus e participar da Ceia do Senhor? Estas coisas lhe são importantes ou você poderia viver se elas? E quanto à oração particular e à leitura da Bíblia? São atividades necessárias à sua vida? Elas lhe trazem conforto ou lhe causam tédio? Você as negligencia? Se estes meios de crescimento espiritual não são tão necessários para a sua vida cristã quanto o comer e o beber são para o seu corpo, você pode muito bem questionar se seu cristianismo é verdadeiro.

Conclusão

Rogo-lhe que avalie seu cristianismo através destas cinco questões. Sendo legítimo o seu cristianismo, você não tem o que temer ao enfrentá-lo honestamente. Porém, se não for legítimo, é melhor que você descubra isso o quanto antes. Você terá de enfrentar este assunto algum dia, visto que o Dia do Julgamento irá testar todas estas coisas. Se você defrontar-se com a verdade Hoje, terá tempo para se arrepender, mas NAQUELE DIA será tarde demais. Decida a enfrentar este assunto agora!

Deixe-me concluir com uma aplicação direta da verdade a cada leitor.

1. Preciso dizer uma palavra de advertência àquele que, em seu coração, sabe que seu cristianismo não é autêntico. Lembre-se do perigo que você corre e de quão grande é a sua culpa diante de Deus. Ele é o Deus da Verdade. Odeia tudo o que não é verdadeiro; e o cristianismo que você vive não é verdadeiro. Além disso, seu falso cristianismo irá derrotá-lo no final. Não lhe dará conforto algum quando você mais precisar dele – em tempos de aflição e no seu leito de morte. Acima de tudo, ele o derrotará no Dia do Julgamento.

2. Devo oferecer uma palavra de conselho àquele que está com a consciência perturbada devido ao que acabou de ler. Pare de brincar com o cristianismo! Pare de tratar o cristianismo como uma brincadeira e torne-se uma pessoa sincera que segue ao Senhor Jesus Cristo com todo o seu coração. Busque-O hoje mesmo e peça-lhe que seja seu Salvador. Não deixe que sua pecaminosidade o mantenha afastado dEle. Lembre-se: Jesus pode perdoar qualquer pecado, mais exige autenticidade. Deixe toda a presunção e venha a Ele com todo o seu coração e toda a sua alma.

3. É necessário que eu dirija uma palavra de encorajamento a todos aqueles que já tomaram sua cruz e são sinceros seguidores de Cristo. Encorajo-os a prosseguir e não desanimar diante de provações ou dificuldades. Não se preocupem com as opiniões dos outros. Nunca se envergonhe de ser totalmente comprometidos com o Senhor Jesus. Na verdade, os homens deveriam envergonhar-se de viver para o pecado e os prazeres, mas ninguém deve sentir vergonha de viver para Cristo.

4. Finalmente, lembremo-nos todos que, no último dia, nada além da verdade contará. Recordemos as palavras do Senhor Jesus: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22,23).

J. C. Ryle

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

A Bondade Divina

O amor pode suportar e pode perdoar.., mas o Amor jamais pode reconciliar-se a um objeto que cause desamor... Ele jamais poderá, portanto, reconciliar-se com o seu pecado, porque o pecado por si mesmo é incapaz de ser alterado; mas Ele pode reconciliar-se à sua pessoa, por que esta pode ser restaurada. (TRAHERNE. Centaries of mifeditation, 2, 50.)



Qualquer consideração da bondade de Deus imediatamente nos ameaça com o seguinte dilema. De um lado, se Deus é mais sábio do que nós, o seu julgamento deve diferir do nosso sobre muitas coisas, e não apenas sobre o bem e o mal. O que nos parece bom pode então não ser bom aos olhos dEle, e o que nos parece mau pode não ser mau. Por outro lado, se o juízo moral de Deus varia em relação ao nosso, de forma que o "branco" para nós possa ser "preto" para Ele, não estamos dizendo nada quando O chamamos de bom; pois declarar "Deus é bom", ao mesmo tempo que afirmamos que a sua bondade é inteiramente diversa da nossa, seria realmente dizer "Não sabemos o que Deus é". Assim sendo, uma qualidade por completo desconhecida em Deus não pode conceder-nos uma base moral para amá-lo e obedecer-lhe. Se Ele não é (no que nos diz respeito) "bom", iremos obedecer, se o fizermos realmente, apenas através do medo - e estaríamos igualmente dispostos a obedecer a um Demônio onipotente. A doutrina da Depravação Total - quando é extraída a conseqüência de que, desde que somos totalmente depravados, nossa idéia de bem não possui mérito algum - pode então transformar nosso cristianismo numa forma de adoração demoníaca.

A solução para este dilema depende de observar o que acontece, nas relações humanas, quando o homem de padrões morais inferiores entra na sociedade de outros que são melhores e mais sábios do que ele e passa gradualmente a aceitar os padrões deles - cujo processo, ao que acontece, posso descrever bastante corretamente, pois passei pelo mesmo. Quando entrei na Faculdade eu tinha tão pouca consciência moral quanto uma criança. Uma leve repugnância pela crueldade e pela avareza era o máximo que podia sentir - quanto à castidade, verdade e auto-sacrifício, pensava nessas coisas como um babuíno pensa na música clássica.
Pela graça de Deus entrei num grupo de jovens (nenhum deles cristãos, entretanto) que se igualavam suficientemente a mim no intelecto e na imaginação a fim de assegurar a intimidade imediata, mas que conheciam e tentavam obedecer a lei moral. As idéias deles a respeito do bem e do mal eram portanto bem diferentes das minhas.

O que acontece em tais casos não é absolutamente como se lhe pedissem para tratar como se fosse "branco" o que até então chamava de preto. Os novos julgamentos morais jamais entram na mente como simples inversões (embora os invertam) de juízos anteriores mas "como senhores com certeza esperados". Você não pode duvidar da direção que está seguindo: são mais como o bem do que os pequenos fiapos de bem que você já sentiu, mas, num certo sentido, são compatíveis com ele.

O grande teste é, porém, o reconhecimento dos novos padrões que se faz acompanhar de um sentimento de vergonha e culpa: temos consciência de nos havermos intrometido numa sociedade para a qual não temos as devidas qualificações. É à luz de tais experiências que devemos considerar a bondade de Deus. A idéia de "bondade" por parte dele difere sem dúvida alguma da nossa; mas você não precisa temer que, ao abordá-la, venha a ser-lhe pedido que inverter os seus padrões morais.

Quando a relevante diferença entre a ética divina e a sua ficar aparente, você não irá, de fato, ter qualquer dúvida de que a mudança exigida seja na direção que já chama de "melhor". A "bondade" divina diverge da nossa, mas não é totalmente diferente: ela não difere como o preto do branco, mas como um círculo perfeito se destaca da primeira tentativa de uma criança para desenhar uma roda. Quando porém ela aprende a desenhar, saberá que o círculo que traça então é aquele que estava tentando reproduzir desde o início. Esta doutrina é pressuposta nas Escrituras. Cristo chama os homens ao arrependimento - um chamado que seria sem sentido se o padrão de Deus fosse por completo diferente daquele que já conheciam e deixaram de praticar. Ele apela para nosso juízo moral, como o temos agora - "Por que se recusam a ver por si mesmos o que é correto?"1 No Velho Testamento, Deus censura os homens com base nas suas próprias concepções de gratidão, fidelidade e justiça: e se coloca, Ele mesmo, no banco dos réus diante das suas criaturas: "Por que foi que seus pais me abandonaram? Por acaso Eu fiz a eles alguma injustiça, para se afastarem de Mim?"


Depois dessas preliminares penso que será seguro sugerir que alguns conceitos da bondade divina que tendem a dominar no
ssos pensamentos, embora raramente expressos em tantas palavras, estão sujeitos a críticas. Quando nos referimos à bondade de Deus hoje, estamos indicando quase que exclusivamente seu amor; e nisto talvez tenhamos razão. E por amor, neste contexto, a maioria de nós quer dizer bondade - o desejo de ver outros felizes, e não a própria pessoa; não feliz deste ou de outro modo, mas apenas feliz. O que realmente nos satisfaria seria um Deus que dissesse a respeito de qualquer coisa que gostássemos de fazer: "Que importa se isso os deixa contentes?" Queremos, na verdade, não tanto um Pai Celestial, mas um avô celestial - uma benevolência senil que, como ( Lc 12:57 2 Jr 2:5 ) dizem, "gostasse de ver os jovens se divertindo" e cujo plano para o universo fosse simplesmente que se pudesse afirmar no fim de cada dia: "todos aproveitaram muito". Não são muitos os que, devo admitir, iriam formular uma teologia exatamente nesses termos: mas um conceito semelhante espreita por trás de muitas mentes. Não me julgo uma exceção: gostaria imenso de viver num universo governado de acordo com essas linhas.

Mas desde que está mais do que claro que não vivo, e desde que tenho razões para crer, mesmo assim, que Deus é Amor, chego à conclusão que meu conceito de amor necessita correção. Eu poderia, sem dúvida, ter aprendido até mesmo dos poetas que Amor é algo mais rigoroso e esplêndido do que a simples bondade: que até o amor entre os sexos é, como em Dante, "um senhor de terrível aspecto". Existe bondade no amor, mas amor e bondade não são confinantes, e quando a bondade (no sentido dado acima) é separada dos demais elementos do Amor, ela envolve uma certa indiferença fundamental ao seu objeto, e até mesmo algo semelhante ao desprezo em relação a ele. A bondade consente com facilidade na remoção do seu objeto - temos todos encontrado indivíduos cuja bondade para com os animais constantemente os leva a matá-los a fim de que não sofram. A bondade desse tipo não se preocupa com o fato de o seu objeto tomar-se bom ou mau, desde que escape ao sofrimento.

Como as Escrituras afirmam, os bastardos é que são estragados: os filhos legítimos, que devem continuar a tradição da família, são corrigidos. Para aqueles com quem não nos preocupamos absolutamente é que exigimos felicidade sob quaisquer termos: com nossos amigos, nossos entes queridos, nossos filhos, somos exigentes e preferimos vê-los sofrer do que ser felizes em estilos de vida desprezíveis e desviados. Se Deus é amor, Ele é, por definição, algo mais do que simples bondade. E, ao que parece, de acordo com todos os registros, embora tenha com freqüência nos reprovado e condenado, jamais nos considerou com desprezo. Ele nos prestou o intolerável cumprimento de nos amar, no sentido mais profundo, mais trágico e mais inexorável.

A relação entre Criador e criatura é naturalmente única e não pode ser comparada a qualquer das demais relações entre uma criatura e outra. Deus está, ao mesmo tempo, mais distanciado e mais próximo de nós do que qualquer outro ser. Ele está mais distante de nós porque a completa diferença entre aquilo que possui o Seu princípio de existência em Si Mesmo e aquilo a que a existência está sendo transmitida é tal que comparada a ela a diferença entre um arcanjo e um verme é praticamente insignificante. Ele faz, nós somos feitos: Ele é o original, nós os derivados. Mas, ao mesmo tempo, e pela mesma razão, a intimidade entre Deus e até mesmo a menor das criaturas é mais próxima do que qualquer outra que as criaturas possam alcançar umas com as outras.

Nossa vida, a qualquer momento, e suprida por Ele: nosso pequenino e milagroso poder de livre-arbítrio só pode operar nos corpos que a Sua energia contínua mantém vivos - nosso próprio poder de pensar é o Seu poder comunicado a nós. Uma relação assim singular só pode ser entendida através de analogias: dentre os vários tipos de amor conhecidos entre as criaturas, chegamos a um conceito inadequado mas útil do amor de Deus pelo homem.

O tipo mais inferior, que é chamado de "amor" apenas como uma extensão da palavra, é aquele que o artista sente por um artefato. A relação entre Deus e homem é assim (3 Hb 12:8 ) retratada na visão de Jeremias sobre o oleiro e o barro, ou quando o apóstolo Pedro fala da igreja inteira como de um prédio no qual Deus trabalha, e dos membros individualmente como sendo pedras. A limitação de tal analogia é, naturalmente, que no símbolo o paciente não tem percepção, e que certas questões de justiça e misericórdia surgidas quando as "pedras" estão realmente "vivas" permanecem, portanto, não-representadas. Mas, de toda forma, trata-se de uma analogia importante. Nós somos, não em metáfora mas verdadeiramente, uma obra-de-arte divina, algo que Deus está fazendo, e portanto, algo com o qual ele não ficará satisfeito até que possua umas tantas e determinadas características. Defrontamos de novo aqui com aquilo a que dei o nome de "elogio insuportável".

O artista pode não se preocupar muito com o esboço feito com negligência para divertir uma criança: ele pode deixá-lo ficar como está, mesmo que não seja exatamente aquilo que pretendia que fosse. Mas em relação ao grandioso quadro de sua vida - o trabalho que ama, embora de forma diversa, tão intensamente como o homem ama uma mulher ou a mãe a um filho - ele se aplicará intensamente - e iria sem dúvida dar muita preocupação ao quadro se este tivesse sensibilidade. Podemos imaginar um quadro sensível, depois de ter sido apagado e raspado e recomeçado pela décima vez, desejando não passar de um esboço simples feito num minuto. Da mesma maneira, é natural para nós desejar que Deus nos traçasse um destino menos glorioso e menos árduo; mas, assim, não estaremos então desejando mais amor e sim menos amor.

Outro tipo é o amor de um homem por um animal - relação esta usada freqüentemente nas Escrituras para simbolizar a relação entre Deus e os homens; "somos o seu povo e as ovelhas do seu pasto". Esta é, em certo sentido, uma analogia melhor do que a precedente, porque a parte inferior é perceptiva, embora indiscutivelmente inferior: mas é pior pelo fato de o homem não ter feito o animal e não compreendê-lo inteiramente.

Seu grande mérito está em que a associação (digamos) de homem e cão tem como objetivo principal o bem do primeiro: o homem domestica o cão para que possa primeiro amá-lo, e não para que este o ame, e para que o animal o sirva, e não para que ele possa servi-lo. Todavia, ao mesmo tempo, os interesses do cão não são sacrificados aos do homem. O propósito final (de que possa amá-lo) não é alcançado plenamente a não ser que o animal também, a seu modo, o ame; nem o cão pode servi-lo a não ser que ele, de uma forma diferente, o sirva. Justamente porque o cão, segundo os padrões humanos, é uma das "melhores" criaturas irracionais, e um objeto digno de ser amado pelo homem - naturalmente naquele grau e tipo de amor apropriados para tal objeto, e não com tolos exageros antropomórficos - o homem interfere no cão e o torna mais digno de amor do que ele o era na sua simples natureza. Em seu
estado natural ele cheira e tem hábitos que frustram o amor humano: o homem então o submete a treinamentos para que tenha um comportamento adequado dentro de casa, dá-lhe banhos, ensina-o a não roubar, capacitando-o assim para que possa ser amado completamente.

Para o filhote, todo o processo pareceria, caso fosse um teólogo, lançar graves dúvidas sobre a "bondade" do homem: mas o cão adulto e treinado, maior, mais saudável e com um período de vida mais longo do que o cão selvagem, e admitido, como se o fosse, por assim dizer, pela Graça, a um mundo de afeições, lealdades, interesses e confortos inteiramente além de seu destino animal, não teria tais dúvidas. Deve ser notado que o homem (e estou falando apenas do homem bom) tem todo esse trabalho com o cão, e causa todo esse sofrimento a ele, apenas por se tratar de um animal que se acha no alto da escala - por ser tão digno de amor que vale a pena torná-lo ainda mais digno desse amor. Ele não dá treinamento doméstico à lacraia nem banho à centopéia. É possível que desejássemos, na verdade, que Deus se incomodasse tão pouco conosco que nos deixasse por nossa própria conta, a fim de seguirmos nossos impulsos naturais - que ele desistisse de nos transformar em algo tão diverso de nosso "eu" natural: mas, de novo, não estamos pedindo mais amor e sim menos.

Uma analogia mais nobre aprovada pelo tom constante dos ensinamentos do Senhor é aquela que existe entre o amor de Deus pelo homem e o amor de um pai pelo filho. Toda vez em que ela é usada porém, isto é, toda vez que repetimos a Oração do Senhor, deve ser lembrado que o Salvador fez uso dela num momento e lugar em que a autoridade paternal tinha uma posição muito mais elevada do que nos tempos modernos. Um pai quase se desculpando por ter trazido seu filho ao mundo, temeroso de restringi-lo para que não cresça com inibições ou até mesmo de discipliná-lo a fim de não interferir em sua independência mental, é um símbolo bastante precário da Paternidade Divina, Não estou discutindo aqui o fato de a autoridade dos pais, em sua expressão antiga, ter sido uma coisa boa ou má. Estou apenas explicando o que o conceito de Paternidade teria significado para os primeiros ouvintes do Senhor, e na verdade para os seus sucessores durante muitos séculos.

Ficará ainda mais simples se considerarmos como o Senhor (embora, em nossa crença, um só com o Pai e co-eterno com Ele como nenhum filho terreno o é com um pai terreno) considera sua própria Filiação, submetendo completamente Sua vontade à vontade paterna, nem sequer permitindo que o chamem "bom" porque BOM é o nome do Pai. Amor entre pai e filho, neste símbolo, significa essencialmente um amor cheio de autoridade de um lado, e amor obediente do outro.

O pai faz uso de sua autoridade para transformar o filho na espécie de ser humano que ele, com justiça, e em sua sabedoria superior, quer que ele seja. Mesmo em nossos dias, embora alguém possa dizer tal coisa, essa pessoa não estaria dizendo nada ao afirmar: "Amo meu filho, mas não me importa quão corrupto ele seja, contanto que se divirta".

Chegamos finalmente a uma analogia perigosa e de aplicação muito mais limitada, que, todavia, acontece ser a mais útil para o nosso propósito especial no momento - quero dizer, a analogia entre o amor de Deus pelo homem e o amor deste por uma mulher. Ela é usada livremente nas Escrituras. Israel é uma esposa infiel, mas seu Marido Celestial não pode esquecer-se dos dias felizes do passado: "Lembro-me de ti, da tua afeição quando eras jovem, e do teu amor quando noiva, e de como me seguias no deserto". Israel é a noiva pobre, perdida, que seu amado encontrou abandonada ao lado do caminho e vestiu e adornou, tornando-a digna de amor, mas mesmo assim ela lhe foi infiel. "Infiéis" é o nome que nos dá o apóstolo Tiago, porque nos voltamos para a "amizade do mundo", enquanto Deus "com ciúme anseia pelo espírito que fez habitar em nós".

A Igreja é a noiva do Senhor a quem ele ama de tal forma que não pode suportar qualquer mancha ou ruga nela. A verdade que esta analogia serve para enfatizar é que o amor, por sua própria natureza, exige o aperfeiçoamento do ser amado; que a simples "bondade" que tudo tolera, menos o sofrimento em seu objeto, está, nesse aspecto, no pólo oposto do amor. Quando nos apaixonamos por uma mulher, deixamos de amá-la quando está limpa ou suja, íntegra ou desonrada? Não é então que na realidade começamos a nos preocupar? A mulher considera sinal de amor num homem quando ele não se importa com a sua aparência? O amor pode, de fato, continuar amando mesmo quando a beleza dela se foi; mas não porque está perdida. O amor pode perdoar todas as enfermidades e continuar amando a despeito delas: mas o amor não pode deixar de desejar a sua remoção.

O amor é mais sensível do que o próprio ódio em relação a qualquer mancha no ser amado; o eu "sentimento é mais suave e sensível do que os chifres delicados dos caracóis". De todos os poderes é ele o que mais perdoa, mas o que menos desculpa: fica satisfeito com pouco, mas exige muito. Quando o cristianismo diz que Deus ama o homem, isso significa que Ele o ama realmente; não se trata de um interesse indiferente quase um "desinteresse" em nosso bem estar, mas que, numa verdade terrível e surpreendente, somos os objetos do seu amor. Você pediu um Deus de amor, e já tem. “O grande espírito que invocou tão levianamente, o Senhor de terrível aspecto", está presente: não uma benevolência senil que sonolentamente deseja que você seja feliz à sua própria moda, nem a gélida filantropia de um magistrado consciencioso nem mesmo o cuidado de um hospedeiro que se sente responsável pelo conforto de seus hóspedes, mas o próprio fogo consumidor, o Amor que fez os mundos, persistente como o amor do artesão pela sua obra e despótico como o amor do homem por um cão, providente e venerável como o amor do pai pelo filho, ciumento, inexorável, exigente, como O amor entre Os sexos.

Como isto pode ser, não sei: supera nosso poder de raciocínio explicar como quaisquer criaturas, para não dizer criaturas como nós, possam ter um valor tão prodigioso aos olhos de seu Criador. Trata-se certamente de um peso de glória não só além de nossos méritos mas também, exceto em raros momentos de graça, além de nosso desejo; estamos inclinados, como as donzelas na velha peça teatral, a protestar contra o amor de Zeus. Mas o fato parece Indiscutível. O Impassível fala como se sentisse paixão, e aquilo que contém em si mesmo a causa de sua própria e de outras bênçãos, fala como se pudesse sentir-se carente e ansioso. "Não é Efraim meu precioso filho? Filho das minhas delícias? pois tantas vezes quantas falo contra ele, tantas vezes ternamente me lembro dele; comove-se por ele o meu coração". "Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Meu coração está comovido dentro em mim".
"Ò, Jerusalém, quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!".

O problema de reconciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus que ama só é insolúvel enquanto associarmos um significado trivial à palavra "amor" e considerarmos as coisas como se o homem fosse o centro delas. O homem não é o centro. Deus não existe por causa do homem. O homem não existe por sua própria causa. "Porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas". Não fomos feitos em princípio para amarmos a Deus (embora fôssemos também criados para isso), mas para que Deus possa amar-nos, para que nos tomemos objetos em que o amor divino possa sentir "agrado". Pedir que o amor de Deus se satisfaça conosco na condição em que nos encontramos, é pedir que Deus deixe de ser Deus: porque Ele é o que é, o Seu amor deve, na natureza das coisas, ficar impedido e sentir repulsa por certas nódoas em nosso caráter, e porque já nos ama ele precisa esforçar-se para nos tomar dignos de amor. Não podemos sequer desejar, em nossos melhores momentos, que ele se reconcilie com nossas impurezas presentes -não mais do que a jovem mendiga poderia querer que o rei “Cophetua” se satisfizesse com os seus andrajos e sujeira, ou que um cão, tendo aprendido a amar o homem, pudesse desejar que este tolerasse em sua casa a criatura violenta, coberta de vermes e poluente da alcatéia selvagem.

O que chamaríamos aqui e agora de nossa "felicidade" não é o alvo principal que Deus tem em vista: mas, quando formos aquilo que Ele pode amar sem impedimento, seremos de fato felizes.
Posso perfeitamente prever que o curso de meus argumentos venha a provocar um protesto. Eu havia prometido que ao passar a compreender a bondade divina não nos seria pedido que aceitássemos uma simples inversão de nossa própria ética. Mas pode ser objetado que tal inversão foi justamente o que nos pediram que aceitássemos. A espécie de amor que atribuo a Deus, pode ser dito, é exatamente do tipo que nós seres humanos descrevemos como "egoísta" ou "possessivo", e contrasta desfavoravelmente com a outra espécie que busca primeiro a felicidade do ente amado e não a satisfação daquele que ama.

Não estou certo de que seja assim que me sinto mesmo em relação ao amor humano. Não acho que devo dar muito valor à amizade de um amigo que se importe apenas com a minha felicidade e não proteste se cometo uma desonestidade. De todo modo, o protesto é aceito, e a resposta para ele colocará o assunto sob uma nova luz, e corrigirá o que tem sido unilateral em nossa discussão.

A verdade é que esta antítese entre o amor egoísta e o altruísta não pode ser aplicada sem ambigüidade ao amor de Deus pelas suas criaturas. Conflitos de interesses e portanto oportunidades seja de egoísmo ou generosidade, ocorrem entre os seres que habitam um mesmo mundo: Deus não pode de forma alguma competir com uma criatura, assim como Shakespeare não o faz com a personagem Viola. Quando Deus se toma Homem c vive como uma criatura entre as Suas próprias criaturas na Palestina, Sua vida é então de supremo auto-sacrifício e o leva ao Calvário. Um moderno filósofo panteísta declarou: "Quando o Absoluto cai no mar se transforma em peixe"; do mesmo modo, nós, cristãos, podemos apontar para a Encarnação e dizer que quando Deus se esvazia da sua glória e se submete àquelas condições únicas sob as quais o egoísmo e o altruísmo têm um claro significado, Ele é considerado como inteiramente altruísta. Mas, em sua transcendência, Deus - como a base incondicional de todas as condições - não pode ser facilmente visualizado dessa forma.

Chamamos o amor humano de egoísta quando ele satisfaz suas próprias necessidades à custa daquelas do objeto - da mesma forma que um pai mantém em casa os filhos que (Ap 4:11) deveriam, para o seu próprio bem, ser colocados no mundo. A situação implica em uma necessidade ou paixão por parte do ser amado, e a desconsideração ou ignorância culpável das necessidades deste por parte de quem ama. Nenhuma dessas condições está presente na relação entre Deus e o homem. Deus não tem necessidades. O amor humano, conforme nos ensina Platão, é filho da Pobreza - de uma carência ou falta; ele é causado por um bem real ou imaginário no ser amado, que é necessário ou desejado pelo amante. Mas o amor de Deus, longe de ser causado pela bondade do objeto, faz surgir toda a bondade que este possui, amando-o primeiro para fazê-la existir e depois tornando-a digna de amor real, embora derivado. Deus é Bondade.

Ele pode conceder o bem, mas não pode necessitá-lo ou obtê-lo. Nesse sentido todo o Seu amor é infinitamente desprendido pela sua própria definição; ele tem tudo a dar e nada a receber. Assim sendo, se Deus fala algumas vezes como se o Impossível pudesse sofrer paixão e a plenitude eterna pudesse ter qualquer carência, e carência daqueles seres a quem concede tudo a partir da sua simples existência, isto só pode significar, caso signifique algo inteligível para nós, que o Deus do milagre tomou-se capaz de sentir tal anseio e criar em Si mesmo aquilo que nós podemos satisfazer. Se Ele nos quer, esse desejo é de sua própria escolha. Se o coração imutável pode ser entristecido pelas marionetes que ele mesmo fez, foi a Onipotência Divina, e nada mais, que assim o sujeitou, voluntariamente, e com uma humildade que excede todo entendimento.

Se o mundo não existe principalmente para que possamos amar a Deus, mas para que Ele possa amar-nos, esse mesmo fato, num nível mais profundo, é assim para o nosso bem. Se aquele que em Si mesmo tem tudo escolhe necessitar de nós, é porque necessitamos de quem nos necessite. Antes e por trás de todas as relações entre Deus e o homem, como agora aprendemos no cristianismo, abre-se o abismo do ato divino do puro dar - a eleição do homem, do nada, para ser o amado de Deus, e portanto (em algum sentido) o necessário e desejado de Deus, que a não ser por esse ato nada necessita nem deseja, desde que Ele eternamente possui, e é, toda bondade. E tal ato foi feito a nosso favor. É bom que conheçamos o amor, e é melhor ainda conhecermos o amor do melhor objeto, Deus. Mas conhecê-lo como um amor em que fomos primariamente os cortejadores e Deus o cortejado, no qual buscamos e Ele foi achado, em que a sua conformidade às nossas necessidades, e não a nossa às dEle, vieram primeiro, seria conhecê-lo numa forma falsa à própria natureza das coisas. Pois somos apenas criaturas: nosso papel deve ser sempre o do paciente para o agente, da fêmea para o macho, do espelho para a luz, do eco para a voz.

Nossa mais elevada atividade deve ser a resposta, e não a iniciativa. Experimentar o amor de Deus de forma verdadeira e não ilusória portanto é experimentá-lo como nossa rendição à Sua exigência, nossa conformidade ao Seu desejo: experimentá-lo de maneira oposta seria um “solecismo” contra a gramática do ser. Eu não nego, naturalmente, que num certo nível podemos falar corretamente da busca de Deus pela alma, e de Deus como receptivo ao amor da alma. Mas a longo prazo, a busca de Deus pela alma não passa de um aspecto ou aparência (Erscheinung) da busca da mesma por Ele, desde que a própria possibilidade de amarmos é um dom dEle para nós, e desde que nossa liberdade não passa de uma liberdade de resposta melhor ou pior. Eu penso então que nada distingue tanto o teísmo pagão do cristianismo como a doutrina de Aristóteles de que Deus move o universo, sendo Ele mesmo imutável. como o Amado move o que ama.

Quanto à cristandade, "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou". Desse modo, Deus não possui a primeira condição do que é chamado amor egoísta entre os homens. Ele não tem necessidades naturais, nem paixão, para competir com o Seu desejo do bem do amado: ou se existir nEle algo que tenhamos de imaginar de acordo com a analogia de uma paixão, um desejo, Ele se encontra ali pela Sua própria vontade e por nossa causa.

A segunda condição também está em falta. Os interesses reais de uma criança podem diferir daqueles que a afeição do pai exige instintivamente, porque a criança é um ser isolado do pai com uma natureza que possui suas próprias necessidades e não existe unicamente para o pai nem encontra perfeição total em ser amada por ele, e que o pai não compreende inteiramente. Mas as criaturas não são assim isoladas de seu Criador, nem Ele deixa de entendê-la,. O lugar para o qual Ele as destina em Seu esquema de coisas f o lugar para o qual são feitas. Quando o alcançam, sua natureza é preenchida e sua felicidade alcançada: um osso quebrado foi colocado no seu lugar no universo, a angústia passou.

Quando queremos ser outra coisa que não aquela que Deus quer que sejamos, devemos estar desejando, de fato, aquilo que não nos fará felizes. Essas exigências divinas que, aos nossos ouvidos naturais, soam como as de um déspota e pelo menos como as de alguém que ama, na verdade nos levam aonde deveríamos querer ir se soubéssemos o que queremos. Ele exige nossa adoração, nossa obediência, nossa prostração. Supomos que essas coisas podem beneficiá-lo de alguma forma, ou tememos, como o coro de Mílton, que a irreverência humana possa acarretar a "diminuição da sua glória"? Ninguém pode diminuir a glória de Deus recusando-se a adorá-lo, como não poderia o lunático apagar o sol escrevendo a palavra "escuridão" nas paredes de sua cela. Mas Deus deseja o nosso bem, e nosso bem é amá-lo (com esse amor responsivo próprio das criaturas) e para amá-lo devemos conhecê-lO: e se O conhecermos, iremos de fato prostrar-nos sobre a nossa face.

Se não o fizermos, isso mostra que o que estamos tentando amar não é ainda Deus - embora possa ser a mais achegada aproximação de Deus que nossos pensamentos e fantasia podem alcançar. O chamado, todavia, não é apenas para a prostração e reverência; mas para um reflexo da vida divina, uma participação da criatura nos atributos divinos que está muito além de nossos desejos presentes. Somos convidados a "revestir-nos de Cristo", a nos tomarmos como Deus. Isto é, quer o queiramos quer não, Deus pretende dar-nos aquilo de que necessitamos e não aquilo que agora julgamos desejar. Mais uma vez ficamos embaraçados com o cumprimento intolerável por demasiado amor e não por falta dele.

Mesmo isto, talvez, ainda esteja aquém da verdade. Não se trata simplesmente de que Deus nos fez arbitrariamente de modo que Ele seja o nosso único bem. Em vez disso, Deus é o único bem de todas as criaturas: e por necessidade, cada uma delas deve encontrar o seu bem nessa espécie e grau da fruição de Deus que é própria à sua natureza. A espécie e grau podem variar de acordo com a natureza da criatura: mas que jamais possa haver qualquer outro bem é um sonho ateu. George MacDonald, numa passagem de que não me lembro agora, representa Deus dizendo ao homens: "Vocês devem ser fortes com a minha força e abençoados com a minha bênção, pois nada tenho além disso para criar-lhes." Essa é a suma. Deus dá o que Ele possui, e não aquilo que não possui: Ele dá a felicidade que existe, não aquela que não existe.

Ser Deus - ser como Deus e partilhar da Sua bondade em (I Jo 4:l0) resposta de criatura - ser miserável - essas são as três únicas alternativas. Se não aprendermos a comer o único alimento que cresce no universo - que qualquer universo possível jamais poderá fazer crescer - então iremos ficar eternamente famintos.

C. S. Lewis.

Terça-feira, Julho 25, 2006

A Divindade de Deus

A verdadeira fé é aquela que dá a Deus o lugar que Lhe é devido. E se dermos a Deus o Seu lugar devido, assumiremos o lugar que nos é próprio –– no pó. E o que pode trazer a criatura orgulhosa e auto-suficiente mais rápido ao pó senão uma visão da Divindade de Deus? Nada é tão humilhante para o coração humano como o verdadeiro reconhecimento da absoluta soberania de Deus. O principal problema é que muito do que é considerado fé, hoje, não passa de frágil sentimentalismo. A fé da Cristandade, neste século XX, é mera credulidade, e o “deus” de muitas das nossas igrejas não é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, mas um mero fruto da imaginação, que mentes finitas possam entender, cujos caminhos sejam agradáveis ao homem natural (não nascido de novo), um “deus” totalmente “igual” (Salmos 50:21) àqueles que professam adorá-lo, um “deus” a respeito do qual quase não há mistério. Mas como é diferente o Deus que as Escrituras revelam! DEle é dito, Seus caminhos são “inescrutáveis” (Romanos 11:33). Para ser mais específico:

1. O “deus” moderno é completamente carente de poder.

A idéia popular, nos dias de hoje, é que a deidade é cheia de amigáveis intenções para com os homens, mas que Satanás está impedindo que se lhes faça algum bem. Não é da vontade de Deus, assim nos dizem, que haja guerras, pois as guerras são algo que os homens são incapazes de reconciliar com suas idéias da misericórdia divina. Então, a conclusão é que todas as guerras são do Diabo. Pragas e terremotos, fomes e furacões não são enviados por Deus, mas são atribuídos somente às causas naturais. Afirmar que o Senhor Deus enviou a recente epidemia de gripe (na época, matava –– Nota do Editor) como um golpe de julgamento, iria chocar a sensibilidade da mente moderna. Coisas como estas causam dor a “deus” pois “ele” NÃO deseja senão a felicidade de todos.


2. O “deus” moderno é completamente carente de sabedoria.

A crença popular é que Deus ama a todos, e que é da Sua vontade que cada filho de Adão seja salvo. Mas, se isto for verdade, Ele está estranhamento carecendo de sabedoria, pois Ele sabe muito bem que, sob as condições existentes, a maioria se perderá.

3. O “deus” moderno é carente de santidade.

Que o crime merece punição é aceito em parte, embora cada vez mais uma crença esteja ganhando terreno: a de que o criminoso é realmente mais objeto de pena do que de censura, e que ele precisa de educação e reforma ao invés de punição. Mas que o PECADO –– tanto pecados em pensamentos como em atos, pecados de
coração como pecados da vida, pecados de omissão bem como de comissão, tanto a própria raiz pecaminosa como o seu fruto –– deva ser odiado por Deus, pecado contra o qual a Sua santa natureza se inflama, é um conceito que saiu quase que completamente de moda; e que o próprio pecador é odiado por Deus é negado com indignação mesmo por aqueles que se ufanam em alta voz da sua ortodoxia.


4. O “deus” moderno é completamente carente de prerrogativas de soberania.

Quaisquer que sejam os direitos que a deidade da Cristandade atual possa supostamente possuir em teoria, de fato eles devem ser subordinados aos “direitos” da criatura. Nega-se, quase universalmente, que os direitos do Criador sobre Suas criaturas seja o do Oleiro sobre o barro. Quando se afirma que Deus tem o direito de fazer um vaso para honra e outro vaso para desonra, o grito de injustiça ergue-se instantaneamente. Quando se afirma que a salvação é um dom e que este dom é conferido àqueles a quem Deus se agrada em dar, é dito que Ele é parcial e injusto. Se Deus tem algum dom para partilhar, Ele deve distribuir a todos igualmente, ou pelo menos distribuí-los àqueles que merecem, não importa quem possam ser. E assim é dada a Deus menos liberdade do que a mim, que posso distribuir minha caridade como bem quero, dando a um mendigo um pouco mais, a outro um pouco menos, e a um terceiro nada se assim achar por bem.

Como o Deus da Bíblia é diferente do “deus” moderno!


O Deus da Escritura é Todo-Poderoso

Ele é aquele que fala e é feito, que ordena e há prontidão. Ele é Aquele para quem “todas as coisas são possíveis” e “faz todas as cousas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:1)...


O Deus da Escritura é infinito em sabedoria

Nenhum segredo pode ser escondido dEle, nenhum problema pode confundi-Lo, nada é difícil demais para Ele. Deus é onisciente - “Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir” (Salmos 147:5). Portanto se diz, “Não se pode esquadrinhar o seu entendimento” (Isaías 40:28). Daí a razão porque numa revelação dEle nós esperamos encontrar verdades que transcendem o alcance da mente da criatura, e, portanto, é evidente a tolice presunçosa e a impiedade daqueles que não passam de “pó e cinza” ao tentarem pronunciar a racionalidade ou irracionalidade das doutrinas que estão acima da razão!


O Deus da Escritura é infinito em santidade

O “único Deus verdadeiro” é aquele que odeia o pecado com uma perfeita repulsa, e cuja natureza eternamente se inflama contra ele. Ele é Aquele que contemplou a impiedade dos antediluvianos e que abriu as janelas do céu derramando o dilúvio da Sua justa indignação. Ele é Aquele que fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra e destruiu completamente aquelas cidades da planície. Ele é Aquele que enviou pragas ao Edito, e destruiu seu orgulhoso monarca juntamente com seus exércitos no Mar Vermelho. Deus é tão santo e tal é o antagonismo da Sua natureza para com o mal que, por um pecado, Ele baniu nossos pais do Éden, por um pecado Ele amaldiçoou a posteridade de Cão; por um pecado Ele transformou a esposa de Ló numa coluna de sal; por um pecado Ele enviou fogo e devorou os filhos de Araõ; por um pecado Moisés morreu no deserto; por um pecado Acã e sua família foram todos apedrejados até à morte; por um pecado o servo de Elias foi ferido com lepra. Contemplem, portanto, não somente a bondade, mas também “a severidade de Deus” (Romanos 11:22). E este é o Deus com quem todo aquele que rejeita a Cristo tem que se encontrar no julgamento!


O Deus da Escritura tem uma vontade que é irresistível

O homem fala e se orgulha da sua vontade, mas Deus também tem uma vontade! Os homens tiveram uma vontade nas planícies de Sinear e a dedicaram a construir uma torre cujo topo alcançasse o céu; mas em que resultou? Deus também tinha uma vontade, e o esforço cheio de vontade deles resultou em nada. Faraó tinha uma vontade quando ele endureceu seu coração e se recusou a permitir que o povo de Jeová fosse ao deserto e lá O adorasse, mas em que resultou? Deus tinha uma vontade, também, e sendo Todo-Poderoso Sua vontade foi realizada. Balaque tinha uma vontade quando contratou Balaão para vir a amaldiçoar os hebreus; mas de que adiantava? Os cananitas tinham uma vontade quando eles determinaram impedir Israel de ocupar a terra prometida; mas até onde eles foram bem sucedidos? Saul tinha uma vontade quando ele arremessou sua lança contra Davi, mas, ao invés de matar o ungido do Senhor, a lança foi parar na parede.

Sim, meu leitor, e você também tinha uma vontade quando fez seus planos sem buscar primeiro o conselho do Senhor, e por isso Ele os fez cair por terra. Assim como uma criança pode tentar impedir o oceano de se mover, assim também a criatura pode tentar resistir ao desenrolar do propósito do Senhor –– “Ah! SENHOR, Deus de nossos pais, porventura não és tu que dominas sobre todos os reinos dos povos? Na tua mão está a força e o poder, e não há quem te possa resistir” (2 Crônicas 20:6).

O Deus da Escritura é Soberano absoluto.

Tal é a Sua própria reivindicação: “Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o SENHOR dos Exércitos determinou; quem, pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?” (Isaías 14:26 e 27). A Soberania de Deus é absoluta e irresistível: “Todos os habitantes da terra são por ele reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4:35). A Soberania de Deus é verdadeira não só hipoteticamente, mas de fato. Isto quer dizer, Deus exercita Sua soberania, a exercita tanto na esfera natural quando na espiritual. Um nasce negro, outro branco. Um nasce em riqueza, outro em pobreza. Um nasce com um corpo saudável, outro enfermo e defeituoso. Um é cortado na infância, outro vive até a velhice. A um são dados cinco talentos, a outros só um. Em todos estes casos é Deus o Criador que faz com que um seja diferente do outro, e “ninguém pode deter Sua mão”. É assim também na esfera espiritual. Um nasce em lar piedoso e é criado no temor e na admoestação do Senhor; o outro é nascido de pais criminosos e é criado no meio do vício. Um é objeto de muitas orações, por outro não se ora. Um ouve o Evangelho desde a infância, outro nunca o ouve. Um senta-se sob o ministério de alguém que ensina as Escrituras, outro não ouve anda senão erros e heresias. Daqueles que ouvem ao Evangelho, um tem o seu coração “aberto pelo Senhor” para receber a verdade, enquanto outro é deixado para si mesmo. Um é “ordenado para a vida eterna” (Atos 13:48), enquanto que outro é “ordenado” para condenação (Judas 4). Para quem Deus quer Ele mostra misericórdia, e para com quem Ele quer, Ele “endurece” (Romanos 9:18).
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A. W. Pink

Domingo, Julho 23, 2006

DEPRAVAÇÃO TOTAL OU INABILIDADE TOTAL

O ponto de vista que alguém toma a respeito da salvação será determinado, em grande escala, pelo conceito que essa pessoa tem a respeito do pecado e de seus efeitos sobre a natureza humana. Por isso, o primeiro ponto tratado pelo sistema calvinista é a doutrina bíblica da depravação total ou inabilidade total. Quando o calvinista fala do homem como sendo totalmente depravado, quer dizer que sua natureza é corrupta, perversa e totalmente pecaminosa. O adjetivo “total” não significa que cada pecador está tão completamente corrompido em suas ações e pensamentos quanto lhe seja possível ser.

O termo é usado para indicar que todo o ser do homem foi afetado pelo pecado. A corrupção estende-se a todas as partes do homem, corpo e alma. O pecado afetou a totalidade das faculdades humanas - sua mente, sua vontade, etc. (Confissão de Fé, VI, 2). Também se pode usar o adjetivo “total” para incluir nele toda a raça humana, sem exceção. Como resultado dessa corrupção inata, o homem natural é totalmente incapaz de fazer qualquer coisa espiritualmente boa. É o que se quer dizer por “inabilidade total”.
A inabilidade referida nessa terminologia é a “inabilidade espiritual”. Significa que o pecador está tão espiritualmente falido que ele nada pode fazer com respeito à sua salvação. É evidente que muitas pessoas não salvas, quando julgadas pelos padrões humanos, possuem qualidades admiráveis e realizam atos virtuosos. Porém, no campo espiritual, quando julgadas pelos padrões divinos, são incapazes de fazer o bem (Confissão de Fé, XVI, 1 e 7). O homem natural está escravizado pelo pecado: é filho de Satanás, rebelde para com Deus, cego para com a verdade, corrompido e incapaz de salvar-se a si mesmo ou de preparar-se para a salvação. Em resumo, o não regenerado está morto em pecado e sua vontade está escravizada à sua natureza má. O homem não veio das mãos do seu Criador nessa condição depravada. Deus fez a Adão perfeito, sem qualquer maldade em sua natureza.

Originalmente, a vontade de Adão estava livre do domínio do pecado. Ele não estava sujeito a qualquer compulsão natural para escolher o mal; porém, por sua queda, trouxe a morte espiritual sobre si mesmo e sobre toda a sua posteridade. Desse modo, lançou a si mesmo e a toda a raça na ruína espiritual e perdeu para si e para os seus descendentes a habilidade de fazer escolhas certas no campo espiritual. Seus descendentes ainda são livres para escolher - todo homem faz escolhas em sua vida - mas, visto que a geração de Adão nasce com natureza pecaminosa, não tem a habilidade para escolher o bem ao invés do mal. Por conseguinte, a vontade do homem não é mais livre (i.e., livre do domínio do pecado) como era livre a vontade de Adão, antes da queda. Em vez disso, a vontade do homem, como resultado da depravação herdada, está escravizada à sua natureza pecaminosa. A Confissão de Fé de Westminster nos dá uma declaração clara e concisa dessa doutrina: “O homem, caindo
em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso” (IX, 3).

1. Como resultado da transgressão de Adão, os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos; portanto, para se tornarem filhos de Deus e entrarem no Seu reino precisam nascer de novo, do Espírito.

a) Quando Adão foi colocado no jardim do Éden, foi advertido para não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob pena de imediata morte espiritual:

Gênesis 2.16 Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim podes comer livremente; Gênesis 2.17 mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

b) Adão desobedeceu e comeu do fruto proibido (Gn 3:1-7); por conseguinte, trouxe morte espiritual sobre si mesmo e sobre a raça:

Gênesis 3.1 Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?
Gênesis 3.2 Respondeu a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer,
Gênesis 3.3 mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais.
Gênesis 3.4 Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis.
Gênesis 3.5 Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.
Gênesis 3.6 Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu.
Gênesis 3.7 Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
Romanos 5.12 Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.
Efésios2.1 Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados,
Efésios2.2 nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos de desobediência,
Efésios2.3 entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais.
COL2.13 e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos;

c) Davi confessou que tanto ele, como os demais homens, foram nascidos em pecado:

SAL51.5 Eis que eu nasci em iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. SAL58.3 Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras.

d) Porque os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos. Jesus ensinou que, para alguém entrar no reino de Deus, é preciso nascer de novo:

JOA3.5 Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. JOA3.6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. JOA3.7 Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo.

2. Como resultado da queda, os homens estão cegos e surdos para a verdade espiritual. Suas mentes estão entenebrecidas pelo pecado; seus corações são corruptos e malignos:

Gênesis 6.5 Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Gênesis 8.21 Sentiu o Senhor o suave cheiro e disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice; nem tornarei mais a ferir todo vivente, como acabo de fazer. ECL9.3 Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: que a todos sucede o mesmo. Também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade; há desvarios no seu coração durante a sua vida, e depois se vão aos mortos. JER17.9 Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? MAR7.21 Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios, MAR7.22 a cobiça, as maldades, o dolo, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez; MAR7.23 todas estas más coisas procedem de dentro e contaminam o homem. JOA3.19 E o julgamento é este: A luz veio ao mundo, e os homens amaram antes as trevas que a luz, porque as suas obras eram más. Romanos 8.7 Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; Romanos 8.8 e os que estão na carne não podem agradar a Deus. ICOR2.14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Efésios4.17 Portanto digo isto, e testifico no Senhor, para que não mais andeis como andam os gentios, na vaidade da sua mente, Efésios4.18 entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração; Efésios4.19 os quais, tendo-se tornado insensíveis, entregaram-se à lascívia para cometerem com avidez toda sorte de impureza. Efésios5.8 pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz TIT1.15 Tudo é puro para os que são puros, mas para os corrompidos e incrédulos nada é puro; antes tanto a sua mente como a sua consciência estão contaminadas.

3. Antes dos pecadores nascerem no reino de Deus pelo poder regenerador do Espírito, são filhos do diabo e estão debaixo de seu controle. São escravos do pecado:

JOA8.44 Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira. Efésios2.12 estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. IITIM2.25 corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, IITIM2.26 e que se desprendam dos laços do Diabo (por quem haviam sido presos), para cumprirem a vontade de Deus. IJOA3.10 Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão. IJOA5.19 Sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro jaz no Maligno. JOA8.34 Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Romanos 6.20 Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres em relação à justiça. TIT3.3 Porque também nós éramos outrora insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias paixões e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros.

4. O domínio do pecado é universal: todos os homens estão debaixo do seu poder; por conseguinte, ninguém é justo, nem um só .

IICRO6.36 Se pecarem contra ti (pois não há homem que não peque), e tu te indignares contra eles, e os entregares ao inimigo, de modo que os levem em cativeiro para alguma terra, longínqua ou próxima; JÓ15.14 Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce da mulher, para que fique justo? JÓ15.15 Eis que Deus não confia nos seus santos, e nem o céu é puro aos seus olhos; JÓ15.16 quanto menos o homem abominável e corrupto, que bebe a iniqüidade como a água? SAL130.3 Se observares, Senhor, iniqüidades, quem, Senhor, subsistirá?, SAL143.2 e não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente. PRO20.9 Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado? ECL7.20 Pois não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque. ECL7.29 Eis que isto tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas os homens buscaram muitos artifícios. ISA53.6 Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós. ISA64.6 Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como o vento, nos arrebatam. Romanos 3.9 Pois quê? Somos melhores do que eles? De maneira nenhuma, pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Romanos 3.10 como está escrito: Não há justo, nem sequer um. Romanos 3.11 Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Romanos 3.12 Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. TIA3.2 Pois todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, esse é homem perfeito, e capaz de refrear também todo o corpo. TIA3.8 mas a língua, nenhum homem a pode domar. É um mal irrefreável; está cheia de peçonha mortal. IJOA1.8 Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. IJOA1.9 Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. IJOA1.10 Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.

5. Os homens, sendo deixados em seu estado de morte, são incapazes, por si mesmos, de se arrepender, de crer no evangelho ou de vir a Cristo. Não têm poder, em si mesmos, para mudar sua natureza ou preparar-se para a salvação:

JÓ14.4 Quem do imundo tirará o puro? Ninguém. JER13.23 pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas malhas? então podereis também vós fazer o bem, habituados que estais a fazer o mal. MAT7.16 Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? MAT7.18 Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. MAT12.33 Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom; ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore. JOA6.44 Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. JOA6.65 E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido. Romanos 11.35 Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? ICOR2.14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. ICOR4.7 Pois, quem te diferença? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? IICOR3.5 não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus.
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David N. Steele e Curtis C. Thomas
Trad. João Alves dos Santos

Terça-feira, Julho 18, 2006

Eleição

“Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessaloninceses 2:13-14).

Se não houvesse outro texto na sagrada Palavra, à exceção deste, penso que todos deveríamos ser prontos para receber e reconhecer a fidelidade da grande e gloriosa doutrina da pré-eleição da família de Deus. Mas parece haver um inveterado preconceito na mente humana contra essa doutrina; e embora a maior parte das demais doutrinas sejam recebidas pelos cristãos professos (algumas com cautela, outras com prazer), essa ainda parece ser a mais freqüentemente desprezada e rejeitada. Em muitos de nossos púlpitos ter-se-ia como um pecado grave e traição pregar um sermão sobre a eleição, porque eles não fazem dela o que chamam de discurso "prático". Acho, então, que eles estão enganados. O que Deus revelou, ele o fez com um propósito. Não há nada nas Escrituras que talvez possa, debaixo da influência do Espírito Santo, ser convertido num discurso prático: pois "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil" para alguns propósitos espirituais úteis. É verdade que isso não pode ser convertido num discurso de livre-arbítrio – aquilo que bem sabemos – mas pode ser convertido num prático discurso da livre graça: e a prática da livre graça é a melhor prática, quando a doutrina do imutável amor de Deus é trazida para sustentar os corações de santos e pecadores.

Agora, acredito que alguns de vocês nessa manhã estão espantados com o verdadeiro sentido dessa palavra, e vão dizer: "Eu darei ouvidos a ela completamente; vou deixá-la a par dos meus preconceitos; eu ouvirei o que esse homem tem a dizer, apenas." Não tapem seus ouvidos e digam de imediato: "É uma doutrina tremenda!" Quem autorizou vocês a chamarem-na de tremenda ou terrível? Por que vocês se oporiam à doutrina divina? Lembrem-se o que aconteceu às crianças que zombaram do profeta de Deus, e exclamaram: "Sobe, calvo! Sobe, calvo"! Não digam nada contra as doutrinas divinas, com receio de que talvez algumas bestas-feras viriam da mata e lhes devorariam também. Há outras desgraças ao lado do amplo julgamento dos Céus – cuidado para que elas não lhe passem pela cabeça. Deixem de lado seus preconceitos: ouçam o que as Escrituras dizem; e
quando vocês receberem a verdade, se Deus tiver a vontade de revelá-la e manifestá-la às almas de vocês, não tenham vergonha de confessá-la. Confessar que vocês estiveram errados o­ntem é apenas reconhecer que vocês são um pouco mais sábios hoje, e ao invés de ser uma auto-repreensão, é uma honra para os julgamentos de vocês, e mostra que estão se aperfeiçoando no conhecimento da verdade. Não tenham vergonha de aprender, e de jogarem fora suas antigas doutrinas e opiniões; ocupem-se naquelas que vocês talvez percebam estar de modo mais claro na Palavra de Deus. Mas se vocês vêem que elas não estão na Bíblia, o que quer que eu diga, ou qualquer que sejam as autoridades que eu defenda, eu imploro a vocês, tal como amo suas almas, que as rejeitem; e se desse púlpito vocês sempre ouviram coisas contrárias a essas Sagradas Escrituras, lembrem-se que a Bíblia precisa estar em primeiro lugar, e que o ministro de Deus precisa descansar debaixo delas. Não devemos ficar de pé sobre a Bíblia para pregá-la, mas precisamos pregar com a Bíblia acima de nossas cabeças. Depois de termos pregado, estaremos cientes de que a montanha da verdade é mais alto do que nossos olhos possam vislumbrar; que as nuvens e a escuridão estão ao redor de seu cume, e que não podemos discernir seu ponto mais culminante; ainda assim, tentaremos pregá-la o melhor que podemos. Nada mais posso dizer disso antes de fazer uma introdução.

Agora, em primeiro lugar, vou falar um pouco acerca da veracidade dessa doutrina: "Deus de antemão vos escolheu para a salvação". Segundo, eu tentaria provar que a eleição é absoluta: "Ele vos escolheu de antemão para a salvação", não para a santificação, mas "através da santificação do Espírito e da fé na verdade". Terceiro, essa eleição é eterna, porque o texto diz "Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação". Em quarto lugar, ela é pessoal: "Ele vos escolheu". Então olharemos para os efeitos da doutrina – veremos o que ela faz; e finalmente, se Deus assim nos capacitar, tentaremos ver e buscar por suas tendências, e verificar se ela é uma doutrina deveras terrível e licenciosa! Iremos à flor e, tal como autênticas abelhas, ver se há nelas algum mel, qualquer que seja, se dela vem alguma bondade, ou se ela é uma imiscível, insolúvel maldição.

I. Em primeiro lugar, preciso testar e provar que essa doutrina é VERDADEIRA. E deixem-me iniciar com um argumentum ad hominem; vou falar com vocês de acordo com suas diferentes posições e opiniões. Há alguns de vocês que congregam na Igreja Anglicana, e estou feliz de vê-los aqui. Ainda que eu diga aqui, agora e corretamente, algumas coisas duras sobre a Igreja e o Estado, ainda amo a antiga Igreja, pois ela tem em sua comunidade alguns ministros de Deus e santos iminentes. Sei que vocês são grandes crentes no que seus Artigos declaram ser a doutrina. Dar-lhes-ei algo do que eles entendem ser, de modo unânime, a eleição; de modo que, se vocês acreditam neles, não podem deixar de receber a eleição. Vou ler para vocês um trecho do artigo 17 sobre a Predestinação e Eleição:

"A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes da fundação do mundo) ele a decretou a nós por seu secreto conselho, para livrar da maldição e da perdição aqueles que ele escolheu em Cristo fora da humanidade, e de trazê-los a Cristo para a eterna salvação, tal como o vaso de honra. O motivo pelo qual eles sejam gratos a tão excelente benefício divino pode ser dito de acordo com o propósito divino para o operar de Seu Espírito no tempo devido: eles, pela graça, obedecem ao chamado: são livremente justificados; são feitos filhos de Deus por adoção; são feitos segundo a imagem de seu Filho Unigênito Jesus Cristo; eles caminham religiosamente nas boas obras, e finalmente, pela misericórdia de Deus, eles alcançam a felicidade eterna."

Agora eu penso que qualquer fiel, se ele sincera e honestamente acredita na Madre Igreja, deve ser um pleno crente quanto à eleição. Em verdade, se ele vai a outros determinados trechos do Livro de Orações, ele encontrará coisas contrárias às doutrinas da livre graça, e se porá em conjunto à parte do ensino escriturístico; mas, se verificar nos Artigos, ele precisa ver que Deus escolheu seu povo para a vida eterna. Não sou um amante desesperado, entretanto, do livro tal como vocês podem ser; e eu apenas usei esse Artigo para mostrar-lhes que se vocês se submetem à Lei da Inglaterra, deveriam ao menos não oferecer objeção alguma a essa doutrina da predestinação.

Outra autoridade humana com quem eu poderia confirmar a doutrina da eleição é a do Credo Valdense. Se vocês lerem o Credo dos antigos Valdenses, deles surgido no meio de atenta chama da perseguição, verão que aqueles famosos professores e confessores da fé cristã receberam-na de modo mais firme e abraçaram essa doutrina como uma porção da verdade divina. Eu copiei de um antigo livro de Artigos da fé deles:

"Que Deus salvou da corrupção e da perdição aqueles a quem Ele escolheu desde a fundação do mundo; não por disposição alguma, fé ou santidade que estivesse neles, mas meramente por sua misericórdia em Jesus Seu Filho, passando a todos os outros de acordo com o irrepreensível motivo de Seu próprio livre-arbítrio e justiça."

O que eu prego, então, não é novidade; nenhuma nova doutrina. Adoro proclamar essas fortes e antigas doutrinas, que são chamadas pelo nome de Calvinismo, mas aquelas que são realmente e seguramente a verdadeira revelação de Deus como ele é em Cristo Jesus. Por essa verdade eu faço uma peregrinação ao passado, e vejo, pai após pai, confessor após confessor, mártir após mártir, em pé para me cumprimentar. Fosse eu um Pelagiano, ou um que acreditasse na doutrina do livre-arbítrio, e eu teria que andar por séculos totalmente só. Aqui ou acolá um herético de nenhum caráter poderia surgir e me chamar de irmão. Mas apoderando-me dessas coisas para serem meu padrão de fé, vejo as terras de anciãos com meus irmãos na fé – contemplando multidões que confessam o mesmo que eu, e reconhecem que esta é a religião da própria igreja de Deus.

Também lhes darei um excerto da antiga Confissão Batista. Somos batistas nessa congregação – a grande parte de nós em qualquer porcentagem – e gostamos de ver o que nossos próprios pais escreveram. Há apenas dois séculos atrás os batistas se reuniram em assembléia e publicaram seus artigos de fé, para pôr fim a certas indagações contra sua ortodoxia que tinham se espalhado pelo mundo. Eu me voltei a esse velho livro – que eu já havia publicado [A Confissão de Fé Batista (1689)] – e encontrei o seguinte em seu Artigo 3º:

"Pelo decreto de Deus, pela manifestação de sua Glória, alguns homens e anjos são predestinados ou preordenados à vida eterna através de Jesus Cristo para o louvor de sua gloriosa graça; outros são deixados a agir em seus próprios pecados para sua justa condenação, para o louvor de Sua gloriosa justiça. Esses anjos e homens assim predestinados e preordenados são particularmente e imutavelmente designados, e seu número é tão certo e definido que não pode ser acrescido ou diminuído. Aqueles da humanidade que são predestinados à vida, Deus, antes da fundação do mundo, de acordo com Sua vontade eterna e Seu propósito imutável, e o secreto conselho e imenso prazer de Sua vontade, tem escolhido em Cristo para a glória eterna fora de sua perfeita graça e amor, sem qualquer outra razão na criatura como condição ou causa a mover-lhe a isto."

Para com essas autoridades humanas, cuido para não ser precipitado com nenhuma das três sequer. Não me importa o que dizem, pró ou contra a essa doutrina. Eu apenas as usei como um tipo de confirmação de suas crenças, para mostrar-lhes que, ainda que eu, num momento, estivesse criticando como um herege ou um hiper-calvinista, depois de tudo isso estaria de volta à antigüidade. Todo o passado se põe à minha frente. Não cuido do presente. Deixem o presente surgir em meu rosto, não me importo. Não é problema, entretanto, o quanto um número de igrejas de Londres têm esquecido das doutrinas divinas, grandiosas e fundamentais. Se um punhado de nós se mantiver sozinhos numa manutenção nada vacilante da soberania de Deus, se, sim, somos cercados pelos inimigos, e até mesmo pelos nossos irmãos em Cristo, que poderiam ser nossos amigos e colaboradores, não é problema, se você pode considerar o passado; o nobre exército de mártires e a gloriosa hoste de confessores são nossos amigos; as testemunhas da verdade ficam em pé à nossa frente. Com estes por nós, não poderemos dizer que estamos sós, mas poderemos exclamar: "Eis aí Deus reservou para junto de si sete mil que não dobraram seus joelhos diante de Baal." Mas o melhor disso tudo, Deus está conosco.

Essa grande verdade sempre é a Bíblia, e somente a Bíblia. Meus ouvintes, vocês não acreditam em qualquer outro livro mais do que na Bíblia, acreditam? Se eu pudesse provar isso através de todos os livros da cristandade, se eu pudesse buscar na Biblioteca de Alexandria, e provar isto desde aquele lugar, vocês não precisariam acreditar nisso nunca mais; mas certamente crerão no que está na Palavra de Deus.

Eu selecionei alguns textos para ler a vocês. Gosto muito de dar-lhes um apanhado geral de textos quando fico com tanto receio de que vocês deixem de acreditar numa verdade, que ficarem tão perplexos em duvidar, se não crêem realmente.

Apenas deixem-me percorrer uma seleção de passagens onde o povo de Deus é chamado de eleito. Ora, se as pessoas são chamadas de eleitas, então deve haver eleição. Se Jesus Cristo e seus apóstolos são acostumados a chamar os crentes pelo título de eleitos, certamente acreditamos que eles o sejam, a menos que o termo nada signifique. Jesus Cristo disse: "Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos que ele escolheu, abreviou tais dias." "Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando sinais e prodígios, para enganar, se possível, os próprios eleitos." "E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu." (Marcos 13:20, 22, 27) "Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?" (Lucas 18:7) Em conjunto com mais outras passagens que poderiam ser selecionadas, o­nde tanto o termo "eleito", ou "escolhido", ou "preordenado", ou "apontado" é mencionado; ou a frase "minhas ovelhas" ou alguma designação similar, mostrando que o povo de Cristo é distinto do resto da humanidade.

Mas vocês têm concordâncias, e eu não vou lhes dar mais problemas com textos. Através das epístolas, os santos são constantemente denominados "os eleitos". Em Colossenses encontramos Paulo dizendo: "... pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia". Quando ele escreve a Tito, ele mesmo se chama, "Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus". Pedro diz: "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai". E se você vai para João, descobrirá que ele é afeiçoado ao termo. Ele diz: "O presbítero à senhora eleita"; e ele fala da nossa "irmã, a eleita". E sabemos o­nde isso está escrito: "Aquela que se encontra em Babilônia, também eleita". Eles não se envergonhariam desse termo hoje em dia; não tinham medo de falar disso. Atualmente esse termo tem sido revestido de uma diversidade de sentidos, e as pessoas têm mutilado e estragado a doutrina, e assim transformado-a numa verdadeira doutrina de demônios, tenho que admitir; e muitos do que se chamam crentes, têm que se intitular antinomistas. Não obstante esse fato, por que eu me envergonharia disso, se o homem o corrompe? Amamos a verdade divina tanto na tormenta quanto na bonança. Se há um mártir pelo qual temos amor antes de ele ser torturado, deveríamos amá-lo mais ainda quando ele está livre. Quando a verdade divina é desenvolvida na tribulação, não a chamamos de falsidade. Não a apreciamos para vê-la na tribulação, porque podemos discernir como deveria ser, mutatis mutandis, se ela não tivesse ido para a masmorra e torturada pela crueldade e pelas maquinações humanas. Se você vir a ler algumas das epístolas dos Pais da Igreja, você os descobrirá sempre se referindo ao povo de Deus como "eleito". Realmente, nas conversas do dia a dia, o termo usado entre as igrejas dos cristãos primitivos para uma outra era "eleito". Eles freqüentemente usavam o termo para os demais, demonstrando que era geralmente aceito que todo o povo de Deus era manifestamente "eleito".

Mas vamos agora para os versículos que provam a doutrina de modo afirmativo. Abram suas Bíblias em João 15:16, e vejam que Jesus Cristo escolheu seu povo, pelo que diz: "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda." E no versículo 19: "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." E no capítulo 17, versículos 8 e 9: "porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus".

Vá para Atos 13:48: "Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna." Eles poderiam ter omitido essa passagem, se quisessem, mas ela diz: "destinados para a vida eterna" no original tão patente quanto possível; e não nos importamos sobre os diferentes comentários existentes por aí. Vocês por pouco não precisam ser lembrados de Romanos 8, porque eu acredito que todos já estão bem familiarizados com esse capítulo e atualmente o entendem. Nos versículos 29 e seguintes ele diz: "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?" Seria desnecessário repetir o contexto do nono capítulo de Romanos. Tão certo quanto aquela [doutrina] se encerra na Bíblia, nenhum homem será capaz de provar o Arminianismo; tão certo quanto aquela [doutrina] está lá escrita, nem as mais violentas deturpações da passagem vão ser capazes de exterminar, das Escrituras, a doutrina da eleição. Permitam-nos ler versos como esses: "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço." Então leia no versículo 22, "Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão" Então vá para Romanos 11:7: "Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos" No quinto versículo do mesmo capítulo, lemos: "Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça". Vocês, sem dúvida, vão se lembrar da passagem de I Coríntios 1:26-29: "Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus." Novamente, lembrem-se da passagem de I Tessalonicenses 5:9: "porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo". Então vocês têm meu texto, que creio ser o bastante; mas, se precisam de mais, poderão encontrá-las com mais vagar, se já tiverem removido sua desconfiança de que essa doutrina seja verdadeira.

Parece-me, amigos, que esse preponderante conjunto de testemunhos das Escrituras devem fazer vacilar aqueles que ousam rir dessa doutrina. O que dizer daqueles que freqüentemente desprezaram-na, e negaram-lhe sua divindade; que sempre criticaram sua justiça, e ousaram afrontar a Deus e chamá-lo de um tirano Todo-Poderoso, quando têm ouvido dele o eleger alguns para a vida eterna? Podeis fazê-lo, ó repudiadores! arrancá-la da Bíblia? Podeis vós pegar um canivete judeu e cortá-la da Palavra de Deus? Seríeis vós como a mulher aos pés de Salomão, e ter sua criança fendida ao meio, do que vossa mui provavelmente pela sua metade? Não está assim na Escritura? E não seria vossa obrigação curvar-se ante ela, e docilmente reconhecer o que vós não compreendeis – para recebê-la como a verdade, mesmo que não podeis compreender seu significado? Não cuidarei em provar a justiça de Deus em assim ter eleito a uns e deixado outros. Não está em mim o arrazoar com meu Mestre. Ele falará por si mesmo, e assim o faz: "Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?" Quem é ele para talvez dizer para seu pai: "Por que me geraste?" ou à sua mãe: "Por que me deste à luz?" "Eu sou o Senhor – Eu formo a luz e crio a escuridão; Eu, o Senhor, faço todas essas coisas." Quem sois vós para replicar a Deus? Trema e beije seu bordão; curve-se e submeta-se ao seu cetro; não manifeste-se contra sua justiça, e não acuse publicamente seus atos antes de seu juízo, homem!

Mas há os que dizem: "É difícil para Deus escolher uns e rejeitar os outros". Agora, eu lhes farei uma questão. Há algum de vocês aqui nessa manhã que deseja ser santo, que deseja ser regenerado, deixar seus pecados e andar em santidade? "Sim, há", alguém diz, "Eu quero". Então Deus te elegeu. Mas outro diz: "Não, eu não quero ser santo; não quero desistir da minha luxúria e dos meus vícios." Por que você reclamaria, então, que Deus não te elegeu para isso? Por isso, se você fosse eleito, disso não gostaria, de acordo com sua própria confissão. Se Deus, nesta manhã, escolheu-te para a santidade, pode dizer que com isso não se importaria. Você não reconhece que prefere a embriaguez à sobriedade, a desonestidade à honestidade? Você ama esses prazeres mundanos mais do que a religião; então por que resmungaria se Deus não te escolheu para a religião? Se você ama a religião, Ele te escolheu para isso. Se você deseja, ele te escolheu para isso. Se você não deseja, que direito tem de dizer que Deus deveria te dar o que não quer? Supondo que eu tivesse em minha mão algo a que você não dá valor, e eu dissesse que eu daria a tais e tais pessoas, você não teria direito de reclamar que eu não te dei isso. Você não pode ser tão tolo para reclamar que o outro tem o que não se importou em ter. De acordo com sua própria confissão, alguns de vocês não querem a religião, não querem um novo coração e um espírito correto, não querem o perdão dos pecados, não querem santificação; vocês não querem ser eleitos para essas coisas: então por que reclamariam? Vocês têm essas coisas como palha, então por que deveriam queixar-se de Deus que deu-as a quem ele escolheu? Se você crê nelas por serem boas e as desejam, elas lá estão para vocês. Deus deu liberalmente a todos que a desejam; e, em primeiro lugar, ele fê-las desejar, pois de outro modo elas nunca o fariam. Se você ama essas coisas, ele te elegeu para elas, pode obtê-las; mas se não as quer, quem é você para encontrar alguma falha em Deus, quando isso é a sua própria vontade desesperada para amar essas coisas – sendo que seu próprio eu faz você odiá-las? Suponha que um homem na rua diria: "que vergonha é eu não ter um banco para me assentar na igreja, para ouvir o que esse homem tem para dizer". E suponha que ele diz: "Eu odeio o pregador; não posso agüentar sua doutrina; mas ainda assim é uma vergonha eu não ter um banco para me assentar". Você esperaria um homem falar assim? Não, você talvez diria: "Esse homem não se importa com isso. Por que ele se incomodaria pelo que outras pessoas têm o que dão valor e ele despreza?" Você não gosta da santidade, você não gosta da retidão; se Deus me elegeu para essas coisas, ele te machucaria por elas? "Ah, mas" alguém diria, "Eu pensava que isso significava que Deus elegeu alguns para o céu e outros para o inferno." É uma questão muito diferente da doutrina evangélica. Ele elegeu homens para a santidade e para a retidão e através dessas [características] para o céu. Você não pode dizer que Ele simplesmente escolheu uns para o céu e outros para o inferno. Se algum de vocês adora saber que foi salvo por Jesus Cristo, ele mesmo te elegeu para a salvação. Se algum de vocês deseja obter a salvação, você é eleito para obtê-la, se deseja isso de modo sincero e ardente. Mas, se você não deseja isso, por que seria tão inoportunamente tolo para reclamar pelo fato de que Deus deu aquilo que você não quer a outras pessoas?

II. Assim eu tentei dizer alguma coisa com respeito à veracidade da doutrina da eleição. Agora, resumidamente, deixem-me afirmar que a eleição é ABSOLUTA: isso quer dizer que não depende de quem nós somos. O texto diz: "Deus nos escolheu de antemão para a salvação", mas nossos opositores dizem que Deus escolheu as pessoas por elas serem boas, que as escolheu levando em conta suas diversas obras executadas. Agora, podemos perguntar, em contestação: que trabalhos são esses levados em conta pelos quais Deus escolheu seu povo? São eles os que comumente chamamos "obras da lei", obras de obediência que a criatura pode prestar? Se assim o é, podemos lhes responder – se homens não podem ser justificados pelas obras da lei, isso nos parece muito claramente que eles não podem ser eleitos pelas obras da lei: se não podem ser justificados por suas boas obras, eles por elas não podem ser salvos. O decreto da eleição, então, não pôde ser construído a partir das boas obras. "Mas", outros alegam, "Deus os elegeu na previsão de que creriam". Agora Deus dá a fé, portanto ele não poderia ter-lhes eleito levando em conta sua fé, que Ele previu. Pudesse haver vinte mendigos na rua, e eu decidisse dar a eles uns trocados; mas alguém diria que eu decidi dar a algum deles uns trocados, porque eu previ que ele o teria? Isso seria falar algo sem sentido. Da mesma maneira dizer que Deus elegeu homens porque previu que estes teriam fé, que é a salvação em princípio, seria um grande absurdo para nós ouvir no momento tal coisa. A fé é um dom de Deus. Toda virtude vem dele. Nada pode ter influído nele, portanto, para eleger homens, porque isso é seu dom. Estamos seguros de que a eleição é absoluta, totalmente separada das virtudes que os santos terão mais tarde. Ainda que um santo possa ser tão são e devoto como Paulo, ainda que ele possa ser tão audacioso quanto Pedro, ou amável quanto João, ainda assim ele não poderia clamar nada para seu Criador. Não conheci ainda nenhum santo, de qualquer denominação, que pensasse que Deus o salvou porque previu que teria essas virtudes e méritos. Agora, meus irmãos na fé: as melhores jóias que o santo sempre usa, se são jóias de sua própria criação, não são as das primeiras águas.

Há algo de terreno misturado com elas. A maior graça que podemos possuir terá algo de mundano. Sentimos isso quando somos os mais refinados, quando somos os mais santificados, e nossa linguagem é sempre assim:

"Principal dos pecadores eu sou;
Por mim Jesus morreu."

Nossa única esperança, nossa única argumentação, ainda se sustenta na graça, tal como evidenciada na pessoa de Jesus Cristo. E estou seguro de que devemos rejeitar completamente e desconsiderar toda idéia de que nossas graças, que são dons de Deus, que foram plantadas com sua destra, possam ter sido a causa de seu amor. Sempre devemos cantar:

"O que houve em nós que estima pudesse merecer
Ou o deleite do Criador dar?
Foi justamente do Pai, devemos sempre cantar
Porque, ao seu olhar, bom fez parecer"

"Ele terá misericórdia de quem ele quiser ter misericórdia": Ele salva porque ele salvará. E se vocês me perguntarem por que ele me salvou, posso dizer apenas: porque ele assim o fez. Havia algo em mim que pudesse me recomendar a Deus? Não: eu deixei todas as coisas de lado, não tenho nada que me recomende. Quando Deus me salvou, eu era o mais vil, perdido e arruinado da raça humana. Eu o exibia como um recém-nascido em meu próprio sangue. Verdadeiramente, eu não tinha poder para me ajudar. Oh! Quão miserável eu me senti e como me compreendi! Se você tem algo a se recomendar a Deus, eu nunca tive. Estarei contente ao ser salvo pela graça, sem mistura, pura graça. Não posso me jactanciar de mérito algum. Se você pode, eu não. Devo cantar,

"Graça livre, do primeiro ao último, somente,
Têm vencido meu amor e sustentado minh’alma firmemente"

III. Em terceiro lugar, a eleição é ETERNA. "Deus vos escolheu desde o princípio para a vida eterna". Algum homem pode me dizer quando foi o princípio? Anos atrás pensávamos que o princípio desse mundo foi quando Adão veio; mas temos descoberto que milhares de anos antes de Deus preparar a matéria do caos para formá-la como habitação humana, nela colocando certa vez raças de criaturas, que morreriam e deixariam as marcas de seus trabalhos manuais e as maravilhosas habilidades, antes ele tentou sua mão no homem. Mas aquilo não era o princípio: por revelação nos aponta para um longo período anterior no qual esse mundo foi moldado, para os dias nos quais as estrelas matutinas surgiram; quando, tal como gotas de orvalho, dos dedos da manhã, estrelas e constelações pingaram das mãos de Deus; quando, por seus próprios lábios, ele lançou órbitas ponderadas; quando com sua própria mão ele estabeleceu cometas, como raios, vagueando através do céu, para um dia descobrir sua própria esfera. Voltamos a anos nos quais mundos foram feitos e sistemas moldados, mas mesmo assim não nos aproximamos ainda do princípio. Até vamos ao tempo no qual todo o universo adormecia na mente de Deus como ainda não nascido, até que entramos na eternidade quando Deus o Criador vivia só, tudo repousando dentro dele, toda a criação descansando em seu pensamento grandioso e poderoso, mas ainda não imaginamos o princípio. Poderíamos ir mais e mais e mais para trás, eras após eras. Poderíamos ir para trás, se usássemos tais mundos estranhos, eternidades completas, e ainda assim nunca chegaríamos ao princípio. Nossas asas estariam cansadas, nossa imaginação pouco a pouco desapareceria; poderia ultrapassar o brilho dos raios na sua majestade, poder e velocidade, mas isso seria dentro em breve enfadonho para atingir o princípio. Mas Deus, desde o princípio, escolheu seu povo; quando o etéreo não navegado ainda não tinha sido revolvido pela asa de um anjo sequer, quando o espaço era sem limites, ou ainda não nascido quando a quietude universal reinava, e nenhuma voz ou suspiro quebrava a solenidade do silêncio; quando não havia nem começo, nem gesto, nem tempo, nada, apenas Deus, só em sua eternidade; quando a canção de um anjo, sem a assistência de um querubim sequer, muito antes das criaturas vivas nascerem, ou das rodas da carruagem de Jeová tivessem sido moldadas, mesmo assim, "no princípio havia o Verbo", e no princípio o povo de Deus era um com o Verbo, e "no princípio ele os escolheu para a vida eterna". Nossa eleição, então é eterna. Não cessarei de prová-la, vou apenas passar por esses pensamentos para o bem dos novos convertidos, para que entendam a que nos referimos ao dizer da eleição eterna e absoluta.

IV. Em seqüência, a eleição é PESSOAL. Aqui novamente nossos oponentes tentam atacar a eleição nos alegando que trata-se de uma eleição de nações, não de pessoas. Mas aqui o Apóstolo diz, "Deus escolheu você desde o princípio". É o mais miserável artifício na terra alegar que Deus não escolheu pessoas, mas nações, porque a mesma objeção que se faz contra a escolha de pessoa ocorre contra a escolha de uma nação. Se não fosse justo escolher uma pessoa, seria muito mais injusto escolher uma nação, uma vez que as nações são a reunião de multidões de indivíduos, e escolher uma nação parece ser um crime imenso – como se a eleição fosse um crime – mais do que escolher uma pessoa. Certamente escolher dez mil seria considerado pior do que escolher um; distinguir uma nação inteira do resto da humanidade, parece ser uma grande extravagância nos atos da soberania divina do que a eleição de um pobre mortal e deixar outro. Mas que são as nações senão homens? Que são todas as pessoas senão combinações de unidades diferentes? Uma nação é feita daquele, daquele e daquele indivíduo. E se você me dissesse que Deus escolheu os judeus, eu diria então que ele escolheu aquele, aquele e aquele judeu. E se você dissesse que ele escolheu os ingleses, diria que ele escolheu aquele, aquele e aquele inglês. É a mesma coisa depois de tudo. A eleição, então, é pessoal: deve ser assim. Todo aquele que ler esse texto, e outros da mesma maneira, verão que a Escritura continuamente fala de um e outro do povo de Deus, e fala deles como tendo sido sujeitos especiais da eleição.

"Filhos somos de Deus através da Sua eleição,
Aquele que em Jesus Cristo confia;
Pela eterna destinação
Soberana graça aqui recebemos, hoje em dia."

Sabemos que isto é eleição pessoal.

V. O outro pensamento é – porque meu tempo voa rápido para me capacitar a me deter na extensão desses pontos – que a eleição produz BONS RESULTADOS. "Ele vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade." Como alguns homens enganam-se completamente quanto à doutrina de eleição! E como minha alma queima e ferve no conjunto de males terríveis que têm aumentado pela corrupção e combate dessa gloriosa porção da gloriosa verdade de Deus! Quantos dizem de si mesmos, "Sou eleito", e se assentaram na preguiça, e pior do que isso, têm dito: "sou eleito de Deus", e com as duas mãos têm feito perversidade. Eles rapidamente correm para as coisas impuras, porque dizem, "sou o filho escolhido de Deus, independentemente das minhas obras, e por isso posso viver como determinei, e faço aquilo que gosto." Oh, amado! Deixe-me solenemente advertir-lhe para ir tão longe com a verdade; ou melhor, de não transformar a verdade em erro, e por isso não carregá-la tão longe. Precisamos passar além da verdade; podemos fazer dela, que significaria algo doce para nosso conforto, algo como uma mistura terrível para nossa destruição. Digo a vocês que tem havido milhares de homens que se arruinaram por não entenderem a eleição; que têm dito: "Deus me escolheu para o céu, e para a vida eterna"; mas se esqueceram de que Deus os escolheu "pela santificação do Espírito e fé na verdade". Essa é a eleição divina – eleição para a santificação e para a fé. Deus escolheu as pessoas para serem santas, e para serem crentes. Quantos de vocês aqui, então, são crentes? Quantos de minha congregação podem pôr suas mãos sobre seus corações e dizer, "eu creio no Deus que me santificou"? Há os entre vocês que dizem "sou eleito"? – Eu lembro que vocês juraram semana passada. Um de vocês diz, "acredito que sou eleito" – mas eu sacudo a tua memória em respeito a alguns atos viciosos que você cometeu nos últimos seis dias. Outro de vocês diz, "sou eleito" – mas eu olharia na tua face e diria, "Eleito?! És o mais maldito dos hipócritas! É tudo o que és".

Outros diriam, "sou eleito" – mas eu lhes lembraria que têm negligenciado a misericórdia – assente-se e não ore. Oh, amado! Nunca pense que você é um eleito a menos que seja santo. Você pode vir a Cristo como um pecador, mas não pode vir a Cristo até vir tua santidade. Não interprete mal o que digo – não diga "sou eleito" e ainda pense que pode viver em pecado. Isso é impossível. Os eleitos de Deus são santos. Eles não são puros, não são perfeitos, não são imaculados; mas, pegando as vidas deles como um todo, eles são santos. São marcados, e distintos dos outros: e nenhum homem tem o direito de concluir que é santo exceto em sua santidade. Ele pode ser eleito, e ainda estar na escuridão, mas não tem o direito de acreditar nisso; ninguém pode ver isto, não há evidência disso. O homem pode um dia viver, mas hoje estar morto. Se você anda no temor do Senhor, tentando servi-lo, e obedece aos seus mandamentos, não tenha dúvida de que seu nome está escrito no livro da vida do Cordeiro, antes da fundação do mundo. E, com receio de que isso seja demais para você, note a outra face da eleição, que é a fé, "fé na verdade". Aquele que acredita na verdade de Deus, e acredita em Jesus Cristo, é eleito. Freqüentemente encontro com pobres almas, que se depreciam e se preocupam com esse pensamento – "Mas como eu não seria eleito?" "Oh, senhor", eles diriam, "Pus minha confiança em Jesus; sei que creio em seu nome e acredito em seu sangue; como eu não seria eleito?" Pobre criatura! Você não sabe muito sobre o evangelho, ou nunca falou sobre isso, porque o que crê é eleito. Aqueles que são eleitos, assim o são para a santificação e fé; e se tem fé, você é um dos eleitos de Deus; você pode saber isso e deveria saber disso, com certeza absoluta. Se você, como um pecador, olhar para Jesus Cristo nessa manhã, e dizer:

"Nada trago em minhas mãos,
Simplesmente à tua cruz eu me apego",

você é um eleito. Não tenho receio de a eleição amedrontar pobres santos ou pecadores. Há muitos divinos que dizem ao questionador, "a eleição não tem nada a ver contigo". Isso é muito mal, porque a pobre alma não deve ser silenciada assim. Se você pudesse lhe silenciar, seria bom, mas se assim ele pensar, não ajudará em nada. Diga a ele, então, que se você crê no Senhor Jesus Cristo, você é eleito. Digo a você – o principal dos pecadores – nessa manhã, digo a você no nome [de Jesus], se você vier a Deus sem obra alguma sua, entregue-se ao sangue e à justiça de Jesus Cristo; se você vier agora e nele crer, você é eleito – você é amado por Deus desde antes da fundação do mundo, e nada pôde fazer a menos que Deus tivesse lhe concedido poder, e te escolheu para isso fazer. Agora você está salvo e seguro se você assim o faz, mas venha e entregue-se a Jesus Cristo, e deseje ser salvo, e por ele amado. Mas não pense que qualquer homem será salvo sem fé e santidade. Não concebam, meus ouvintes, que algum decreto, passado nas brumas da eternidade, salvará suas almas, a menos que vocês creiam em Cristo. Não se assente e fantasie que você está para ser salvo sem fé e santidade. É das mais heresias mais abomináveis e malditas, e tem arruinado milhares. Não deixe a eleição como um travesseiro para você nele dormir, ou então você será arruinado. Deus proibiu que eu estivesse costurando travesseiros debaixo do braço nos quais você poderia descansar confortavelmente em seus pecados.

Pecador! Não há nada na Bíblia para aliviar seus pecados. Mas se estás condenado, ó homem! Se estás perdida, ó mulher! Vós não encontrareis nessa Bíblia uma gota para refrescar tua língua, ou uma doutrina para aliviar teus pecados; sua condenação será completamente falha sua, e seu pecado será ricamente merecido, porque vós credes não sois condenados. "Vós não credes porque não sois das minhas ovelhas" "Vós não vireis a mim para terdes vida". Não fantasie que a eleição perdoa o pecado – não sonhe com isso – não firme-se na doce complacência na idéia da sua irresponsabilidade. Você é responsável. Precisamos dar-lhe ambas as coisas. Precisamos ter a soberania divina, e precisamos ter a responsabilidade humana. Precisamos ter a eleição, mas precisamos diligenciar seus corações, precisamos levar a verdade divina a vocês; precisamos lhes falar, e lembrar-lhes disso, do que está escrito, "em mim está tua ovelha", ainda está também escrito, "Ó Israel, tu tens destruído a ti mesmo".

VI. Agora, por último, o que são tendências verdadeiras e legítimas sobre corretas concepções acerca da doutrina da eleição. Primeiramente, quero lhes dizer que, quando a doutrina da eleição santifica, assim procede sob a bênção de Deus; e segundo, o que ela fará por pecadores se Deus os abençoar para tal fim.

Primeiro penso que a eleição, para um santo, é uma das doutrinas mais despojadoras em toda a Terra – por levar embora toda a verdade na carne, ou toda segurança em qualquer um exceto em Jesus Cristo. Quão freqüentemente nos enrolamos em nossa própria justiça, e nos revestimos com as falsas pérolas e brilhantes de nossos próprios feitos e obras. Começamos a dizer: "Agora eu estaria salvo, porque tenho essa e aquela evidência". Ao invés disso, é a fé desnuda que salva; aquela fé, aquela que se une solitariamente com o Cordeiro, independentemente de obras, embora seja fecunda para elas. Quão freqüentemente descansamos em algumas obras, outras que não aquelas do nosso próprio Amado, e cremos em algum poder, outro que não aquele que vem do alto. Agora, se tivermos esse poder tirado de nós, precisamos considerar a eleição. Aquiete-se, minh’alma, e considere isto. Deus te amou antes de teres um início. Ele te amou quando estava morto em teus delitos e pecados, e enviou Seu Filho para morrer por ti. Ele te lavou com Seu precioso sangue antes mesmo de poderes pronunciar Seu nome. Podes, porquanto, estares orgulhoso? Nada tenho, digo bem, nada, por tão humilhante para nós do que a doutrina da eleição. Algumas vezes caí prostrado ante ela, ao esforçar-me para compreendê-la. Estendi minhas asas e, como uma águia, elevei-me em direção ao sol. Utilidade tinha sido meus olhos, e verdade minhas asas, por uma estação; mas, quando eu me aproximei disso, e outro pensamento tomou conta de mim, - "Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação", eu estava perdido em seu brilho, vacilante com o pensamento de poder; e da vertiginosa elevação minh’alma veio, quebrantada e prostrada, dizendo, "Deus, nada sou, sou menos que nada. Por que eu? Por que eu?"

Amigos, se quiserem ser humilhados, estudem a eleição, para que sejam humilhados debaixo da influência do Espírito de Deus. Aquele que é orgulhoso de sua eleição não é eleito; e aquele que é humilhado debaixo de um entendimento da mesma pode crer que é. Ele tem toda razão para acreditar que é, porque esse é um dos mais abençoados efeitos da eleição que nos ajuda a humilhar a nós mesmos diante de Deus.

Demais. A eleição, no cristão, deve dele fazer muito destemido e audacioso. Nenhum homem será tão audacioso quanto aquele que crê ser eleito de Deus. Que inquieta ao homem se ele é eleito do seu Criador? Inquietar-se-á ele com os lamentáveis gorjeios de alguns decrépitos pombos quando sabe ele que é uma águia de real estirpe? Inquietar-se-á quando o maltrapilho o apontar, quando o real sangue do céu corre por suas veias? Temerá se todo o mundo está contra ele? Se o mundo todo, de modo amplo, se põe em armas, ele permanece em paz perfeita, por estar no lugar secreto do tabernáculo do Altíssimo, no grande pavilhão do Todo-Poderoso. "Sou de Deus", diz ele, "sou diferente dos outros homens. Eles são de uma raça inferior. Não sou eu nobre? Não sou um dos aristocratas do céu? Meu nome não está escrito no livro de Deus?" Importa-se ele com o mundo? Pelo contrário: como o leão que não se inquieta com o latido de um cão, ele sorri para todos seus inimigos; e quando avizinham-se eles em demasia, move-se e os despedaça. Quem o preocupa? Passa por entre eles como um colosso; enquanto homenzinhos andam por baixo dele e não o compreendem. Sua fronte é de ferro, seu coração de pedra polida – que lhe importa o homem? Ao revés; se algum assobio universal viesse sobre toda a Terra, ele poderia para isso sorrir, e dizer:

"Ele que tem feito de Deus seu refúgio,
Encontrará um mais seguro abrigo".

"Sou um dos Seus eleitos. Sou escolhido de Deus e precioso; e embora o mundo me mande embora, não tenho medo". Ah! Vós, professos bajuladores, alguns de vocês podem se curvar como os salgueiros. Há poucos cristãos-de-carvalho hoje em dia, que podem suportar a tempestade; e vou lhes dizer a razão. É porque não acreditam que vocês mesmos são eleitos. O homem que acredita ser eleito será muito presunçoso para pecar; ele não se humilhará para cometer os atos das pessoas comuns. O crente em sua verdade dirá, "Eu vou comprometer meus princípios? Eu vou mudar minhas doutrinas? Eu vou deixar de lado meus pontos-de-vista? Eu vou esconder que o que creio seja verdade? Não! Desde que sei que sou um dos eleitos de Deus, na face de todos devo falar a verdade divina, o que quer que digam." Nada faz um homem tão verdadeiramente audacioso do que sentir que é um eleito de Deus. Aquele que Deus escolheu não se agitará nem tremerá.

Ademais, a eleição nos fará santos. Nada debaixo da graciosa influência do Espírito Santo pode fazer um cristão mais santo do que no momento em que ele pensa ser escolhido. "Devo eu pecar", ele diz, "depois de Deus ter me escolhido? Devo eu transgredir diante de tal amor? Devo eu me desviar diante de tal afeto e misericórdia compassiva? Pelo contrário, meu Senhor; desde que me escolhestes, amar-te-ei; para ti viverei:

‘Desde que tu, eterno Deus,
Meu Pai viestes a ser;’

Dar-me-ei para ti para ser teu para sempre, pela eleição e redenção, entregando-me a ti, e solenemente consagrando-me para Teu serviço."

E agora, por último, aos ímpios. Que diz a eleição para você? Primeiramente, ímpios, eu vos excluirei por um momento. Há muitos de vocês que não gostam da eleição, e não vou lhes repreender, por terem ouvido aqueles [homens] pregarem sobre eleição, os que tem se assentado, e dito: "não tenho nada para dizer ao pecador". Agora, eu digo que vocês devem odiar tal pregação, e não vou lhes repreender por isso. Mas digo, tenham coragem, tenham esperança, ó pecadores, que há eleição. Muito longe de desanimar-lhes e desencorajá-los, a eleição é algo cheio de esperança e de alegria. Que seria se vos dissesse que talvez ninguém pudesse ser salvo, ninguém seria destinado à vida eterna; não tremeríeis e envolveríeis vossas mãos em falsas esperanças, e diríeis, "então como eu posso ser salvo, uma vez que ninguém é eleito?" Mas eu digo que há uma multidão de eleitos, além de qualquer contagem – um exército que mortal algum pode enumerar. Assim, anime-se, pobre pecador! Livre-se de teu desalento – você pode não ser um eleito tanto quanto qualquer um? Por isso há uma hoste inumerável de escolhidos. Para eles há conforto e alegria! Então, não apenas crie coragem, mas vá e tente o Mestre. Lembre-se, se você não fosse eleito, nada perderia por isso. O que os quatro sírios disseram? "Vamos, pois, agora, e demos conosco no arraial dos siros; se nos deixarem viver, viveremos; se nos matarem, tão-somente morreremos." Ó pecador, venha para o trono da misericórdia eletiva, talvez morrerás aonde estás. Vá para Deus; e, mesmo supondo que ele te menospreze, ou que sua mão estendida possa a ti afugentar – algo impossível – ainda assim não perderás nada; não serás mais maldito por isso. Ao mesmo tempo, suponhas que sejas maldito, terias a satisfação, ao menos, de ser capaz de erguer teus olhos no inferno e dizer: "Deus, eu clamei por misericórdia a ti e tu não ma garantiste; procurei, mas tu a recusaste." Isso nunca dirás, ó pecador! Se fores a ele, e clamar-lhe, ele te receberá; nunca ele rejeitou um sequer! Não há esperança para você? Embora haja um número delimitado, é verdade que todo aquele que procurar está contido nesse número. Ide e procurai; e se fores o primeiro a ir para o inferno, diga aos demônios que desse modo pereceu – diga aos demônios que és um perdido, depois de ter ido como um pecador culpado a Jesus. Digo-vos que isso desgraça o Eterno – com reverência ao seu nome – e ele não permitirá tal coisa. Ele é ciumento em sua honra, e não permitirá que um pecador diga isso.

Mas, ó pobre alma! Não apenas pense assim, que nada podes perder ao ir; há mais um pensamento – amaste a reflexão dessa manhã sobre a eleição? Admitirás sua justiça? Dirás: "sinto-me perdido; mereço isso; e se meu irmão é salvo, eu não posso murmurar. Se Deus me destrói, eu mereço, mas se ele salva a pessoa que está assentada ao meu lado, ele tem o direito de fazer o que deseja por si mesmo, e eu nada perdi com isso." Você pode dizer que isso [veio] honestamente do seu coração? Se sim, então a doutrina da eleição teve o efeito certo no seu espírito, e você não está longe do Reino dos Céus. Você foi trazido aonde deveria estar, aonde o Espírito desejou que estivesse; e sendo assim nessa manhã, ide em paz; Deus perdoou seus pecados. Você não sentirá como se não fosse perdoado; você não sentirá se o Espírito de Deus não tivesse trabalhado em você. Regozije-se nisso, então. Descanse sua esperança na cruz de Cristo. Não pense na eleição mas, sim, em Cristo Jesus. Descanse em Jesus - Jesus, o princípio, meio e sem fim.
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C. H. Spurgeon

Sexta-feira, Julho 14, 2006

Apostasia (Hebreus 6.4-6)

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram parti-cipantes do Espírito Santo. (5) E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, (6) E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério." (Hebreus 6:4-6).
Introdução

A passagem que agora está ocupando nossa atenção é uma das mais graves na epístola aos Hebreus, até mesmo, quando comparada a qualquer outra no Novo Testamento. Provavelmente, poucas almas regeneradas a têm lido, refletidamente, sem serem tocadas de temor e tremor. Professantes(2) descuidados têm sido levados freqüentemente à inquietação em suas consciências assim que ouvem sua atemorizante linguagem. A passagem fala de uma classe de pessoas que foram altamente privilegiadas, que foram singularmente favorecidas, mas que, ao invés de terem aperfeiçoado suas oportunidades, desgraçadamente perverteram-nas; aqueles que trouxeram vergonha e reprovação à causa de Cristo; e que estão em uma condição tão sem esperanças que é "impossível que sejam outra vez renovados para arrependimento". Bom será se, cada um de nós, levarmos sinceramente nosso coração a Deus, suplicando-Lhe que nos impeça de cometer tal naufrágio na fé3.


Como provavelmente a maioria de nossos leitores estão cientes, os versos diante de nós têm provado ser um dos mais ferozes campos de batalha teológica de todos os tempos. É neste ponto que as mais quentes batalhas entre Calvinistas e Arminianos têm sido travadas. Aqueles que acreditam que é possível a um verdadeiro Cristão cometer pecado e apostatar de modo a cair da graça e se perder eternamente, têm confiadamente apelado para estes versos de modo a provar sua teoria. É muito preocupante, uma vez que sua teoria os tornou tão preconceituosos, que se tornam incapazes de examinar imparcialmente, e pesar cuidadosamente, seus vários termos. Com suas mentes tão polarizadas por suas visões da apostasia, eles têm antes tomado como certo que esta passagem descreve um verdadeiro filho de Deus, que, virando completamente suas costas para Cristo, no final das contas perece. Mas, as Escrituras nos ordenam a "examinar tudo" (I Te. 5:21), e isto implica algo mais que uma investigação superficial e apressada do que é, admitidamente, uma passagem difícil.


Se de um lado, os Arminianos têm estado sempre prontos a ler, nesta passagem, seus dogmas não bíblicos da apostasia de um Cristão, é necessário confessar que muitos Calvinistas têm falhado em atacar com sucesso e interpretar satisfatoriamente os pontos mais difíceis destes versos. Estão certos ao afirmar que as Escrituras ensinam, enfática e inequivocamente, a Divina preservação e a perseverança humana dos santos, bem como eles têm também sabiamente apresentado que a Palavra de Deus não pode e não se contradiz. Se nosso Senhor determinou que Suas ovelhas "nunca pereceriam" (Jo 10:28), então certamente Hebreus 6 não ensina que algumas perecerão. Se através do apóstolo Paulo o Espírito Santo nos assegura que nada pode separar o filho do amor de seu Pai (36 Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro. 37 Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou.38 Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir,39 Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.', Romanos 8:35-39)" então, sem dúvida, a passagem que agora está diante de nós não declara que alguma coisa irá. Pode nem sempre ser fácil descobrir a perfeita consistência de uma escritura com outra, mas nós ainda devemos nos ater firmemente à inerrante harmonia e integridade da Verdade de Deus.


A primeira dificuldade ligada à nossa passagem é termos certeza da classe de pessoas que estão lá representadas. O Espírito Santo, aqui, está descrevendo almas regeneradas ou não regeneradas? O próximo passo é determinar qual é o significado de "e recaíram". Por fim, o que está sendo designado através de "É impossível que sejam outra vez renovados para arrependimento". Antecipando nossa exposição, nós estamos plenamente seguros de que o "recaíram" aqui apresentado significa um deliberado, completo e final repúdio a Cristo - um pecado para o qual não há perdão. Assim também nós entendemos que "impossível" renová-los novamente para arrependimento, denuncia que sua condição e caso estão além de qualquer esperança de recuperação. Por causa disto, os Calvinistas têm, geralmente, afirmado que esta passagem está tratando meramente de não convertidos. Mas, sobre isto há duas objeções insuperáveis: primeiro, os meramente não convertidos não têm do quê "recair"; segundo, meramente não convertidos nunca foram "renovados" para arrependimento.


Adicionalmente à controvérsia que estes versos têm ocasionado, não poucos os têm transformado através de um uso indevido:


"A má interpretação desta passagem tem também, creio eu, em muitos casos, criado uma extrema aflição mental a duas classes de pessoas: - aos professantes, que, após terem caído em algum pecado grave, têm sido despertados para reflexões alarmantes; e aos verdadeiros Cristãos, quando caem ante o poder de uma doença mental, mergulhando em um estado de fraqueza espiritual, ou quando são levados a enormes transgressões da lei Divina, tornando-se culpados como o foram Davi e Pedro. E isto nada tem criado além de obstáculos intransponíveis no caminho de ambos 'que estão pondo seu refúgio, em reter a esperança a eles proposta4' no Evangelho. Tudo isto torna ainda mais necessário que nós inquiramos cuidadosamente o significado desta passagem. Quando corretamente entendida, ela não dá suporte a qualquer falsa conclusão que tenha sido tirada dela, mas será como qualquer outra parte das Escrituras inspiradas 'proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir e para instruir em justiça;5' - bem ajustada para produzir cuidado, de nenhuma forma projetada para induzir ao desespero" (Dr. J. Brown).


Condição da Alma.

Antes de tentarmos uma elucidação das dificuldades acima mencionadas, e para preparar o caminho de nossa exposição destes versos, cujo conteúdo tão violentamente tem embaraçado a muitos, deixe-nos recordar, mais uma vez, a condição d'alma na qual estes Cristãos Hebreus tinham caído: Eles tinham-se tornado "negligentes para ouvir" (Hb. 5:11), "não estavam experimentados na palavra da justiça" (Hb. 5:13), e eram incapazes de mastigar "mantimento sólido" (Hb.5:14).
Esta condição estava repleta das conseqüências mais perigosas:


"Os Hebreus tinham se tornado indiferentes, negligentes e inertes; o evangelho, uma vez visto carinhosamente e amado afetuosamente por eles tinha-se tornado insípido e vago; as perseguições e contendas de seus compatriotas tornaram-se um doloroso fardo, sob o qual gemiam, e sob o qual não gozavam da comunhão com o Senhor Jesus. Os caracterizavam: A escuridão, a dúvida, a tristeza, a indecisão, e conseqüentemente um caminhar em que o poder do amor de Cristo não era manifestado. Agora, se eles continuassem nessa condição, o que mais poderia resultar senão apostasia? Esquecimento, se continuado, termina em rejeição, apatia em antipatia, descrença em infidelidade."


"Tal era seu perigo. E se sucumbissem a ele sua condição seria sem esperanças. Nenhum evangelho restaria a ser pregado, nenhum poder para resgatá-los e levantá-los. Eles tinham ouvido e conhecido a voz que dizia: 'Vinde a mim, e eu vos aliviarei6'. Eles tinham professado crer no Senhor que morreu pelos pecadores, e ter escolhido a Ele como Salvador e Mestre. E agora estavam se esquecendo e abandonando a Rocha da sua Salvação. Se eles deliberada e obstinadamente continuassem nesta situação, eles estariam em perigo de impenitência concludente e dureza de coração."


"A exortação deve ser vista em conexão a uma circunstância especial dos Hebreus. Após a rejeição do Messias por Israel, o evangelho havia sido pregado aos Judeus pelos apóstolos, e os dons e o poder do Espírito Santo tinham sido manifestos entre eles. Os Hebreus tinham aceitado o evangelho do, uma vez crucificado e, agora glorificado Redentor que enviou do céu o Espírito, um sinal de Sua exaltação, e um penhor da herança futura. Tendo então entrado na 'esfera da manifestação da nova aliança', qualquer um que obstinadamente o abandonasse, somente poderia recair naquela fase do judaísmo que crucificou o Senhor Jesus. Para eles não haveria alternativa além de seguir para o pleno conhecimento do sacerdócio celestial de Cristo, e para a aceitação de crente e para o louvor através do Mediador no santuário celestial, ou cair de volta na atitude, não dos Israelitas pios de antes do Pentecostes, como João o Batista e aqueles que aguardavam a prometida redenção, nem mesmo na condição daqueles pelos quais o Salvador orou 'porque não sabiam o que faziam7'; mas em um estado de consciente e obstinada inimizade contra Cristo, e no pecado de rejeitá-Lo e colocá-Lo em público vitupério". (Adolph Saphir).


"O perigo ao qual esta inércia espiritual expôs os Hebreus era tal que justificava a forte linguagem de repreensão e reprovação. Apostasia de Cristo era um passo mais fácil e natural para um Judeu que para um crente gentio, porque o caminho estava sempre aberto e os convidando, como homens, a retornar às associações que uma vez carregaram com eles, de aparência exterior de santificação no nome de Jeová, e que somente o poder da graça os tinha permitido renunciar. Quando as realidades espirituais se tornam inoperantes em suas almas, a imagem visível de como era permanecia, e ai estava o perigo deles se entregarem em reverência a suas almas. Se não houvesse um exercício habitual de seus sentidos espirituais, o poder de discernimento poderia não permanecer: eles poderiam chamar o mal de bem, e o bem de mal. A ignorância que brota da negligência espiritual inicia sua própria punição pelo embotamento indiferente do que uma vez foram mentes claras, e rouba ao espírito seu poder de detectar os astutos métodos do Diabo. É somente na presença de Deus que o Cristão pode, com efeito, externar suas energias espirituais. Permanecer em Cristo, nos mantém naquela presença. Nenhum erro mais infeliz pode sobrevir a um crente que separar, nos hábitos de sua mente, o conhecimento adquirido do viver Cristo. A fé morre prontamente quando separada de seu objeto. O conhecimento, entretanto, é precioso, mas o conhecimento de Deus é algo progressivo
(Cl. 1:10), cujo final não é obtido deste lado da glória (I Co. 8:2).
A experiência máxima de um Cristão avançando é a de uma contínua iniciação. Com uma perspectiva cada vez mais larga, ele tem uma percepção cada dia mais profunda da graça na qual se encontra, e na qual ele se estabelece mais e mais, pela palavra da justiça..."


"Uma fé clara e crescente, nas coisas celestiais era necessária para preservar os Cristãos Judeus da recaída. Voltar ao Judaísmo era desistir de Cristo, o qual havia deixado suas casas "desertas"
(Mt.23:38).
Seria cair da graça, e colocar a eles próprios não somente debaixo da maldição comum da lei, mas da maldição particular que tinha trazido a culpa do sangue de Jesus sobre a réproba e cega nação de Seus assassinos" (A. Pridham).


Deve ser notado, contudo, que é tão fácil, e que a atração é tão real, para um Cristão gentio retornar àquele mundo do qual o Senhor o chamou, quanto era a um Cristão judeu retornar novamente ao Judaísmo. E na exata proporção em que o Cristão falha em andar com Deus diariamente, assim também o mundo obtém poder sobre seu coração, mente e vida, e uma continuidade no mundanismo está repleta das mais diretas e fatais conseqüências.


"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados", etc. (verso 4).

Aqui o apóstolo continua a digressão que iniciou em Hebreus 5:11. O parêntesis teve duas divisões: a primeira, em Hebreus 5:11-14 é repreensiva; a segunda, em Hebreus 6:1-20 é exortativa. No capítulo 6 ele exorta os Hebreus sobre dois deveres: o progresso no caminhar Cristão (versos 1-11); perseverança interior (versos 12-20). A primeira exortação está proposta nos versos 1 e 2 e qualificada no verso 3. O motivo para obedecer é esboçado a partir do perigo da apostasia (versos 4-6). A abertura "Porque" no verso 4 anuncia uma conexão próxima de nossa passagem atual com aquela que imediatamente a precede. Ela esboça uma conclusão do que o apóstolo tinha dito em Hebreus 5:11-14. Ela amplifica o "Se" do verso 3. Ela mostra um sério aviso contra sua continuação em sua indolência atual. Isto delineia um terrível contraste com a possibilidade no verso 3.


"O apóstolo considera a degeneração dos Hebreus com desânimo. Ele parece ver nisto o perigo de uma completa, confirmada, obstinada, e irrecuperável apostasia da verdade. Ele os observa à beira de um precipício, e ele por isto levanta sua voz, e com veemência, ainda amando honestamente, os avisa sobre tão temível mal" (Adolph Saphir).


Três coisas chamam nossa cuidadosa atenção ao nos aproximarmos de nossa passagem: as pessoas a quem aqui se fala, o pecado que elas cometeram, e a condenação anunciada a elas. Ao considerar as pessoas a quem se fala é da maior importância notar que o apóstolo não diz: "nós que fomos uma vez iluminados", nem mesmo diz "vocês", ao invés, ele diz "aqueles". Em claro contraste com eles, ele diz aos Hebreus, "Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores".8


"Posteriormente, quando o apóstolo vem declarar sua esperança e convicção concernente a estes Hebreus que não são como aqueles que havia descrito antes, nem como se estivessem para cair em perdição, e ele fez isto sobre três bases nas quais eles seriam diferenciados destes:

1. Que eles teriam aquelas coisas que "acompanham a salvação"; é isto, coisas das quais a salvação é inseparável. Nenhuma destas coisas, contudo, havia ele atribuído àqueles que descreveu neste lugar (versos 4-6); por isto, se agiu desta forma, não teriam sido eles para o apóstolo um argumento e uma evidência de uma conclusão contrária: que estes não cairiam e pereceriam como aqueles? Eis o porquê ele não atribuir nada a estes aqui no texto que faça particularmente "companhia à salvação".

2. Ele os descreve por seus "deveres de obediência" e frutos da fé. Isto foi 'o trabalho e o amor' para com o nome de Deus, verso 10. E por isso, também, ele os diferencia daqueles do texto, concernente àqueles que julgava deveriam perecer eternamente, o que estes frutos da fé salvadora e do amor sincero não deveriam.

3. Ele acrescenta, que, na preservação daqueles aqui mencionados, a fidelidade de Deus é levada em consideração: 'Porque Deus não é injusto para se esquecer'. Porque eles eram aqueles que ele pretendia estivessem interessados na aliança da graça, considerando que só assim há algum engajamento da fidelidade e da justiça de Deus para preservar os homens da apostasia e da ruína, e há desta forma uma igual relação sobre todos que são assim alcançados pela aliança. Mas, para aqueles do texto ele não supõe tal coisa, e por isso não anuncia que qualquer justiça ou fidelidade de Deus estava de qualquer forma comprometida com sua preservação, mas muito ao contrário." (Dr. John Owen)


É muito pouco preciso designar como "meros professantes" aqueles descritos nos versos 4, 5. Eles foram uma classe que tinha gozado de grandes privilégios, acima de tudo como agora acompanha a pregação do Evangelho. Aqueles aqui retratados são ditos como havendo recebido cinco privilégios, o que está em contrate com as seis situações enumeradas nos versos 1, 2, as quais pertencem ao homem na carne, sob o Judaísmo. Cinco é o número da graça, e as bênçãos aqui mencionadas pertencem à dispensação Cristã. Ainda que eles não fossem verdadeiros Cristãos. Isto é evidente do que não é dito. Observe que eles não foram citados como sendo eleitos de Deus, como aqueles por quem Cristo morreu, como aqueles que foram nascidos no Espírito. Eles não são citados como sendo justificados, perdoados, aceito no Amado. Nem é citada qualquer coisa sobre sua fé, amor, ou obediência. Ainda que estas sejam exatamente as qualidades que distinguem um verdadeiro filho de Deus.


Primeiro, eles tinham sido "iluminados".

O Sol da justiça havia brilhado, trazendo cura nas suas asas9, e, como Mateus 4:16 diz: "O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou." Diferente do pagão, a quem Cristo, nos dias de Sua carne, não visitou, aqueles que vieram sob o som de Sua voz foram maravilhosamente e gloriosamente iluminados.


A palavra grega para "iluminado" aqui significa "receber luz ou conhecimento através do ensino". É assim traduzida na Septuaginta em Juízes 13:8, II Reis 12:2, 17:27.
O apóstolo Paulo a utiliza como "manifestar", ou "trazer à luz" em I Coríntios 4:5, II Timóteo 1:10.
Satanás cegou os entendimentos dos incrédulos, "para que lhes não resplandeça a luz do evangelho" (II Co 4:4), que é, dar conhecimento dele. Então, "iluminado" aqui significa ser instruído na doutrina do evangelho, tendo desta forma uma clara compreensão dele. Na passagem paralela em Hebreus 10:26 as mesmas pessoas são citadas como tendo "recebido o conhecimento da verdade", confronte também em 21 Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado;II Pedro 2:20-21 ).
É, contudo, somente um conhecimento natural de coisas espirituais, como pode ser adquirido por ouvir exteriormente ou por ler, exatamente como alguém pode ser iluminado por fazer um estudo especial de uma das ciências. Isto está longe de ser aquela iluminação espiritual que transforma (II Co. 3:18). Uma ilustração de uma pessoa não regenerada sendo "iluminada", como aqui, é encontrada no caso de Balaão, em Números 24:4.


Segundo, eles tinham "provado" o dom celestial.

Para "provar" é necessário ter uma experiência pessoal, e não uma mera descrição.


"Provar não inclui comer, muito menos digerir e transformar em nutrição aquilo que é provado, porque sua natureza sendo através deste ato discernida, será recusada, de fato, ainda que nós gostemos de seu paladar e sabor em alguma outra ponderação. As pessoas aqui descritas, então, são aqueles que têm um certo grau de entendimento e apreciaram a revelação da graça, como os ouvintes nos pedregais10 eles receberam a Palavra com grande alegria." (John Owen)


O "provar" está em contraste com o "comer" de 51 Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.
52 Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer?
53 Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.
54 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.
55 Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida.
56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.', João 6:50-56 ).


As opiniões estão divididas se o "dom celestial" se refere ao Senhor Jesus ou à pessoa do Espírito Santo. Talvez não seja possível para nós dogmatizar este ponto. Realmente, a diferença é indistinta, pois o Espírito está aqui para glorificar a Cristo, como Ele veio do Pai por Cristo como "Dom" de Sua ascensão ao Seu povo. Se a referencia for ao Senhor Jesus,
João 3:16, 4:1, etc., serão referências pertinentes, se for ao Espírito Santo, serão Atos 2:38, 8:20,
Atos 10:45, Atos 11:17.
Pessoalmente, nos inclinamos para a última. Este Dom Divino é aqui citado como sendo "celestial" por causa do "céu", e que guia para o céu, em contraste com o Judaísmo - confronte Atos 2:2, I Pedro 1:12.
Deste "Dom" aqueles apóstatas tinham "provado", ou tinham uma experiência comparável a Mateus 27:34 onde "provar" é oposto a verdadeiramente beber. Aqueles aqui em destaque haviam tido uma familiaridade com o Evangelho, como para ganhar uma grande medida de suas bem-aventuranças como também para grandemente agravar seus pecados e condenações. Uma ilustração deste fato é encontrada em 21 Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende;'Mateus 13:20-2)".


Terceiro, eles "se tornaram participantes do Espírito Santo".

Primeiro, deve ser mostrado que a palavra grega para "participantes" aqui é uma palavra diferente da que é usada em Colossenses 1:12 e II Pedro 1:4, onde verdadeiros Cristãos estão em vista. A palavra aqui simplesmente significa "companheiros", referindo-se a algo externo ao invés de interno. É para ser observado que este item está colocado no meio de cinco, e isto porque ele descreve o princípio motor dos outros quatro, os quais estão todos em efeito. Estes apóstatas nunca "nasceram do Espírito" (Jo. 3:6), muito menos eram seus corpos Seu "templo" (I Co. 6:19). Nem nós cremos que estes versos ensinam que o Espírito Santo tenha, a qualquer tempo, trabalhado internamente neles, pois caso contrário Filipenses 1:6 teria sido contradito. Isto significa que eles tinham compartilhado dos benefícios de Suas operações sobrenaturais e manifestações: "...moveu-se o lugar..."
(Atos 4:31)
ilustra isto. Abaixo nós citamos o Dr. J. Brown:


"É altamente provável que o escritor inspirado refira-se primariamente aos dons miraculosos e operações do Espírito Santo pelos quais a primitiva dispensação da Cristandade foi administrada. Estes dons não foram de nenhuma forma confinados àqueles que foram 'transformados pela renovação dos seus entendimentos11'. As palavras de nosso Senhor no verso 23 "E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.', Mateus 7:22-23 )"; e de Paulo em 1Co "E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.', I Coríntios 13:1-2), parecem anunciar, que a retenção destes homens não renovados não foi muito incomum naquela época, de forma nenhuma delas mostram claramente que sua retenção e um estado não regenerado são de alguma forma incompatíveis."


Quarto, "E provaram a boa palavra de Deus".

"Eu entendo por esta expressão a promessa de Deus com respeito ao Messias, a essência e a substância de tudo. É digno de nota o fato desta promessa estar por distinção designada através de Jeremias como 'a boa palavra'
(Jr. 33:14).
'Provar', então, esta 'boa Palavra de Deus', é experimentar o fato de que Deus tem sido fiel à Sua promessa - gozar, tanto quanto um homem não convertido possa gozar, das bênçãos e vantagens que fluem daquela promessa sendo cumprida. 'Provar a boa Palavra de Deus', parece, apenas gozar as vantagens da nova dispensação." (Dr. J. Brown).


Uma confirmação adicional de que o apóstolo aqui está se referindo a este fato, de que estes apóstatas tinham testemunhado o cumprimento da promessa de Deus é obtida através da comparação com Jeremias 29:10: "Porque assim diz o SENHOR: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar."


Note quão cuidadosamente o apóstolo ainda mantém a palavra "provar", o melhor meio de nos permitir identificá-los. Eles não podem dizer com Jeremias "Achando-se as tuas palavras, logo as comi"
(Jr. 15:16).


"É como se ainda dissesse: 'Eu não falei daqueles que têm recebido nutrição; mas daqueles que somente a têm provado, tanto que eles deveriam ter desejado isto como 'leite racional, não falsificado' e crescessem por meio disto". (Dr. John Owen)


Um impressionante exemplo de alguém que tão somente "provou" a boa Palavra de Deus é encontrado em Marcos 6:20: "Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo; e guardava-o com segurança, e fazia muitas coisas, atendendo-o, e de boa mente o ouvia."


Quinto, "E as virtudes do século futuro", ou "era futura".

A referência aqui é para a nova dispensação que foi anunciada pelo Messias de Israel de acordo com as predições do Velho Testamento. Isto tem correspondência com o "nestes últimos dias" de Hebreus 1:1, e está em contraste com o "tempo passado" ou a economia Mosaica. Seu Messias não era nenhum outro senão o "Deus Forte" (Is. 9:6), e maravilhosas e gloriosas, estupendas e únicas, foram Suas obras miraculosas. Destes "poderes" estes apóstatas haviam "provado", ou haviam experimentado. Eles haviam sido testemunhas pessoais dos milagres de Cristo, e também das maravilhas que seguiram Sua ascensão, quando tão gloriosas manifestações do Espírito foram dadas. Portanto eles eram "inescusáveis". Evidência convincente e conclusiva havia sido apresentada diante deles, mas não houve fé responsiva em seus corações. Um correto exemplo disto pode ser encontrado 48 "Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação.João 11:47-48)"


"E recaíram".

A palavra grega aqui é muito forte e enfática, até mais forte que aquela usada em Mateus 7:27,
quando é dito da casa construída sobre a areia: "e foi grande a sua queda." É uma queda completa, um total abandono do Cristianismo que está em destaque aqui. É um "virar as costas" proposital à verdade de Deus revelada, um total repúdio do Evangelho. É acontecer um "naufrágio na fé" (I Tm. 1:19).
Este pecado terrível não é cometido por um mero professante nominal, porque ele não tem nada de onde realmente recair, salvo um nome vazio. A classe aqui descrita são aqueles que tiveram suas mentes iluminadas, suas consciências agitadas, suas afeições movidas em um grau considerável, e ainda aqueles que nunca foram trazidos da morte para a vida. Também não são Cristãos apóstatas que estão em estudo aqui. Não é simplesmente "cair em pecado", este ou aquele pecado. O maior "pecado" que um homem regenerado pode possivelmente cometer é uma negação pessoal de Cristo: Pedro foi culpado disto, e ele ainda foi "renovado para arrependimento". É uma total renúncia de todas as verdades distintivas e os princípios do Cristianismo, e isto não secretamente, mas abertamente, o que se constitui em apostasia.


"E recaíram". "Esta dificilmente é uma tradução justa.12 Tem sido dito que o apóstolo aqui não estava afirmando que tais pessoas iriam ou foram 'recair', mas que 'se eles fossem recair' - uma suposição que, contudo, jamais poderia se realizar - então a conseqüência seria que eles não seriam 'renovados para arrependimento'. As palavras literalmente traduzidas são, 'E apostataram', ou, 'Ainda tem apostatado'. O apóstolo obviamente anuncia que tais pessoas podem, e que estas pessoas tinham de fato, 'recaído'. Por 'recaindo', nós estamos claramente entendendo o que é comumente chamado apostasia. Isto não consiste em uma queda ocasional em efetivo pecado, por mais grave e agravado que seja; nem na renúncia de alguns princípios do Cristianismo, ainda que sejam aqueles que são de considerável importância; mas em uma renúncia aberta, total, determinada de todos os princípios constituintes do Cristianismo, e um retorno para uma falsa religião, como a dos Judeus descrentes ou pagãos, ou para a infidelidade aberta e para a irreligiosidade aberta" (Dr. J. Brown).


"É impossível que os que... recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento".

Quatro questões aqui clamam por resposta. O que significa "renovados para arrependimento"? O que quer dizer "outra vez renovados para arrependimento"? Porque esta experiência é "impossível"? A quem isto é "impossível"?


O arrependimento significa mudança de pensamento: Mateus 21:29 e Romanos 11:29 - estabelecem isto. É mais que uma ação mental, a consciência estando também ativa, levando à contrição e a autocondenação (Jó 42:6).
No não regenerado é simplesmente uma obra da natureza, no filho de Deus é forjado pelo Espírito Santo. O último é evangélico, sendo uma das coisas que "acompanham a salvação". O primeiro não é assim, sendo a "tristeza do mundo", a qual "opera a morte" (II Co. 7:10).
Este tipo de "arrependimento" ou remorso tem sua mais impressionante exemplificação no caso de Judas: 4 Dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é contigo. 5 E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.'27:3-5 )" .
Tal foi o arrependimento destes apóstatas. O verbo grego para "renovar" aqui não ocorre em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Provavelmente "restaurar" teria sido melhor, pois é a mesma palavra usada na Septuaginta, para um verbo Hebraico que significa renovar no sentido de restaurar: Salmo 103:5; Salmo 104:30; Lamentações 5:21. Josephus o aplicou à renovação do Templo!


Mas, o que significa "renovar para arrependimento"?


"Ser 'renovado' é uma expressão figurativa que denota uma mudança, uma grande mudança, e uma mudança para melhor. Ser 'renovado' assim como mudar o pensamento de uma pessoa é significativo de uma importante e vantajosa alteração de opinião, e caráter e serviço. E uma tal alteração, as pessoas alegam como tendo sido experimentadas em um período anterior. Elas outrora estavam em um estado de ignorância com respeito às doutrinas e às evidências do Cristianismo, e haviam sido 'iluminadas'. Elas não tinham, em outros tempos, conhecido a excelência e a beleza da verdade Cristã, e haviam sido criadas para 'provar os dons celestiais'. Elas outrora confundiram as profecias com respeito ao Messias, e não estavam cientes de seu cumprimento, e, claro, eram estranhas àquela vigorosa influência que a revelação do Novo Testamento apresentava; e estas pessoas haviam sido criadas para ver que aquela 'boa palavra' fora cumprida, e haviam sido feitas participantes dos privilégios externos e estavam sujeitas às energias peculiares de uma nova ordem de coisas. Sua visão, e sensações, e circunstâncias, haviam materialmente mudado. Quão grande é a diferença entre um ignorante, intolerante Judeu, e a pessoa descrita na passagem precedente! Ele havia se transformado com isto sendo outro homem. Ele não tinha, contudo, se tornado, no senso do apóstolo, uma 'nova criatura'. Seu pensamento não estava tão mudado para sinceramente crer 'a verdade como está em Jesus13', mas ainda, uma grande e até onde ela foi, uma radical mudança havia tido lugar" (Dr. J. Brown).


Agora é impossível "renovar para arrependimento" aqueles que abandonaram totalmente a revelação Cristã. Algumas coisas são "impossíveis" no que diz respeito à natureza de Deus, como ele não poder mentir, ou perdoar pecados sem a santificação em Sua justiça. Outras coisas que são possíveis à natureza de Deus são feitas impossíveis por Seus decretos ou propósitos: Veja
29 "E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa - I Samuel 15:28-29 )".
Ainda outras coisas são "possíveis" ou "impossíveis" considerando a regra ou a ordem de todas as coisas conforme foram estabelecidas por Deus. Por exemplo, não pode haver fé sem ouvir a Palavra (14 Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? 15 E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. 16 Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? 17 De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.10:13-17)".


"Quando se trata do [nosso] dever [para com estas pessoas], Deus não tem nem expressado ordem sobre elas, nem determinado meios para seu cumprimento, elas devem ser vistas então como sendo impossíveis [como, por exemplo, não há salvação sem arrependimento, Lucas 13:3
(A.W.P)]; e então, no que nos diz respeito, elas são absolutamente assim, e assim devem ser avaliadas. E é a 'impossibilidade' aqui essencialmente planejada. É uma coisa que Deus nunca nos ordenou que nos empenhássemos, nem determinou meios para alcançarmos, nem prometeu nos ajudar. É por isto que não temos nenhuma razão para procurar, tentar, ou esperar, já que isto não é possível por nenhuma lei, regra, ou constituição de Deus."


"O apóstolo não prossegue nos instruindo sobre a natureza de eventos futuros, além do que o nosso próprio dever é participante deles. Não é para nós procurarmos ou esperarmos, ou orarmos, ou nos empenharmos para a renovação de tais pessoas para arrependimento. Contudo, Deus deu uma lei sobre estas coisas a nós, e não a Si mesmo. Isto [renovação para arrependimento] pode ser possível para Deus, pelo que sabemos, e se não houver nisto uma contradição a quaisquer das divinas propriedades de Sua natureza; contudo, Ele não nos faz esperar quaisquer destas coisas Dele, nem tem Ele determinado quaisquer meios para que nós nos empenhemos nisto. Que Ele pode fazer nós devemos confiadamente aceitar; mas nosso dever quanto a estas pessoas está inteiramente terminado. E de fato, eles colocam a si mesmos completamente fora de nosso alcance" (Dr. John Owen).


É necessário ser observado cuidadosamente que no conjunto desta passagem (12 "Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. 13 Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. 14 Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal.'5:11ss )" em diante o apóstolo está falando de seu próprio ministério. Nas mãos de Deus, Seus servos são os instrumentos pelos quais Ele trabalha e através dos quais cumpre Seu propósito evangelístico. Portanto, Paulo pode dizer com propriedade "porque eu pelo evangelho vos gerei" (I Co 4:15).
E de novo: "Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gl. 4:19). Assim os servos de Deus têm, através da pregação do Evangelho, "renovado para arrependimento" aqueles citados em Hebreus 6:4.
Mas eles apostataram, eles totalmente repudiaram o Evangelho. Sendo conseqüentemente "impossível" aos servos de Deus "renová-los novamente para arrependimento", pela razão auto-suficiente de que não têm outra mensagem para proclamar àqueles. Eles [os servos de Deus] não têm outro Evangelho de reserva, nem outros motivos a apresentar. O Cristo crucificado já havia sido posto diante deles. Ele [Cristo] eles agora denunciaram como um Impostor. Não há "nenhum outro nome" pelo qual eles possam ser salvos. Sua pública renúncia de Cristo tornou seu caso sem esperança, até onde os servos de Deus saibam. "Deixai-os" (Mt. 15:14) é agora sua ordem: compare com Judas 22.
Se é, ou não, possível a Deus, consistentemente com Sua santidade, humilhá-los, nossa passagem não estabelece.


"Pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus" (verso 6).

Isto é apresentado para mostrar a gravidade de seu terrível crime e a impossibilidade deles serem renovados novamente para arrependimento. Renunciando à sua profissão Cristã eles declararam que Cristo é um Impostor. Portanto, são irrecuperáveis. Tentar prosseguir debatendo com eles, será somente deitar pérolas aos porcos14. Com este verso deve ser cuidadosamente comparada a passagem paralela em (27 "Mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários. 28 Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. 29 De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?', 'Hebreus 10:26-29 )".
Estes apóstatas têm "recebido o conhecimento da verdade", apesar de não um conhecimento redentor dela. Depois disto eles pecaram "propositadamente": houve uma deliberada e aberta desaprovação da verdade. A natureza do seu pecado particular está designando um "pisar o Filho de Deus (algo que nenhum Cristão verdadeiro jamais fará) e contando (considerando) o sangue da aliança algo profano", é isto, olhando Aquele que foi suspenso na Cruz como um malfeitor comum. Para tanto "não resta mais sacrifício pelos pecados". Seu caso é sem esperança tanto quanto ao homem é concedido saber; e o escritor acredita, que os tais são abandonados por Deus também.


"Pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério". "Eles, portanto, se identificam a si mesmos com os que O crucificaram - eles acolheram e reconheceram sentimentos que eram Ele na terra e em seu poder, os quais lhes induziram a crucificá-Lo. Eles o expuseram à infâmia, fizeram dEle um exemplo público. Fizeram mais para desonrar a Jesus Cristo que Seus assassinos. Estes nunca professaram reconhecer Sua missão divina; mas estes apóstatas fizeram tal profissão - eles fizeram uma espécie de julgamento do Cristianismo, e, após o julgamento, o rejeitaram" (Dr. J. Brown).


Tal aviso foi necessário e bem calculado para agitar os indolentes Hebreus. Sob a economia do Antigo Testamento, por meio de tipos e profecias, eles tinham obtido vislumbres da verdade como sendo Cristo, a chamada "palavra da origem de Cristo". Sob aquelas sombras e vislumbres eles tinham sido educados, não sabendo sua completa importância até que tivessem sido abençoados com a plena luz do Evangelho, aqui chamado de "perfeição". O perigo ao qual eles estavam expostos era o de recuar do chão sobre o qual o Cristianismo os havia colocado, e relaxar ao Judaísmo. Agir desta forma significa re-entrar naquela Casa que Cristo havia deixado "deserta" (Mateus 23:38), e seria juntar forças com Seus assassinos [de Jesus], e portanto "eles, de novo crucificam o Filho de Deus", e por sua apostasia "o expõem ao (público) vitupério". Nós podemos acrescentar que a palavra grega aqui para "crucificar" é uma palavra mais forte que a que é geralmente utilizada: ela significa "crucificar ao alto". A atenção é assim direcionada para a ereção da cruz na qual o Salvador foi suspenso para escárnio público.


Tomando a passagem como um todo, é necessário ser lembrado que nem todos os que têm professado receber o Evangelho foram nascidos de Deus: a parábola do Semeador mostra que a Inteligência deve estar informada, a consciência examinada, os sentimentos naturais extirpados, e ainda não deve haver "raízes" neles. Nem tudo que reluz é ouro. Há sempre uma "mistura de gente" (Êxodo 12:38) que acompanha o povo de Deus. Além disso, há no verdadeiro Cristão um velho coração, que é "enganoso, mais do que todas as coisas, e perverso15", e por esta razão ele está em constante carência de um alerta fidedigno. Este, Deus tem dado a cada dispensação: Gênesis 2:17;( "16 Então eu também vos farei isto: porei sobre vós terror, a tísica e a febre ardente, que consumam os olhos e atormentem a alma; e semeareis em vão a vossa semente, pois os vossos inimigos a comerão.''Levítico 26:15-16 )" - Mateus 3:8; Romanos 11:21; I Coríntios 10:12.


Conclusão

Finalmente, precisa ser dito que enquanto as Escrituras falam claramente e positivamente da perseverança dos santos, ainda é uma perseverança de santos, não de professantes não regenerados. A Divina preservação não está somente em uma situação segura, mas também em um caminho santo de disposição e conduta. Nós estamos "mediante a fé, guardados na virtude de Deus para a salvação16". Nós estamos guardados pelo Espírito trabalhando em nós um espírito de total dependência, renunciando nossa própria sabedoria e força. O único lugar do qual nós não podemos cair é aquele embaixo, na poeira. É lá que o Senhor busca Seu próprio povo, desarraigando-os de toda a confiança na carne, e dando-lhes a experimentar que é quando estão fracos é que são fortes17. Estes tais, e somente estes tais, são salvos e salvos eternamente.



A. W. Pink
Tradução: Walter Andrade Campelo

Quinta-feira, Junho 22, 2006

O Escândalo do Pecado

O pecado domina o coração humano, e se fosse pela sua vontade, condenaria cada alma. Se não compreendermos nossa própria perversidade ou não enxergarmos nosso pecado como Deus o vê, não poderemos entendê-lo ou fazer uso do remédio contra ele. Aqueles que tentam justificá-lo, negligenciam a justificação de Deus. Até compreendermos quão totalmente repugnante nosso pecado é, nunca poderemos conhecer a Deus.
*
O pecado é abominável a Deus. Ele o odeia (cf. Dt 12.31). “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar…” (Hc 1.13). O pecado é contrário à sua própria natureza (Is 6.3; 1 Jo 1.5). A pena máxima – a morte – é exigida para cada infração contra a lei de Deus (Ez 18.4,20; Rm 6.23). Até a menor transgressão é digna da mesma pena severa: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10).
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O pecado suja a alma. Ele rebaixa a dignidade da pessoa. Obscurece o entendimento. Torna-nos piores que animais, pois os animais não podem pecar. Polui, corrompe, suja. Todo pecado é vulgar, repulsivo e revoltante aos olhos de Deus. A Bíblia o chama de imundícia (Pv 30.12; Ez 24.13; Tg 1.21). O pecado é comparado ao vômito, e os pecadores são os cães que voltam ao seu próprio vômito (Pv 26.11; 2 Pe 2.22). O pecado é chamado de lamaçal, e os pecadores são os porcos que rolam nele (Sl 69.2; 2 Pe 2.22). O pecado é semelhante ao cadáver em putrefação, e os pecadores são os túmulos que contêm o malcheiro e a sujeira (Mt 23.27). O pecado transformou a humanidade em uma raça poluída e imunda.
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As terríveis conseqüências do pecado incluem o inferno, sobre o qual Jesus disse: “E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo no inferno” (Mt 5.30). As Escrituras descrevem o inferno como um lugar terrível e medonho onde pecadores são “ atormentados com fogo e enxofre… ” e “A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do seu nome” (Ap 14.10,11). Essas verdades se tornam mais alarmantes ainda quando percebemos que são parte da Palavra inspirada de um Deus de infinita misericórdia e graça.
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Deus quer que entendamos a excessiva pecaminosidade do pecado (Rm 7.13). Não ousemos encará-lo com leviandade ou rejeitar nossa própria culpa frivolamente. Quando encaramos o pecado como ele é, é nosso dever odiá-lo. As Escrituras vão até mais fundo que isso: “Ali, vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos , por todas as vossas iniqüidades que tendes cometido” (Ez 20.43, ênfase acrescentada). Em outras palavras, quando verdadeiramente vemos o que o pecado é, longe de obter auto-estima, nós nos desprezaremos.
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A natureza da depravação humana
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O pecado penetra no mais íntimo do nosso ser. O pecado está no âmago da alma humana. “Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem” (Mt 15.19,20). “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).
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No entanto, o pecado não é uma fraqueza ou um vício pelo qual não somos responsáveis. É um antagonismo ativo e intencional contra Deus. Os pecadores livre e prazerosamente optam pelo pecado. Está na natureza humana amar o pecado e odiar a Deus. “O pendor da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7).
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Em outras palavras, o pecado é rebeldia contra Deus. Os pecadores raciocinam no próprio coração: “Com a língua prevaleceremos, os lábios são nossos; quem é o Senhor sobre nós?” (Sl 12.4, ênfase acrescentada). Isaías 57.4 caracteriza os pecadores como crianças rebeldes que abrem sua enorme boca e mostram a língua para Deus. O pecado destronaria Deus, o destruiria e colocaria o ego no seu lugar de direito. Todo pecado é, em último caso, um ato de orgulho, que diz: “Dê o lugar, Deus, eu estou no comando”. Por isso é que todo pecado, no seu âmago, é uma blasfêmia.
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Para começar, amamos nosso pecado; temos prazer nele, buscamos oportunidades para praticá-lo. No entanto, por sabermos instintivamente que somos culpados diante de Deus, inevitavelmente tentamos camuflar ou negar nossa própria pecaminosidade. Há muitas maneiras de fazer isso, como observamos nos capítulos anteriores. Elas podem ser resumidas, grosso modo, a três categorias: encobri-lo, justificar-nos e ignorá-lo.
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Primeiro, tentamos encobrir o pecado : Adão e Eva fizeram isso no Jardim, depois de ter pecado: “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si” (Gn 3.7) – então se esconderam da presença do Senhor (v.8). O rei Davi tentou em vão encobrir sua culpa quando pecou contra Urias. Ele tinha adulterado com a esposa de Urias, Bate-Seba. Quando ela ficou grávida, primeiro Davi tramou um plano tentando fazer parecer que Urias era o pai da criança (2 Sm 11.5-13). Quando o plano não funcionou, ele conspirou para que Urias fosse morto (vs.14-17). Isso somente agravou o seu pecado. Durante todos os meses da gravidez de Bate-Seba, Davi continuou encobrindo o seu pecado (2 Sm 11.27). Mais tarde, quando Davi foi confrontado com seu pecado, ele se arrependeu e confessou: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3,4).
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Segundo, tentamos nos justificar : O pecado é sempre culpa de alguém. Adão culpou Eva, e a descreveu como “a mulher que me deste” (Gn 3.12; ênfase acrescentada). Isso mostra que ele também culpava a Deus. Ele não sabia o que era uma mulher até acordar casado com uma! Deus, raciocinou ele, era o responsável pela mulher que o vitimizou. Da mesma maneira, nós nos desculpamos pelos nossos erros porque pensamos que a culpa é de outra pessoa. Ou argumentamos ter um bom motivo. Convencemos a nós mesmos que é correto retribuir o mal com o mal. (cf. Pv 24.29; 1 Ts 5.15; 1 Pe 3.9). Ou então pensamos que se os motivos finais são bons, o mal pode ser justificado – raciocínio errado de que os fins justificam os meios (Rm 3.8). Chamamos o pecado de desequilíbrio, rotulamos a nós mesmos de vítimas ou negamos que os nossos atos sejam pecaminosos. A mente humana é de uma criatividade sem-fim quando se trata de encontrar mecanismos para justificar o mal.
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Terceiro, ignoramos nosso próprio pecado : Sempre pecamos por ignorância ou presunção. Por isso Davi orou: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão” (Sl 19.12,13). Jesus nos advertiu sobre a loucura de tolerar uma trave nos nossos olhos e nos preocuparmos com um argueiro no olho do outro (Mt 7.3). Pelo fato de o pecado ser tão difuso, nós naturalmente tendemos a nos tornar insensíveis ao nosso próprio pecado, do mesmo modo que o gambá não é incomodado pelo seu próprio mau cheiro. Até mesmo uma consciência supersensível pode não saber todas as coisas (cf. 1 Co 4.4).
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O pecado não se expressa necessariamente por atos. Atitudes pecaminosas, disposições pecaminosas, desejos pecaminosos e um estado pecaminoso de coração são tão repreensíveis quanto as ações que ele produz. Jesus disse que a ira é tão pecaminosa quanto o homicídio, e a concupiscência tanto quanto o adultério (Mt 5.21-28).
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O pecado é de tal maneira enganoso que torna o pecador insensível contra sua própria perversidade (Hb 13.3). É natural desejarmos minimizar nosso pecado, como se ele não fosse de fato uma grande coisa. Afinal de contas, dizemos a nós mesmos, Deus é misericordioso, não é? Ele compreende nosso pecado e não pode ser tão duro conosco, não é mesmo? Mas raciocinar dessa maneira é deixar-se ludibriar pela astúcia do pecado.
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O pecado, de acordo com as Escrituras, é “a transgressão da lei” (1 Jo 3.4). Em outras palavras, “aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei”. Pecado, portanto, é qualquer falta de conformidade com o perfeito padrão moral de Deus. A exigência central da lei de Deus é que o amemos: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Lc 10.27). Sendo assim, a falta de amor a Deus é a epítome de todo pecado.
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Mas “o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). Nossa aversão natural à lei é tal que mesmo sabendo o que a lei requer, ela suscita em nós uma ânsia pela desobediência. Paulo escreveu: “as paixões pecaminosas postas em realce pela lei… eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás” (Rm 7.5-7). A inclinação do pecador pelo pecado é tal que este o controla. Ele é escravo do pecado, porém o busca com uma fome insaciável e com toda paixão do seu coração.
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John M. Jr.

Domingo, Junho 18, 2006

O Poder de Deus

Não poderemos ter correto conceito de Deus, se não pensarmos Nele como onipotente, igualmente como onisciente. Quem não pode fazer o que quer e não pode realizar o que lhe agrada, não poder ser Deus. Como Deus tem uma vontade para decidir o que julga bom, assim tem poder para executar a Sua vontade. "O poder de Deus é aquela capacidade e força pela qual Ele pode realizar tudo que Lhe agrade, tudo que a Sua sabedoria dirija, tudo que a infinita pureza da Sua vontade resolva. "... como a santidade é a beleza de todos os atributos de Deus, assim o poder é aquilo que dá vida e movimento a todas as perfeições da natureza divina. Como seriam vãos os conselhos eternos, se o poder não interviesse para executá-los! Sem o poder, a Sua misericórdia seria apenas uma débil piedade, as Suas promessas um som vazio, as Suas ameaças mero espantalho. O poder de Deus é como Ele mesmo: infinito, eterno, incompreensível; não pode ser refreado, nem restringido, nem frustrado pela criatura"(S.Charnock).
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"Uma coisa disse Deus, duas vezes a ouvi: que o poder pertence a Deus" (Sl.62:11). "Uma coisa disse Deus", ou segundo a versão autorizada, KJ, 1611, "Uma vez falou Deus": nada mais é necessário! Passarão os céus e a terra, porém a Sua palavra permanece para sempre. "Uma vez falou Deus": como Lhe fica bem a Sua majestade divina! Nós, pobres mortais, podemos falar muitas vezes e, contudo, sem sermos ouvidos, Ele fala somente uma vez, e o trovão do Seus poder é ouvido em mil montanhas. "E o Senhor trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz; e havia saraiva e brasas de fogo. Despediu as suas setas, e os espalhou: multiplicou raios, e os perturbou. Então foram vistas as profundezas das águas, e foram descobertos os fundamentos do mundo; pela tua repreensão, Senhor, ao soprar das tuas narinas" (Sl.18:13-15).
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"Uma vez falou Deus": vede a Sua imutável autoridade, "Pois quem no céu se pode igualar ao Senhor? Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos dos poderosos?" (Sl.89:6). "E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: que fazes?" (Dn.4:35). Esta realidade foi amplamente descortinada quando Deus Se encarnou e tabernaculou entre os homens. Ao leproso ele disse: "... sê limpo. E logo ficou purificado da lepra" (Mt.8:3). A um que jazia no túmulo já fazia quatro dias, ele bradou: "... Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu..."(Jo.11:43-44). Os ventos tempestuosos e as ondas bravias se aquietaram a uma só palavra Dele. Uma legião de demônios não pôde resistir à Sua ordem repassada de autoridade.
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"O poder pertence a Deus", e somente a Ele. Nem uma só criatura, no universo inteiro, tem sequer um átomo de poder, salvo o que é delegado por Deus. Mas o poder de Deus não é adquirido, nem depende do reconhecimento de nenhuma outra autoridade. Pertence a Ele inerentemente. "O poder de Deus é como Ele mesmo, auto-existente, auto-sustentado. O mais poderoso dos homens não pode acrescentar sequer uma sombra de poder ao Onipotente. Ele não se firma sobre nenhum trono reforçado; nem se apoia em nenhum braço ajudador. Sua corte não é mantida por Seus cortesãos, nem toma Ele emprestado das Suas criaturas o Seu esplendor. Ele próprio é a grande fonte central e o originador de toda energia" (C.H.Spurgeon). Toda a criação dá testemunho, não só do grande poder de Deus, mas também da Sua inteira independência de todas as coisas criadas. Ouça o Seu próprio desafio: "Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência. Quem lhe pôs as medida, se tu o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina? (Jó 38:4-6). Quão completamente o orgulho do homem é lançado ao pó!
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"Poder é usado também como um nome de Deus, "... o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu". (Mc.14:62), isto ;e, à destra de Deus. Deus e poder são tão inseparáveis que são recíprocos. Como a Sua essência é imensa, não pode ser confinada a um lugar; como é eterna, não pode ser medida no tempo; assim a Sua essência é todo-poderosa, não sofrendo limite para a ação"(S.Charnock). "Eis que isto não apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder? "(Jó 26:14). Quem é capaz de contar todos os monumento do Seu poder? Mesmo aquilo que é demonstrado do Seu poder na criação visível está inteiramente fora da nossa capacidade de compreensão, e menos ainda podemos conceber da onipotência propriamente dita. Há infinitamente mais poder abrigado na natureza de Deus do que o expresso em todas as Suas obras.
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"Partes dos Seus caminhos" contemplamos na criação, na providência, na redenção, mas apenas uma "pequena parte" do Seu poder se vê nessas obras. Isto nos é exposto extraordinariamente em Habacuque 3:4 "...e ali estava o esconderijo da sua força". Dificilmente se pode imaginas algo mais grandiloqüente do que as figuras deste capítulo todo, no entanto nele nada supera a nobreza desta declaração. O profeta (numa visão) viu o poderoso Deus espalhando os outeiros e abatendo os montes, o que se julgaria espantosa demonstração de força. Nada disso, diz o nosso versículo; isso é mais o ocultamento do que a exibição do seu poder. Que se quer dizer? Isto: é tão inconcebível, tão imenso, tão incontrolável o poder da Deidade, que as terríveis convulsões que Ele opera na natureza escondem mais do revelam do Seu poder infinito!
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É coisa bela juntar as seguintes passagens: "O que só estende os céus, e anda sobre os altos do mar"(Jó 9:8), que expressa o indomável pode de Deus. "... Ele passeia pelo circuito dos céus"(Jó 22:14), que fala da imensidade da sua presença. "...anda sobre as asas do vento" (Sl.104:3), que expressa a espantosa rapidez das Suas operações. Esta ;ultima expressão é deveras notável. Não é que "Ele voa" ou "Corre", mas que Ele "anda", e isso, nas "asas do vento"- sobre o mais impetuoso dos elementos, impelido com o máximo furor, e varrendo tudo com quase inconcebível velocidade, todavia sob os Seus pés, debaixo do Seu controle perfeito!
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Consideremos agora o poder de Deus na criação. "Teus são os céus, e tua é a terra; o mundo e a sua plenitude tu os fundaste. O norte e o sul to os criaste..."(Sl.89:11-12). Antes de poder trabalhar, o homem precisa ter ferramentas e material , mas Deus começou com nada, e só por Sua palavra fez do nada todas as coisas. O intelecto não pode captar isto. Deus "... falou, e tudo se fez, mandou, e logo tudo apareceu"(Sl.33:9). A matéria primeva ouviu a Sua voz. "Disse Deus: Haja... e assim foi"(Gn.1). Bem podemos exclamar: "Tu tens um braço poderoso; forte é a tua mão, e elevada a tua destra"(Sl.89:13).
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Quem, que olha para cima, para o céu da meia-noite e, com os olhos da razão, contempla as suas maravilhas em movimento; quem pode abster-se de indagar: do que foram feitos estes poderosos astros? É espantoso dizê-lo, foram produzidos sem material nenhum. Brotaram do vazio. A majestosa estrutura da natureza universal emergiu do nada. Que instrumentos foram usados pela supremo Arquiteto para modelar as partes com tão refinada elegância e aplicar tão belo polimento ao todo? Como terá sido feita a junção de tudo numa estrutura primorosamente proporcionada e com tão magnífico acabamento? Um puro e simples fiat realizou tudo. Haja estas coisas, disse Deus. Nada acrescentou; e logo o edifício maravilhoso se ergueu, adornado com todo tipo de beleza, pondo à mostra inumeráveis perfeições, e proclamando em meio a extasiados serafins o louvor do Seu grande Criador. "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca"(Sl.33:6)"(James Hervey, 1789).
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Considere o poder de Deus na preservação. Nenhuma criatura tem poder para preservar-se a si mesma. "Porventura sobe o junco sem lodo? Ou cresce a espadana sem água?"(Jó8:11). Tanto o homem como o animal pereceriam, se não houvesse erva para alimento, e a erva murcharia e morreria, se o solo não fosse refrescado com chuvas frutíferas. Portanto, Deus é denominado o Preservador dos "homens e os animais"(Sl.36:6). Ele sustenta "... todas as coisas, pela palavra do seu poder..."(Hb.1:3). Que maravilha de poder divino é a vida pré-natal de todo ser humano! Que uma criança possa sequer viver, e por tantos meses, num alojamento apertado e estranho assim, é inexplicável sem o poder de Deus. Verdadeiramente, Ele "... sustenta com vida a nossa alma..."(Sl.66:9).
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A preservação da terra, guardando-a da violência dos mares é outro claro exemplo do poder de Deus. Como é que aqueles elementos em fúria ficaram encerrados dentro daqueles limites em que primeiro se alojaram, permanecendo em suas baías e canais sem inundar a terra e sem fazer em pedaços a parte baixa da criação? A condição natural da água é ficar acima da terra por ser mais leve, e imediatamente abaixo do ar, por ser mais pesada. Quem põe restrições à qualidade natural da água? O homem certamente que não, e não tem poderes para tanto. É unicamente o fiat do Criador da água que a refreia. "E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrarão as tuas ondas empoladas"(Jó38:11). Que altaneiro monumento ao poder de Deus é a preservação do mundo!
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Considere o poder de Deus no governo. Tome-se a restrição que Ele impõe à ruindade de satanás. "... o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar"(IPe.5:8). Satanás está cheio de ódio a Deus, e de diabólica inimizade contra os homens, particularmente contra os santos. Aquele que invejou a Adão no paraíso, não quer que sintamos o prazer de usufruirmos nenhuma das bênçãos de Deus. Se ele pudesse fazer o que deseja, trataria todos os homens como tratou Jó: enviaria fogo do céu sobre os frutos da terra, destruindo o gado, faria vendavais derribarem nossas casas, e cobriria de chagas os nossos corpos. Mas, embora mal percebido pelos homens, Deus refreia em grande media, impedindo-o de levar a cabo os seus maus desígnios, e lhe impõe limites destro de Suas ordenações.
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Assim também Deus restringe a corrupção natural dos homens. Ele suporta suficientes erupções do pecado para mostrar que terríveis estragos têm sido causados pela apostasia do homem, que rompeu com o seu Criados, mas quem pode conceber a que medonho extremo os homens iriam se Deus retirasse a Sua mão repressora? A boca dos ímpios "... está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue"(Rm.3:14-15). Esta é a natureza de cada um dos descendentes de Adão. Então, que desenfreada licenciosidade e obstinada loucura triunfariam no mundo, se o poder de Deus não se interpusesse para fechar as comportas do mal! Ver Salmos 93:3-4.
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Considere o poder de Deus no juízo. Quando ele fere, ninguém Lhe pode resistir: ver Ezequiel 22:14. Quão terrivelmente isso foi exemplificado no Dilúvio! Deus abriu as janelas do céu e rompeu as grandes fontes do abismo, e (excetuando-se os que estavam na arca) a raça humana inteira, impotente diante do furor da sua iram foi tragada. Uma chuva de fogo e enxofre caiu do céu, e as cidades da planície foram exterminadas. O faraó e todos os seus exércitos nada puderam, quando Deus soprou sobre ele no Mar Vermelho. Que palavra terrificante, a de Romanos 9:22: "E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição". Deus manifestará o Seu tremendo poder sobre os reprovados, não apenas encarcerando-os na Geena, mas preservando sobrenaturalmente os seus corpos como também as suas almas em meio às chamas eternas do Lago de Fogo.
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Bem que deveriam tremer todos, diante de um Deus tal! Tratar desconsideradamente Aquele que pode esmagar-nos mais facilmente do nós a uma traça, é suicídio. Desafiar abertamente Aquele que está revestido de onipotência, que pode rasgar-nos em pedaços ou lançar-nos no inferno na hora que quiser, é o cúmulo da insanidade. Para reduzi-lo ao seu plano mínimo, é simplesmente parte da sabedoria dar ouvidos à sua ordem: "Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se inflamar a sua ira..."(Sl.2:12).
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Bem que a alma iluminada deve adorar a um Deus tal! As estupendas e infinitas perfeições de um Ser como Deus requer fervoroso culto. Se homens de poder e renome reclamam a admiração do mundo, quanto mais deve o poder do Onipotente encher-nos de assombro e mover-nos a prestar-lhe homenagem. "Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em louvores, obrando maravilhas?"(Ex.15:11).
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Bem que o santo pode confiar num Deus tal! Ele é digno de implícita confiança. Nada Lhe é demasiado difícil. Se Deus fosse limitado em poder e força, aí sim, poderíamos ficar desesperados. Mas vendo que Ele Se reveste de onipotência, nenhuma oração é tão difícil que Ele não possa responder, nenhuma necessidade é tão grande que Ele não possa suprir, nenhuma cólera é tão forte que Ele não posse subjugar, nenhuma tentação é tão poderosa que ele não nos possa livrar dela, nenhuma miséria é tão profunda que Ele não possa aliviar. "... o Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?(Sl.27:1). "Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém"(Ef.3:20-21).
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W. Pink

Terça-feira, Junho 13, 2006

Da Eternidade de Deus

Tomás de Aquino
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Em seguida devemos tratar da eternidade.
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E nesta questão discutem-se seis artigos:
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1. O que é a eternidade;
2. Se Deus é eterno;
3. Se ser eterno é próprio de Deus;
4. Se a eternidade difere do tempo;
5. Se a eternidade difere do evo e do tempo;
6. Se há só um evo, como há só um tempo e uma só eternidade.
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ART. I –– SE É BOA A SEGUINTE DEFINIÇÃO DA ETERNIDADE: A POSSE TOTAL, SIMULTÂNEA E PERFEITA DE UMA VIDA INTERMINÁVEL.
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(I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 1; De Causis, lect. II).
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O primeiro discute-se assim. -- Parece que não é boa a definição de eternidade, que dá Boécio: a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável [1].
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1. –– Pois, "interminável" é um conceito negativo. Ora, a negação é própria à noção de deficiência, que não convém à eternidade. Logo, na definição desta não deve entrar a palavra interminável.
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2. Demais. –– A eternidade implica uma espécie de duração. Ora, estaé própria, mais do ser, que da vida. Logo, a palavra vida não se devia incluir na noção de eternidade, mas, antes a de ser.
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3. Demais. –– Chama-se totalidade o que tem partes. Ora, isto não pode convir à eternidade, que é simples. Logo, é mal aplicada na definição a palavra total.
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4. Demais. –– Nem vários dias, nem vários tempos podem existir simultaneamente. Ora, na eternidade distinguem-se muitos dias e tempos, pois diz a Escritura (Mq 5, 2): Cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade; e (Rm 16, 25): segundo a revelação do mistério encoberto desde tempos eternos. Logo, a eternidade não é total e simultânea.
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5. Demais. –– “Todo” é idêntico a “perfeito”. Ora, se já se incluiu na definição a palavra total, é inútil acrescentar perfeita.
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6. Demais. –– A posse não é própria da duração. Ora, a eternidade é uma duração. Logo, não é posse.
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SOLUÇÃO. –– Assim como devemos partir do simples para chegar ao conhecimento do composto, assim devemos partir do tempo para chegar ao conhecimento da eternidade. Ora, o tempo não é senão o número das partes do movimento, por anterioridade e posteridade. Pois, como em qualquer movimento, a uma parte sucede outra, pela enumeração das diversas partes, anteriores e posteriores, apreendemos o tempo, que não é senão o número do que é anterior e posterior, no movimento. Mas, onde não há movimento, mas, sempre o mesmo modo de existir, não se pode descobrir anterioridade e posteridade. Por onde, assim como a essência do tempo consiste na enumeração do que é anterior e posterior no movimento, assim, a da eternidade, consiste na apreensão da uniformidade do que está absolutamente fora do movimento. –– Demais. Consideram-se medidas pelo tempo as coisas que nele têm princípio e fim, como diz Aristóteles [2]; e isto, porque tudo o que é movido inclui um princípio e um fim. Logo
, o que é absolutamente imutável, não tendo sucessão, também não pode ter princípio nem fim. –– Assim, pois, por duas características se conhece a eternidade: o que nela está é interminável, isto é, não tem princípio nem fim, duas noções que implica o termo, e em segundo lugar, justamente por não ter sucessão, a eternidade existe total e simultaneamente.
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DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –– Costuma-se definir o que é simples, por negação; assim, ponto é o que não tem parte; mas isto não quer dizer, que a negação seja a essência de tais seres, senão que o nosso intelecto, apreendendo primeiro o composto, só pode chegar ao conhecimento do simples, removendo a composição.
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RESPOSTA À SEGUNDA. –– O que é verdadeiramente eterno não só é ser, como também vivente; e a vida se estende, de certo modo, até à operação, mas não ao ser. Ora, a extensão da duração parece que deve ser considerada relativamente à operação, antes que relativamente ao ser; e, por isso, o tempo é o número do movimento.
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RESPOSTA À TERCEIRA. –– Diz a definição, que a eternidade é total, não por ter partes, mas, porque nada lhe falta.
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RESPOSTA À QUARTA. –– Assim como a Deus, embora incorpóreo, a Escritura aplica, metaforicamente, nomes de coisas corpóreas, assim também à eternidade, que existe total e simultaneamente, aplica a denominação própria do que é sucessivo no tempo.
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RESPOSTA À QUINTA. –– O tempo pode ser considerado, em si mesmo, como sucessivo, ou em um dos seus momentos, que é imperfeito. Ora, a definição diz –– total e simultaneamente –– para excluir o tempo; e, perfeita, para excluir o momento temporal.
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RESPOSTA À SEXTA. –– O que é possuído o é firme e tranqüilamente; e, por isso, para designar a imutabilidade e a indeficiência da eternidade a definição empregou a palavra posse.
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ART. II -- SE DEUS É ETERNO.
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(I Sent., dist. XIX, q. 2, art. 1; I Cont. Gent., cap. XV; De Pot., q. 3, a. 17, ad 23;
Compend Theol., cap. V, VIII).

O segundo discute-se assim. –– Parece que Deus não é eterno.
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1. -- Pois, nada do que lhe é feito lhe pode ser atribuído. Ora, a eternidade é feita, conforme a expressão de Boécio: O momento que passa constitui o tempo; o que permanece, a eternidade [3]; e Agostinho : Deus é o autor da eternidade. Logo, Deus não é eterno [4].
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2. Demais. –– O anterior e o posterior à eternidade por ela não se mede. Ora, Deus é anterior, como diz o livro De Causis; e posterior, conforme a Escritura (Ex 15, 18): O Senhor reinará eternamente e além da eternidade. Logo, ser eterno não é próprio de Deus.
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3. Demais. –– A eternidade é uma espécie de medida. Ora, a Deus não convém ser medido. Logo, nem ser eterno.
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4. Demais. –– A eternidade não tem presente, pretérito, nem futuro, porque existe total e simultaneamente, como se disse (a. 1). Ora, a Escritura aplica a Deus palavras que exprimem os tempos presente, pretérito e futuro. Logo, Deus não é eterno.
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Mas, em contrário, diz Atanásio: Eterno Padre, Eterno Filho, Eterno Espírito Santo. [5]
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SOLUÇÃO. –– A noção da eternidade resulta da imutabilidade, como a de tempo resulta do movimento, conforme do sobredito resulta (a. 1). Ora, sendo Deus o ser imutável por excelência, convém-lhe, excelentemente, a eternidade. Nem só é eterno, mas é a sua eternidade, ao passo que nenhuma coisa é a própria duração, porque não é o próprio ser. Deus, porém, sendo o seu ser uniformemente e a sua própria essência, há de, necessariamente, ser a sua eternidade.
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DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –– Pela nossa apreensão é que se diz que o momento permanente constitui a eternidade. Pois, assim, como a nossa apreensão do tempo tem a sua causa no apreendermos o fluxo mesmo do momento, assim procede em nós a apreensão da eternidade, de apreendermos o momento permanente. E a expressão de Agostinho –– Deus é o autor da eternidade –– entende-se da eternidade participada. Pois, Deus comunica a sua eternidade a certos seres, do mesmo modo por que comunica a sua imutabilidade.
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E daqui se deduz clara a resposta à SEGUNDA OBJEÇÃO. –– Pois, diz-se que Deus é anterior à eternidade, enquanto participado pelas substâncias materiais; e, por isso, o mesmo livro diz, que a inteligência se alça ao nível da eternidade. E na expressão do Êxodo: o Senhor reinará eternamente e além da eternidade –– eternamente é empregado no sentido de século, como se lê em outra versão. Assim, pois, diz-se que reinará além da eternidade, porque dura mais que qualquer século, i. é, além de qualquer duração dada; pois, século não é mais que o período de um ser, como diz Aristóteles [6]. Ou ainda, diz-se que reina além da eternidade, porque, se alguma coisa existisse sempre, como o movimento do céu, segundo certos filósofos, ainda Deus reinaria mais, porque o seu reino existe total e simultaneamente.
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RESPOSTA À TERCEIRA. –– A eternidade não é outra coisa senão Deus. Por onde, diz-se que Deus é eterno, não porque seja, de certo modo, medido; pois, a noção de medida emprega-se aí só para auxiliar nossa apreensão.
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RESPOSTA À QUARTA. –– As palavras que designam os diversos tempos atribuem-se a Deus, porque a sua eternidade os inclui a todos; não, porém, que ele encerre qualquer variação, que se desenvolva no presente, no pretérito e no futuro.
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ART. III -- SE SER ETERNO É PRÓPRIO SÓ DE DEUS.
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(I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 2; IV, dist. XLIX, q. 1, a. 2, qa 3; Quodl., X, q. 2; De Div. Nom., cap.X, lect. III; De Causis, lect. II).
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O terceiro discute-se assim. -- Parece que ser eterno não é próprio de Deus.
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1. –– Pois, diz a Escritura (Dn 12, 3): E os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça, esses luzirão como as estrelas por todas as eternidades. Ora, não haveria várias eternidades se só Deus fosse eterno. Logo, nem só ele o é.
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2. Demais. –– Diz ainda a Escritura (Mt 25, 41): Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. Logo, nem só Deus é eterno.
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3. Demais. –– Todo necessário é eterno. Ora, há muitas coisas necessárias, como p. ex., todas as proposições demonstrativas. Logo, nem só Deus é eterno.
Mas, em contrário, diz Jerônimo a Dámaso: Só Deus não tem princípio [7]. Ora, tudo o que tem princípio não é eterno. Logo, só Deusé eterno.
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SOLUÇÃO. –– A eternidade, verdadeira e propriamente, só a Deus convém; pois resulta da imutabilidade, como já vimos (a. 1), e só Deus é absolutamente imutável, segundo estabelecemos (q. 9 a. 2). E, na medida em que os seres dele recebem a imutabilidade, nessa mesma lhe participam da eternidade. Ora, há certos seres que recebem de Deus a imutabilidade, de modo tal que nunca mais deixam de existir; e, neste sentido, a Escritura (Ecl 1, 4) diz que a terra permanece sempre firme. Há outros seres que, na Escritura, também se denominam eternos, por durarem diuturnamente, embora sejam corruptíveis; assim os montes chamam-se eternos (Sl 45, 5) e fala-se dos frutos eternos (Dt 33, 15). Mas, há ainda outros seres, que mais amplamente participam da eternidade, por terem o ser incorruptível ou mesmo, além disso, imutável a operação, como os anjos e os bem-aventurados, que gozam do Verbo; pois, quanto à visão do Verbo, não são mutáveis as cogitações dos santos, conforme diz Agostinho8. Por isso se diz que os que vêem a Deus possuem a vida eterna, segundo a Escritura (Jo 17, 3): A vida eterna porém consiste em que eles te conheçam por um só verdadeiro Deus, etc.
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DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –– Consideram-se muitas as eternidades, por serem muitos os que dela participam, contemplando a Deus.
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RESPOSTA À SEGUNDA. –– O fogo do inferno chama-se eterno, só por ser interminável. Há, porém, mudança nas penas dos condenados, como se vê na Escritura (Jó 24, 19): Ele passa das águas da neve para um excessivo calor. Por onde, no inferno não há verdadeira eternidade, mas antes, tempo, conforme a mesma Escritura (Sl 80, 16): E durará o tempo deles por todos os séculos.
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RESPOSTA À TERCEIRA. –– Necessário significa um certo modo de ser da verdade, pois esta, segundo o Filósofo [9], está no intelecto. O verdadeiro e o necessário são, assim, eternos por existirem num intelecto eterno, que é só o divino. Donde não se segue, que alguma coisa, fora de Deus, seja eterna.
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ART. IV. -- SE A ETERNIDADE DIFERE DO TEMPO.
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(Infra, a. 5; I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 2; dist. XIX, q. 2, a. 1; De Pot., q. 3, a. 14,
ad 10, 18; De Div. Nom., cap. X, lect. III)
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O quarto discute-se assim. –– Parece que a eternidade não difere do tempo.
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1. –– Pois, é impossível existirem duas medidas simultâneas de duração, se uma for parte da outra; assim, não podem existir simultaneamente dois dias ou duas horas, ao passo que a hora e o dia são simultâneos porque aquela faz parte deste. Ora, a eternidade e o tempo existem simultaneamente e ambos implicam uma certa medida da duração. Logo, a eternidade, não sendo parte do tempo, porque o excede e o inclui, resulta que este é parte daquela e dela não difere.
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2. Demais. –– Segundo o Filósofo [10], o momento temporal permanece idêntico a si mesmo na totalidade do tempo. Ora, isto mesmo é o que constitui a essência da eternidade, a saber, permanecer indivisivelmente idêntica a si mesma em todo decurso do tempo. Logo, a eternidade é um momento temporal. Ora, este não difere essencialmente do tempo. Logo, deste não difere substancialmente a eternidade.
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3. Demais. –– Assim como a medida do primeiro movimento é a medida de todos os outros, segundo Aristóteles [11], assim também a medida do primeiro ente há-de ser a de todos os demais. Ora, a eternidade mede o ser primeiro, que é o divino. Logo, mede todos os demais seres. E como o ser das coisas corruptíveis é medido pelo tempo, este ou é a eternidade ou parte dela.
Mas, em contrário, a eternidade existe toda simultaneamente. Ora, no tempo há anterioridade e posterioridade. Logo, não se identificam.
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SOLUÇÃO. –– É claro que o tempo não se identifica com a eternidade. A razão da diversidade deles, porém, alguns a descobriram em a eternidade não ter princípio nem fim e o tempo tê-los. Mas, esta diferença é acidental e não essencial, porque, dado que o tempo sempre existiu e sempre existirá, permanece ainda, admitindo-se a opinião dos que consideram sempiterno o movimento do céu, uma diferença entre a eternidade e o tempo, como diz Boécio [12]. Essa consiste em ser a eternidade a medida do permanente e o tempo, a do movimento; pois, a primeira existe toda simultaneamente e o tempo, não. Se, porém, considerarmos a diferença referida, relativamente ao medido, e não às medidas, então a doutrina em questão tem certo fundamento. Pois, só é medido pelo tempo o que tem princípio e fim temporais, como diz Aristóteles [13]. Por onde, se o movimento do céu durasse sempre, o tempo não o mediria na totalidade da sua duração, porque o infinito não é mensurável; medir- lhe-ia, porém, os círculos, que têm princípio e fim temporais. Podemos ainda descobrir outro fundamento na opinião que discutimos, relativamente às medidas mesmas, se considerarmos o fim e o princípio, potencialmente. Pois, mesmo dado que o tempo dure sempre, ainda assim seria possível descobrir nele princípio e fim, considerando-lhe as partes, no sentido em que falamos do princípio e do fim do dia ou do ano. Ora, isto não pode convir à eternidade, embora tais diferenças resultem da diferença primária e essencial, a saber, que a eternidade existe toda simultaneamente, e o tempo, não.
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DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –– A objeção procederia se o tempo e a eternidade fossem medidas do mesmo gênero; o que, evidentemente é falso, dadas as naturezas daquele e desta.
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RESPOSTA À SEGUNDA. –– O momento temporal constitui um mesmo sujeito, em todo o decurso do tempo, mas não na concepção racional. Pois, assim como o tempo corresponde ao movimento, assim o momento temporal, ao móvel. Ora, este é um mesmo sujeito em todo decurso do tempo, mas muda na concepção racional, segundo está aqui ou acolá. E essa alternação constitui o movimento, do mesmo modo que o fluxo do momento, enquanto alternado racionalmente, constitui o tempo. A eternidade, ao contrário, permanece a mesma quanto ao sujeito e quanto à nossa concepção. Logo, não se identifica com o momento temporal.
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RESPOSTA À TERCEIRA. –– Assim como a eternidade é a medida do ser em si mesmo, assim o tempo é a medida própria do movimento. Por onde, na medida em que um ser se afasta da existência permanente e sujeita-se à mudança, nessa mesma se afasta da eternidade e se sujeita ao tempo. Logo, o ser das coisas corruptíveis, sendo mutável, não é medido pela eternidade, mas, pelo tempo. Pois, este mede não só o que atualmente muda, mas também o que é suscetível de mudança e, portanto, mede, não só o movimento, mas também o repouso, próprio ao ser ao qual o movimento é natural embora não seja atualmente movido.
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ART. V –– SE O EVO DIFERE DO TEMPO.
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(I Sent., dist. VIII, q. 2, a. 2; dist. XIX, q. 2, a. 1; II, dist. 2, q. 1, a 1;
De Pot., q. 3, a. 14, ad 18; Quodl., X, q. 2).
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O quinto discute-se assim. -- Parece que o evo não difere do tempo.
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1. –– Pois, diz Agostinho, que Deus move as criaturas espirituais no tempo [14]. Ora, entende-se por evo a medida das substâncias espirituais. Logo, o tempo não difere do evo.
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2. Demais. –– É da essência do tempo ter anterioridade e posterioridade, ao passo que a eternidade, por essência, existe toda simultaneamente, como já dissemos (a. 1). Ora, o evo não é a eternidade, pois diz a Escritura (Ecle 1, 1), que a sabedoria eterna é anterior ao evo. Logo, este não existe todo simultaneamente mas tem anterioridade e, portanto, é tempo.
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3. Demais. –– Se no evo não há anterioridade e posterioridade, segue-se que nos seres eviternos não há diferença entre ser, ter sido, ou haver de ser. Ora, como é impossível tais seres não tenham existido, segue-se que é impossível não hajam de ser, o que é falso, porque Deus pode reduzi-los a nada.
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4. Demais. –– A duração dos seres eviternos sendo infinita, na sua continuidade, se o evo existe total e simultaneamente, segue-se que há seres criados atualmente infinitos, o que é impossível. Logo, o evo não difere do tempo.
Mas, em contrário, diz Boécio: Tu que fazes sair o tempo, do evo [15].
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SOLUÇÃO. –– O evo difere do tempo e da eternidade, sendo o termo médio entre ambos.
Esta diferença, porém, uns a descobrem em que a eternidade não tem princípio nem fim; o evo tem princípio, mas não tem fim; e o tempo tem princípio e fim. –– Mas esta diferença é acidental, como já dissemos, pois mesmo que os seres eviternos tivessem existido sempre e sempre houvessem de existir; e mesmo que viessem a deixar de existir um dia, o que Deus poderia fazer, mesmo assim, o evo se distinguiria da eternidade e do tempo.
Outros, porém, descobrem a diferença em que a eternidade não tem antes nem depois; o tempo tem antes e depois, implicando inovação e antiguidade; e o evo tem antes e depois, mas, sem renovação e antiguidade. –– Mas, esta opinião implica contradição, que manifestamente ressalta, se a renovação e a antiguidade se referiremà medida mesma. Pois, não podendo ser simultâneos o anterior e o posterior da duração, se o evo tem antes e depois, é necessário que, desaparecendo uma parte anterior, sobrevenha, como renovamento, a que lhe sucede; e, desde logo, haveria no evo renovação, como no tempo. Se, porém, se referirem às coisas medidas, também daí resultam inconvenientes. Pois, as coisas temporais envelhecem no tempo, porque têm o ser transmutável; e é dessa transmutabilidade que resultam o antes e o depois do tempo, como se vê em Aristóteles [16]. Se, portanto, o sujeito de eviternidade não envelhece nem se renova temporalmente, é porque tem o ser intransmutável. Logo, a sua medida não tem antes nem depois.
Devemos, portanto, admitir que, sendo a eternidade a medida do ser permanente, na medida em que uma criatura se afasta da permanência do ser, nessa mesma se afasta da eternidade. Ora, certas se afastam de modo tal, que o ser delas está sujeito à transmutação ou nesta consiste. Outras, porém, afastam-se menos, porque o ser delas nem consiste na transmutação, nem está sujeito a esta; contudo tem a transmutação adjunta, atual ou potencialmente. E isto bem se vê nos corpos celestes cujo ser substancial é intransmutável mas tem adjunto o movimento local. O mesmo se dá com os anjos, que têm o ser intransmutável, mas variável quanto à eleição, na medida em que isso lhes pertence à natureza; e variável, ainda, pelos pensamentos, pelos afetos, e a seu modo, localmente. Por isso medem-se pelo evo, meio termo entre a eternidade e o tempo. Ora, o ser que se mede pela eternidade, nem é mutável, nem admite nenhuma espécie de mudança; assim pois, no tempo, há antes e depois; no evo, não há, mas pode vir conjuntamente com eles; a eternidade não os tem, nem com eles é compatível.
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DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –– As criaturas espirituais, quanto aos afetos e pensamentos, em que há sucessão, medem-se pelo tempo; e, por isso, diz Agostinho [17], que ser movido no tempo é ser movido quanto aos afetos. Quanto ao ser natural, porém, elas são medidas pelo evo. E, por fim, quanto à visão da glória, participam da eternidade.
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RESPOSTA À SEGUNDA. –– O evo existe todo e simultaneamente; não é porém a eternidade, porque em si comporta antes e depois.
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RESPOSTA À TERCEIRA. –– No ser do anjo em si mesmo considerado, não há diferença do pretérito e futuro, senão só por mutações adjuntas. Mas, quando dizemos que o anjo é, foi ou há-de ser, isso implica diferença na acepção do nosso intelecto, que compreende o ser angélico por comparação com as diversas partes do tempo. E quando o nosso intelecto diz, que o anjo é ou foi, supõe algo de incompatível com a suposição contrária, mesmo para o poder divino; e quando diz que será, não faz ainda tal suposição. Ora, o ser e o não-ser do anjo, dependendo do poder divino, Deus pode, absolutamente falando, fazer com que o ser dele não venha a existir; não pode, porém, fazer que não exista, existindo; ou que não seja, depois que foi.
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RESPOSTA À QUARTA. –– A duração do evo é infinita, porque não tem limites no tempo. Por onde, não é inconveniente existir uma criatura infinita, por não ser limitada por nenhuma outra.
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ART. VI –– SE HÁ SÓ UM EVO.
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(II Sent., dist. II, q. 1, a. 2; Quodl., V, q. 4; Opusc. XXXVI, De Instant., cap. III).
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O sexto discute-se assim. –– Parece que não há um só evo.
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1. –– Pois, diz o livro apócrifo de Esdras (III, IV, 40): a majestade e o poder dos evos está em ti, Senhor.
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2. Demais. –– Gêneros diversos têm medidas diversas. Ora, certos seres eviternos –– os corpos celestes –– pertencem ao gênero das coisas corpóreas; outros, porém –– os anjos –– são substâncias espirituais. Logo, não há um só evo.
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3. Demais. –– Designando o evo a duração, os seres que têm o mesmo evo têm a mesma duração. Ora, nem todos os seres eviternos têm a mesma duração, porque uns começam a existir depois de outros, bem o demonstram as almas humanas. Logo, não há um só evo.
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4. Demais. –– Seres que não dependem uns dos outros não têm a mesma medida de duração; por isso é que todas as coisas temporais são medidas pelo mesmo tempo, porque a causa de todos os movimentos é, de certo modo, o primeiro movimento, medido pelo primeiro tempo. Ora, os seres eviternos não dependem uns dos outros. Logo, não há um só evo.
Mas, em contrário. –– O evo é mais simples que o tempo e mais se aproxima da eternidade. Ora, o tempo é um só. Logo, com maior razão, o evo.
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SOLUÇÃO. –– Sobre este assunto houve duas opiniões. Uns dizem que o evo é um só e outros, que muitos. Para sabermos qual delas é a mais verdadeira, devemos considerar a causa da unidade do tempo, pois pelo conhecimento do corporal, chegamos ao do espiritual.
Assim, uns dizem que há um só tempo para todos os seres corpóreos, porque só há um número para todas as coisas numeradas; pois, o tempo é número, segundo o Filósofo [18]. Mas, isto não basta, porque o tempo não é um número separado da coisa numerada, mas, nesta existente; do contrário, não seria contínuo, pois a continuidade de dez braças de pano, por exemplo, não está em um número, mas no pano numerado. Ora, o número existente nos numerados não é o mesmo para todos, mas cada um tem o seu.
Por isso, outros querem ver a causa da unidade do tempo na unidade da eternidade, princípio de toda duração. De modo que todas as durações se reduzem a uma, se lhes considerarmos o princípio; são muitas, pelo contrário, se considerarmos a diversidade dos seres que recebem a duração do influxo do primeiro princípio. –– Outros, por fim, descobrem a causa da unidade do tempo na matéria prima, sujeito primeiro do movimento, cuja medida é o tempo. Ora, nenhuma destas duas opiniões pode ser considerada suficiente, porque seres que se unificam em virtude de um princípio, ou pelo sujeito, sobretudo remoto, não têm unidade, pura e simplesmente, mas sobre certo ponto de vista.
Por onde, a verdadeira razão da unidade do tempo é a unidade do primeiro movimento, pelo qual, sendo simplicíssimo, todos os demais são medidos, como diz Aristóteles [19]. Assim, pois, o tempo está para esse movimento, não só como a medida, para o medido, mas também como o acidente, para o sujeito e, portanto, dele recebe a unidade; ao passo que está para os outros movimentos somente como medida, para o que é medido; e nem se multiplica com a multidão deles, porque uma medida distinta pode medir muitas coisas.
Isto posto, devemos saber que houve dupla opinião a respeito das substâncias espirituais. Assim, uns diziam que todas ou, pelo menos, muitas, no sentir de outros, procederam de Deus em uma quase igualdade, como ensina Orígenes [20]. Outros, porém, diziam que todas as substâncias procederam de Deus num certo grau e numa certa ordem; este foi o sentir de Dionísio [21] que diz haver, entre as substâncias espirituais e ainda, numa mesma ordem de anjos, primeiras, médias e últimas. Ora, pela primeira opinião, é necessário admitirem-se vários evos correlativos aos vários seres eviternos primeiros e iguais. Pela segunda, é necessário admitir-se um só evo, porque, medindo-se cada ser pelo que é mais simples no seu gênero, como diz Aristóteles [22], o ser de todas as criaturas coeternas há-de forçosamente ser medido pelo que o é primariamente, tanto mais simples quanto mais elevado for. Ora, sendo esta opinião mais verdadeira, como a seguir se demonstrará, concedemos, no caso presente, que há um só evo.
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DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –– Evo é às vezes tomado por século, período de duração de um ser; e, então consideram-se os evos muitos, como os séculos.
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RESPOSTA À SEGUNDA. –– Embora os corpos celestes e os espirituais difiram pelo gênero da natureza, têm, contudo, de comum, o serem intransmutáveis, e, por isso, medem-se pelo evo.
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RESPOSTA À TERCEIRA. –– Embora os seres temporais não comecem todos simultaneamente, contudo, todos estão no mesmo tempo, por causa do movimento primeiro medido pelo tempo. E, assim, todos os seres eviternos têm um mesmo evo, em virtude do primeiro dentre eles, embora nem todos comecem simultaneamente.
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RESPOSTA À QUARTA. –– Para que várias coisas tenham a mesma medida, não é necessário que esta seja a causa de todas aquelas, mas, que seja mais simples que elas.
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NOTAS:
1 V De consol., pros. VI.2 IV Physic., lect. XX.3 de Trin., cap. IV. 4 lib. LXXXIII Quaestionum, q. XXIII. 5 In symb. 6 In lib. I De caelo (lect. XXI)7 In. Ep. XV 8 XV De Trinitate, c. XVI. 9 VI Metaphys., lect. IV. 10 IV Phys., lect. XVIII. 11 IV Phys., lect. XXIII.12 De consolat., lib. V, prosa VI. 13 IV Phys., lect. XX. 14 VIII Super Gen. ad litt., cap. XX.15 lib. III De consol., metro IX. 16 IV Phys., lect. XIX. 17 VIII Super Gen. ad litt., cap. XX.18 lib. IV Physic., lect. XVII. 19 X Metaphys., lect. II. 20 lib. I Periarchon, cap. VIII. 21 Cael. hier., c. X. 22 X Met., lect. II.

A Soberania de Deus

Tem-se ressaltado com freqüência que o requisito fundamental na exposição da Palavra de Deus é a necessidade de preservar o equilíbrio da Verdade. Com isto concordamos de coração. Duas coisas são indisputáveis: Deus é soberano, o homem é responsável. Neste Artigo procuramos demonstrar a primeira dessas verdades; em outras obras temos insistido na segunda. Que existe o perigo de salientar indevidamente uma delas, e de negligenciar a outra, reconhecemos sem hesitação; e a História nos oferece numerosos exemplos de ambos os casos. Ressaltar a soberania de Deus, sem acentuar, ao mesmo tempo, que a criatura é responsável, tende ao fatalismo; preocupar-se tanto em manter a responsabilidade do homem, ao ponto de perder de vista a soberania de Deus, é exaltar a criatura e rebaixar o Criador.
Quase todos os erros de doutrina são, na realidade, a Verdade pervertida, a Verdade mal distribuída, mal ensinada. O mais lindo rosto da terra, o mais encantador semblante, logo ficaria feio e de aparência desagradável, se um membro continuasse a crescer, e os demais não se desenvolvessem. A beleza é, primariamente, uma questão de proporções. Assim acontece com a Palavra de Deus: sua beleza e bem-aventurança se percebem melhor quando a multiplicidade da sua sabedoria é exibida em suas verdadeiras proporções. É nesse ponto que tantos fracassaram no passado. Determinada fase da Verdade de Deus tem impressionado uma pessoa ou outra de tal maneira que nela lhe concentrou toda a atenção, ficando excluídos todos os outros interesses. Esta ou aquela porção da Palavra de Deus se tem transformado em “doutrina predileta”, e, não raro, se tornou o distintivo de alguma corrente específica. Mas, o dever de cada servo de Deus é “anunciar todo o desígnio de Deus” (Atos 20:27).
É verdade que nos dias degenerados em que vivemos, quando de todos os lados se promove a exaltação do homem, e quando “super-homem” veio a ser expressão comum, há
verdadeira necessidade de se dar ênfase ao fato glorioso da supremacia de Deus. Esse é tanto mais o caso quando está sendo mais expressamente negada essa supremacia. Mesmo em tal circunstância, porém, precisamos de muita sabedoria, para que não demonstremos um zelo “não segundo o entendimento”. As palavras, “o alimento no devido tempo”, devem estar sempre presentes no espírito do servo de Deus. A necessidade primária de uma congregação não pode ser a necessidade específica de outra. Se alguém é chamado para servir onde tem havido pregadores arminianos, a verdade negligenciada da soberania de Deus deve ser exposta - porém, com cuidado e cautela, para não se dar excesso de “alimento sólido” para as . “crianças”. É necessário ter em mente o exemplo de Jesus Cristo; conforme se lê em João 16:12: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Por outro lado, se eu for incumbido de orientar um estudante nitidamente calvinista, então a verdade da responsabilidade humana (nos seus muitos aspectos) pode ser acentuada com proveito . O que o pregador precisa anunciar não B aquilo que suas ovelhas mais gostam de ouvir, e, sim, aquilo que mais falta lhe faz, isto é, os aspectos da verdade que lhe são menos familiares, ou que menos se evidenciam em seu viver.
Por em prática o que acima ensinamos provavelmente exporá o pregador à acusação de ser um vira-casaca. Mas, que importa, contanto que tenha a aprovação do seu Mestre? Não se lhe exige que seja “coerente” consigo mesmo, nem quaisquer regras elaboradas pelos homens; seu dever é ser “coerente” com as Escrituras Sagradas. E, nas Escrituras, cada faceta da verdade é contrabalançada por algum outro aspecto da verdade. Há dois lados em tudo, até no caráter de Deus, pois ele é “luz” (I João 1:5), mas também é “amor” (I João 4:8). E, por essa razão, somos exortados a “considerar a bondade e a severidade de Deus” (Romanos 11:22). Pregar sempre um lado e excluir o outro B moldar uma caricatura do caráter divino.
Quando o Filho de Deus se encarnou, assumiu no mundo a “forma de servo” (Filipenses 2:6); mesmo assim, entretanto, na manjedoura era “Cristo, o Senhor” (Lucas 2:1 I)! Dizem as Escrituras: “Levai as cargas uns dos outros” (Gálatas 6:2), mas o mesmo capítulo insiste: “... cada um levará o seu próprio fardo” (Gálatas 6:6). Prescreve-se-nos que não nos devemos inquietar com o dia de amanhã (Mateus 6:34), porém, “se alguém não tem cuidado dos seus, e especialmente dos da sua própria casa, tem negado a fé, e é pior do que o descrente” (I Timóteo 5 :8). Nenhuma ovelha do rebanho de Cristo pode perecer (João 10:28, 29), mas a ordem dada aos crentes, determina: “confirmai a vossa vocação e eleição” (II Pedro 1:10). E assim poderíamos continuar, multiplicando as ilustrações. Essas coisas não são contradições, pois elas se complementam mutuamente: uma contrabalança a outra. Assim sendo, as Escrituras demonstram tanto a soberania de Deus como a responsabilidade do homem.
Nesta obra, porém, é com a soberania de Deus que nos preocupamos, e, reconhecendo de bom grado o fato da responsabilidade do homem, não nos vamos deter a cada página para insistir nesse ponto; ao contrário, temos procurado ressaltar aquele aspecto da verdade que nestes dias está sendo quase universalmente negligenciado. Talvez 95 por cento da literatura religiosa dos nossos dias se dediquem a demonstrar os deveres e as obrigações dos homens. O fato, entretanto, é que os autores que tomam sobre si expor a responsabilidade humana são aqueles que perderam o “equilíbrio da Verdade”, por negligenciarem, em grande medida, a soberania de Deus. É absolutamente certo alguém insistir na responsabilidade do homem. Que dizer, porém, sobre Deus? Não tem Ele reivindicações e nem direitos? Necessária seria uma centena de livros como este, e dez mil sermões precisariam ser pregados pelo país inteiro, sobre este assunto, para atingir-se o equilíbrio da verdade. Perdeu-se tal equilíbrio, e essa perda se deve à ênfase, que vai além das proporções, dada ao lado humano, ao ponto de apequenar-se, senão mesmo de excluir, o lado divino. Reconhecemos que este livro é unilateral, porque se propõe a tratar de um só dos lados da verdade, o lado negligenciado, o lado divino.
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A SOBERANIA DE DEUS E A ATUALIDADE
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Quem está regendo os acontecimentos na terra hoje Deus, ou o diabo? Que Deus reina supremo no céu é geralmente reconhecido; que não reina soberano sobre este mundo, é o que se assevera quase a uma - senão diretamente, pelo menos de maneira indireta. Os homens estão relegando mais e mais a pessoa de Deus a um plano secundário, através de suas filosofas e teorias. Não somente se nega que Deus criou tudo através de sua ação pessoal e direta; mais do que isso, poucos são os que crêem que Deus tem qualquer preocupação imediata em regular as obras de suas próprias mãos. Pressupõe-se que tudo tenha sido ordenado segundo as “leis da natureza”, abstratas e impessoais. Dessa forma, o Criador é banido de sua própria criação. Não devemos pois, ficar surpresos, se os homens, nos seus conceitos degradados, o excluem do âmbito das atividades humanas. Em toda a cristandade, com exceções que quase não se podem levar em conta, mantém-se teorias como a de que o homem determina a própria sorte e decide seu destino através do seu “livre arbítrio”. Que Satanás deve levar a culpa de boa parte do mal existente no mundo, admitem-no sem restrições aqueles que, apesar de terem muito a dizer quanto à “responsabilidade do homem”, freqüentemente negam a sua própria responsabilidade, atribuindo ao diabo aquilo que, de fato, procede de seus próprios corações maus (Marcos 7:21-23).
Quem, entretanto, está regulando as coisas no mundo hoje - Deus ou o diabo? Busque-se uma visão mental, séria e compreensiva do mundo. Com que cenário de confusão e de caos nos confrontaremos por toda parte! Predomina o pecado; campeia a ilegalidade; homens perversos e impostores estão, de fato, indo de mal a pior (II Timóteo 3:13). Hoje em dia, tudo parece desconjuntado. Tronos rangem, ameaçando sofrer colapso, dinastias milenares são subvertidas, povos entram em revolta, a civilização é um fracasso; metade da cristandade, ainda há pouco, estava entregue a uma luta mortal; agora, passado o conflito titânico, ao invés de termos um mundo “seguro para a democracia”, percebemos que a própria democracia longe está de ser segura neste mundo. A agitação, a insatisfação, a ilegalidade grassam por todos os lugares, e ninguém pode prever dentro de quão pouco tempo outra grande guerra seria deflagrada. Os estadistas quedam-se perplexos e abalados. Os corações dos homens “desmaiarão de terror e pela expectativa das cousas que sobrevirão ao mundo” (Lucas 21:26). Coisas como essas dão a impressão de que Deus exerce pleno domínio?
Vamos; porém, confiar a nossa atenção ao campo religioso. Depois de dezenove séculos de pregação do evangelho, Cristo ainda é “desprezado e rejeitado pelos homens”. Pior ainda, Ele (o Cristo das Escrituras) está sendo proclamado e glorificado por muito poucos. Na maioria dos púlpitos modernos é Ele esquecido e marginalizado. Apesar dos esforços desmedidos para atrair às multidões, as igrejas, na sua maioria, estão esvaziando-se, ao invés de se encherem. E que dizer do grande número dos Que não freqüentam igrejas? À luz das Escrituras, temos forçosamente de crer que os “muitos” estão no caminho largo, que leva à perdição, e que “poucos” estão no estreito caminho que conduz à vida. Muitos declaram que o cristianismo é um fracasso ; e o desespero transparece em muitos rostos. Não poucos dos que pertencem ao Senhor se sentem confusos, e sua fé está sendo severamente testada. E qual é a atitude de Deus? Está Ele vendo e ouvindo? Certo número daqueles que são reputados lideres do pensamento cristão emitiu a opinião de que Deus não pôde impedir a explosão desta última guerra, tão terrível, e que não teve a capacidade de terminá-la. Dizia-se, e isso abertamente, que as condições estavam além do controle de Deus. Coisas como estas dão a impressão de ser Deus que impera no mundo?
Quem é que regula as coisas, nesta terra, hoje em dia Deus, ou o diabo? Que impressão fica na mente daqueles homens do mundo que, ocasionalmente, freqüentam um culto evangélico? Quais os conceitos formados por aqueles que ouvem até mesmo pregadores considerados “ortodoxos”? Não é que os cristãos estão crendo em um Deus decepcionado? A julgar por aquilo que se ouve do evangelista comum dos nossos dias, o ouvinte sério não é obrigado a concluir que representa ele um Deus tomado de intenções benévolas, incapaz, porém, de as levar a bom termo; que deseja sinceramente abençoar os homens, embora estes não Lhe dêem licença para assim fazer? Logo, o ouvinte em geral não é forçado a inferir que o diabo assumiu a primazia, e que Deus é mais digno de comiseração do que da nossa adoração?
Não parece indicar tudo que o diabo tem, realmente, mais a ver com as coisas desta terra do que Deus? Tudo depende de estar você andando pela fé, ou pelas aparências. Seus pensamentos, leitor, quanto ao mundo e ao relacionamento de Deus com o mundo, baseiam-se naquilo que você está vendo? Encare essa pergunta de modo sério e honesto. E, se você é um crente, provavelmente terá motivo de abaixar a cabeça, com vergonha e tristeza, reconhecendo que assim é. Infelizmente, na prática, andamos mui pouco “pela fé”. Que significa “andar pela fé”? Significa isto: nossos pensamentos são formados, nossas ações são reguladas, nossa vida é moldada pelas Sagradas Escrituras, “porquê a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17). É da Palavra da Verdade, e somente dela, que podemos aprender qual é o relacionamento entre Deus e o mundo.
Quem está regulando as coisas na terra, hoje em dia Deus, ou o diabo? Que dizem as Escrituras? Antes de considerarmos a resposta direta para essa pergunta, digamos que as Escrituras predisseram tudo aquilo que agora vemos e ouvimos. A profecia de Judas se está cumprindo. A comprovação dessa assertiva nos afastaria para longe do tema de nosso estudo; o que, porém, temos em mente, de maneira especial, é esta frase do oitavo versículo “quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como rejeitam governo e difamam autoridades superiores”. Sim, até difamam a Dignidade suprema, o “Único Potentado, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores”. Nossa época é, especificamente, uma era de irreverência, e, consequentemente, o espírito de insubordinação que não tolera qualquer restrição e que deseja arredar tudo quanto venha a interferir com a livre expressão da vontade própria, está rapidamente engolindo a terra, como se fosse gigantesco macaréu. A geração que ora desponta fornece os ofensores mais flagrantes, e, na decadência e desaparecimento da autoridade dos pais, temos o precursor certo do colapso da autoridade civil. Portanto, tendo em vista a crescente falta de respeito pelas leis humanas, e a recusa de “dar honra a quem a merece”, não nos deve causar surpresa que o conhecimento da majestade, da autoridade e da soberania do Legislador Onipotente se relegue mais e mais a segundo plano, e que as massas tenham sempre menos paciência com aqueles que insistem sobre essas coisas.
Quem está regulando as coisas na terra, hoje em dia Deus, ou o diabo? Que dizem as Escrituras? Se cremos em suas declarações claras e positivas, não há lugar para a incerteza. Afirmam, vez após vez, que Deus está no trono do universo; que o cetro está em suas mãos; que Ele dirige todas as coisas “segundo o conselho da sua vontade”. Afirmam não somente que Deus criou todas as coisas, mas também que o Senhor domina e reina sobre to das as obras das suas mãos. Afirmam que Deus é o “onipotente”, que sua vontade é irreversível, que ele é soberano absoluto em cada recanto dos seus vastos domínios. E, certamente, tem de ser assim. Há apenas uma alternativa possível: ou Deus domina, ou é dominado; ou impera, ou é subalterno; ou cumpre a sua vontade, ou é ela impedida pelas criaturas. Aceitando-se o fato de Que Deus é o “Altíssimo” ; o único Potentado e o Rei dos Reis, revestido de sabedoria perfeita e de poder ilimitado, não há resistir-se à conclusão de que deve Ele ser Deus de fato, e não apenas de nome.
Tendo em vista aquilo que acima referimos de maneira resumida, dizemos que as condições atuais requerem, urgentemente, nova análise e nova apresentação da onipotência de Deus, dá auto-suficiência de Deus, da soberania de Deus. De cada púlpito da nação precisa ser trovejada a verdade que Deus ainda vive, que Deus ainda observa, que Deus ainda reina. A fé está no crisol, testada pelo fogo; e não há nenhum lugar adequado de descanso para o coração e para a mente, a não ser no trono de Deus. O que se faz mister agora, como nunca antes, é a demonstração completa, positiva e construtiva da divindade de Deus. Enfermidades drásticas exigem remédios drásticos. As pessoas se cansam de chavões e de meras generalizações - exige-se algo mais definido e específico. Um xaropinho adocicado pode servir para crianças manhosas; um tônico de ferro, porém, é mais adequado para os adultos, e nada conhecemos com maior possibilidade de infundir vigor espiritual em nosso ser do que a compreensão bíblica da plenitude do caráter de Deus. Está escrito. “O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo” (Daniel 11:32).
Estamos, sem dúvida, no limiar de uma crise mundial, e em todos os lugares os homens estão alarmados. Mas, o Senhor Deus não o está! Ele nunca se deixa apanhar desprevenido. Não há emergência inesperada que surpreenda a Deus, pois ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). Portanto, embora o mundo seja tomado pelo pânico, a Palavra, para quem crê, é: “Não temais!” “Todas as coisas” se sujeitam a seu controle imediato: “todas as coisas” avançam segundo o seu eterno propósito, e, assim sendo, “todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”.
Tem que ser assim, porque “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Romanos 11:36). Quão pouco se reconhece isso hoje em dia, mesmo entre o povo de Deus! Muitos supõem que Deus é pouco mais que um espectador distante, que não interfere de maneira direta nos assuntos da terra. É verdade que o homem tem vontade, mas Deus também tem vontade. É verdade que o homem é dotado de poder, mas Deus é o onipotente. É verdade que, falando de modo geral, o mundo material é regulamentado por leis, mas, por detrás dessas leis, há o Legislador e Administrador, que as estabelece. O homem é somente uma criatura. Deus é o Criador, e, intermináveis eras antes de ver o homem a luz pela primeira vez, já existia o “Deus altíssimo” (Isaías 9:6); e antes da fundação do mundo foram feitos os seus planos; e, sendo o Senhor infinito em poder, ao passo que o homem é apenas finito, seu propósito, seu plano, não pode ser resistido ou impedido pelas criaturas de suas próprias mãos.
Reconhecemos, sem hesitação, que a vida é um problema profundo; e que estamos circundados de mistérios por todos os lados; não somos, entretanto, como os animais do campo - ignaros da própria origem, sem consciência do futuro. Não: “Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética”, da qual se diz: “...fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vossos corações” (II Pedro 1:19). E, de fato, fazemos bem em atender à Palavra da profecia, pois essa Palavra não teve origem na mente do homem, mas na mente de Deus, “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte .de Deus, movidos pelo Espírito Santo” Uma vez mais dizemos, que esta é a Palavra a que devemos dar atenção. Ao abrirmos a Palavra, sendo instruídos por ela, descobrimos um princípio fundamental que deve ser aplicado a cada problema: ao invés de começar com o homem, para então avançar até chegarmos a Deus, devemos começar com o Senhor, para depois irmos descendo até o homem - “No princípio...Deus...”! Aplique esse princípio à situação atual. Comece com o mundo em sua condição presente, procure raciocinar até chegar a Deus : tudo parecerá comprovar que Deus não tem qualquer ligação com o mundo. Comece, porém, com Deus, e venha gradualmente até o mundo; e luz, bastante luz, projetará sobre o problema. Porque Deus é santo, a Sua ira arde contra o pecado; porque Deus é justo, Seus juízos caem sobre os que se rebelam contra Ele; porque Deus é fiel, cumprem-se as ameaças solenes da Sua Palavra; porque Deus é onipotente, ninguém conseguirá resistir-lhe, e, muito menos ainda, subverter-lhe o conselho; e porque Deus é onisciente, nenhum problema pode vencê-lo, nenhuma dificuldade pode frustrar-lhe a sabedoria. É exatamente porque Deus é o que é que estamos hoje vendo na terra o que estamos vendo - o começo da execução de seus juízos. À vista de Sua justiça inflexível e de Sua santidade imaculada, não poderíamos esperar nada senão aquilo que agora se descortina perante os nossos olhos.
Deve-se, porém, dizer com muita ênfase que o coração humano só pode descansar na bendita verdade da absoluta soberania de Deus e desfrutar dela na medida em que se exerce fé. A fé sempre se fixa em Deus. Essa é a sua natureza; o que a distingue da teologia intelectual. A “fé permanece firme como quem vê aquele que é invisível” (Hebreus 1 I :27); persevera no meio das decepções, das necessidades, das angústias de coração que a vida oferece, reconhecendo que tudo provém da mão dAquele que é sábio por demais para errar e por demais amoroso para ser cruel. Porém, enquanto nos preocupamos com qualquer coisa que não seja o próprio Deus, não haverá descanso para o coração e nem paz para a mente. Quando, porém, recebemos tudo que nos advém na vida como proveniente de sua mão, sejam quais forem as nossas circunstâncias ou o nosso ambiente - seja num casebre ou num cárcere, ou no madeiro do mártir - teremos a capacidade de dizer: “Caem-me as divisas em lugares amenos” (Salmo 16:6). Essa é a linguagem da fé, e não da vista, ou a dos sentidos.
Se, entretanto; ao invés de curvar-nos perante o testemunho das Sagradas Escrituras, se, ao invés de andar pela fé, seguíssemos a evidência dos nossos próprios olhos, tomando-a como nosso ponto de partida para o raciocínio, então cairíamos no lamaçal do que, na prática, seria o ateísmo. Ou, se estamos sendo dirigidos pelas opiniões e pelos pontos de vista de outros, não haverá mais paz para nós. Admitindo que há muita coisa neste mundo de pecado e de sofrimento que nos horroriza e nos entristece; admitindo que há muita coisa nos tratos providenciais de Deus que nos assusta e abala, não deve ser isso motivo para concordarmos com o mundano descrente, que diz: “Se eu fosse Deus, não permitiria que isto acontecesse, e nem toleraria aquilo”. Muito melhor, ante os mistérios que nos deixam perplexos, é dizer com o sábio da antigüidade: “Emudeço, não abro os meus lábios, porque tu fizeste isso” (Salmo 39 :9). As Escrituras nos dizem que os julgamentos de Deus são insondáveis, e que seus caminhos são “inescrutáveis” (Romanos 11:33). É mis ter que seja assim, para testar-nos a fé, para fortalecer-nos a confiança na sua sabedoria e justiça, para promover nossa submissão à sua santa vontade.
Aqui reside a diferença fundamental entre o homem de fé e o homem sem fé. O descrente é “do mundo”, e a tudo julga conforme os padrões terrenos, encara a vida do ponto de vista do tempo e dos sentidos, e pesa tudo na balança do seu entendimento carnal. Mas, o homem de fé inclui Deus, encara tudo do ponto de vista de Deus, calcula os valores segundo padrões espirituais e vê a vida à luz da eternidade. Assim fazendo, recebe o que lhe advier como provindo da mão de Deus. Assim fazendo, seu coração conserva a calma em meio à tempestade. Assim fazendo, regozija-se na esperança da glória de Deus.
Nestes parágrafos iniciais temos indicado as linhas de pensamento seguidas neste livro. Nosso primeiro postulado é que, porque Deus é Deus, Ele faz o que Lhe agrada, somente o que Lhe agrada, sempre o que Lhe agrada; que Seu grande interesse é a realização do Seu próprio beneplácito e a promoção de Sua própria glória; que Ele é o Supremo Ser, e, portanto, Soberano do universo. Começando com este postulado, temos completado o exercício da soberania de Deus, primeiro na Criação, segundo na Administração Governamental sobre as obras das Suas mãos, terceiro na Salvação dos Seus eleitos, quarto na Reprovação dos ímpios e quinto na Operação sobre e dentro dos homens. Depois, temos visto a Soberania de Deus na sua relação com a vontade humana em particular, e com a responsabilidade humana em geral, e temos procurado mostrar qual é a única atitude conveniente para a criatura ter, em vista da majestade do Criador. Um capítulo separado foi posto aparte para a consideração de algumas das dificuldades que estão envolvidas, e para a resposta de questões que serão provavelmente levantadas nas mentes dos nossos leitores; um capítulo foi devotado a uma examinação mais cuidadosa, porém breve, da relação entre a soberania de Deus e a oração. Finalmente, procuramos mostrar que a Soberania de Deus é uma verdade revelada a nós, nas Escrituras, para o conforto dos nossos corações, o fortalecimento das nossas almas e bênção de nossas vidas. Uma apreensão devida da soberania de Deus promove o espírito de adoração, provê um incentivo para a peidade prática e inspira zelo no serviço. Ela é profundamente humilhante para o coração humano, mas numa proporção em que traz o homem ao pó diante do Seu Criador, e a uma extensão em que Deus é glorificado.
Reconhecemos que o que temos escrito está em aberta oposição a muitos ensinamentos em voga tanto na literatura religiosa como nos púlpitos de mais nomeada do país. Reconhecemos sem hesitação que o postulado da soberania de Deus, com todos os seus corolários, está em direto contraste com as opiniões e os pensamentos do homem natural, mas a verdade é que o homem natural é inteiramente incapaz de meditar nesses assuntos: não é competente para formar correta estimativa do caráter e dos caminhos de Deus; e é por causa disso que Deus nos deixou uma revelação da Sua mente, revelação em que a firma com clareza: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:8,9). À vista dessa citação das Escrituras, só se pode esperar que haja muita coisa na Bíblia em conflito com os sentimentos da mente carnal, que é inimizade contra Deus. Não apelamos, pois, às crenças populares dos nossos tempos, nem para os credos das igrejas, mas para a lei e o testemunho do Senhor. Tudo que pedimos é um exame imparcial e atento daquilo que temos escrito, lavrado com orações, à luz da Lâmpada da Verdade. Que o leitor dê atenção à admoestação divina: “Julgai todas as cousas, retende o que é bom” (I Tessalonicenses 5:21).
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A. W. Pink

Segunda-feira, Junho 12, 2006

A Solidão de Deus

Houve tempo, se é que se lhe pode chamar “tempo”, em que Deus, na unidade de Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). “No princípio... Deus...”. Não existia o céu, onde agora se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção. Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela palavra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, senão Deus; e isso, não durante um dia, um ano ou uma época, mas “desde sempre”. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só - completo, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando.
Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessários de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essencialmente. Ele não muda (Malaquias 3:6), pelo que, essencialmente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída.
Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver fazê-lo foi um ato puramente soberano de Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, senão o Seu próprio beneplácito, já que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). O fato de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória.
Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Sabemos que o elevado terreno que estamos
pisando é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andarmos devagar. Recorramos de novo às Escrituras. No final de Romanos capítulo 11, onde o apóstolo conclui sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e soberana graça, pergunta ele: “Por que quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” (vers. 34-35). A importância disto é que é impossível submeter o Todo-poderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. 'Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem” (Jó 35-7-8), mas certamente não pode afetar a Deus, que é bem-aventurado em si mesmo. “quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: “Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lucas 17:10) - nossa obediência não dá nenhum proveito a Deus.
De mais a mais, vamos além: nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu Ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavras: “não tenho outro bem além de ti” (Salmo 16:2; na versão usada pelo autor, literalmente: “... a minha bondade não chega a Ti”). Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançou os Seus santos na terra (Salmo 16:3), mas Deus estava acima e além disso tudo, pois unicamente Deus é “o Bendito” (Marcos 14:61, no grego).
É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu caráter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido “glorificado” pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos fazê-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Que o fizesse ou não, foi determinado unicamente por Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura. E, que são para Ele todas as Suas criaturas, mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta- “Eis que as nações são consideradas por ele como a gota dum balde, e como o pó miúdo das balanças. eis que lança por aí as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que o comparareis?” (Isaías 40:15-18). Esse é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua sendo o “Deus desconhecido” (Atos 17:23) para as multidões desatentas. 'Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os Juizes da terra" (Isaías 40.22-23). Quão imensamente diverso é o Deus das Escrituras do “deus” do púlpito comum!
O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma diferença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos. “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver. ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1 Timóteo 6:15-16). O Ser que aí é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário em Sua majestade, único em Sua excelência, incomparável em Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém.
Um Deus tal não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração pelo Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens ficam “inescusáveis” (Romanos 1:20); contudo, ainda temos que dizer com Ló: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26:14). Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apresentado por “apologetas” bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência.
Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou um relógio e que, depois de um detido exame, inferiu a existência de um. relojoeiro. Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, de seus afetos pessoais, de suas maneiras; de sua disposição, conhecimentos e caráter moral - de tudo aquilo que se junte para compor uma personalidade. Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real - o homem que fabricou o relógio - de modo que pudesse dizer: “Eu o conheço”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tanto mais ao alcance da razão humana? Realmente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido por aqueles a quem Ele próprio Se dá a conhecer.
Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. “Deus é espírito. . .” (João 4:24) e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal. Está morto para tudo que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus (João 3:3), e muito menos entendê-las (1 Coríntios 2:14. É mister que o Espírito Santo brilhe em nossos corações (não no intelecto) para dar-nos o “... conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6). E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2 Pedro 3:18).
A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos “... andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus”.
(Colossenses 1-.10)
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A. W. Pink

Sexta-feira, Junho 02, 2006

A Onisciência de Deus

Sl 147.5; Ez 11.5; At 15.18; Rm 11.33-36; Hb 4.13
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A palavra Onisciência significa "ter todo (omnis) conhecimento (ciência)". É um termo que só pode ser aplicado apropriadamente a Deus. Somente um ser infinito e eterno é capaz de conhecer todas as coisas. O conhecimento de uma criatura finita é sempre limitado por um ser finito.
Deus, sendo infinito, é capaz de reconhecer todas as coisas, entender todas as coisas assimilar tudo. Ele nunca aprende algo ou adquire um novo conheciento. O futuro, bem como o passado e o presente, são totalmente conhecidos por ele. Nada pode surpreendê-lo.
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Devido ao fato de que o conhecimento de Deus excede imensamente o nosso (porque é muito mais elevado), alguns cristãos acreditam que o pensamento de Deus difere radicalmente em natureza do nosso. Por exemplo, tem-se tornado comum entre os cristãos a afirmação de que Deus opera numa lógica diferente da nossa. Esse conceito é conveniente quando tropeçamos num ponto difícil dessa teologia. Se nos encontramos fazendo afirmações contraditórias, aliviamos nossa tensão apelando para a lógica diferente de Deus. Podemos dizer: "Isso pode ser contraditório para nós, mas não na mente de Deus"
Tal raciocínio é fatal para o cristianismo. Por quê? Se Deus de fato tem uma lógica diferente, ou seja, aquilo que é contraditório para nós é lógico para ele, então não temos razão para confiar numa única palavra da Bíblia. Qualquer coisa que a Bíblia nos diga então pode significar exatamente o oposta para Deus. Na mente de Deus, o bem e o mal podem não ser opostos e o Anticristo pode na verdade ser o Cristo.
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O conhecimento superior de Deus lhe permite resolver mistéios que nos deixam perplexos. Isso, porém, aponta para uma diferença de grau no conhecimento de Deus, não para uma diferença no tipo de lógica que ele usa. Visto que Deus é racional, nem ele mesmo pode conciliar contradições.
A Onisciência de Deus também emana da sua onipotência. Deus não é todo-ciente simplesmente por ele aplicar seu intelecto superior num estudo profundo do universo e todo o seu conteúdo. Ao contrário, Deus conhece tudo orque ele criou tudo e sua vontade prevalece sobre tudo. Como o governante soberano do universo, Deus tem o controle do universo. Embora alguns teólogos tentem separa as duas coisas, é impossível para Deus conhecer todas as coisas sem ter o controle e é impossível para ele controlar tudo sem conhecer tudo. Como todos os atributos de Deus, a onisciência e a onipotência são interdependentes, duas partes necessárias do todo.
A onisciência de Deus, como sua onipotência e onipresença, também se relaciona ao tempo. O conhecimento de Deus é absoluto no sentido em que ele é eternamente consciente de toas as coisas. O intelecto de Deus é diferente do nosso no sentido em que ele não tem de "acessar" informações, como um computador tem de acessar um arquivo. Todo o conhecimento está sempre diretamente nele.
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O conhecimento que Deus tem de toas as coias é uma faca de dois gumes. Para o crente, essa idéia oferece segurança - Deus está no controle, ele entende. Deus não fica confuso diante dos problemas que nos confundem. Para o não-crente, entretanto, a doutrina destaca o fato de que a pessoa não pode esconder-se de Deus. Seus pecados estão expostos. Como Adão, eles tentam ocultar-se. Não existe, porém, nenhum lugar no universo em que o olhar de Deus, seja em amor ou em ira, não possa prescrutar.
A Onisciência de Deus é também uma parte crucial da sua promessa de introduzir a justiça no mundo. Para que um juiz possa estabelecer veredicto perfeitamente justo, primeiro tem de conhecer todos os fatos. Nenhuma evidência pode ser oculta do escrutínio de Deus. Ele conhece todas as circusntâncias atenuantes.
R. C. Sproul

Segunda-feira, Maio 29, 2006

A Onipotência Divina.

Gn 17.1; Sl 115.3; Rm 11.36; Ef 1.11; Hb 1.3
Todo teólogo mais cedo ao mais tarde tem de responder a uma pergunta, a qual é colocada como um "quebra-cabeça que não pode ser montado". A antiga pergunta é: Deus pode criar uma pedra tão grande que ele mesmo não possa movê-la? À primeira vista, essa pergunta parece encurralar o teólogo com um dilema insolúvel. Se responder que sim, estará dizendo que existe algo que Deus não pode fazer: Ele não pode mover a pedra. Se responder que não, então estará declarando que Deus não pode criar tal pedra. De qualquer maneira que respondermos, seremos forçados a pôr limites no poder de Deus.
Esse problema nos faz lembrar de uma outra charada: O que acontece quando uma força irresistível se choca contra o objeto irremovível? Podemos conceber uma força irresistível. Podemos, igualmente, conceber um objeto irremovível. O que não podemos conceber é a coexistência dos dois. Se uma força irresistível encontra um objeto irremovível, e o objeto se move, o mesmo não poderia mais ser chamado com propriedade de irremovível. Se o objeto não se mover, então a força "irresistível" não poderia mais ser chamada, com propriedade, irresistível. Portanto, vemos que a realidade não pode conter ambos - uma força irresistível e um objeto irremovível.
Enquanto isso, voltemos à rocha que não pode ser removida. O dilema colocado aqui (como no caso da força irresistível) é um falso dilema. É falso porque é construído sobre uma premissa falsa. Supõe que "Onipotência" significa que Deus pode fazer qualquer coisa. A Bíblia indica várias coisas que Deus não pode fazer: Ele não pode mentir (Hb 6.18). Não pode morrer. Não pode ser eterno e criado. Não pode agir contra sua própria natureza. Não pode ser Deus e não ser Deus ao mesmo tempo e na mesma relação...
O que onipotência realmente significa é que Deus mantém poder absoluto sobre sua criação. Nenhuma parte da criação está fora do alcance e da abrangência do seu controle soberano. Portanto, existe uma resposta correta para o dilema da pedra. O quebra-cabeça pode ser montado. O resposta é não. Por quê? Se Deus criasse tal pedra, ele estaria criando algo sobre o qual não teria poder. Estaria assim destruindo sua própria onipotência. Deus não pode deixar de ser Deus; ele não pode deixar de ser onipotente.
Quando a virgem Maria estava confusa pelo anúncio do anjo Gabriel a respeito da concepção de Jesus no ventre dela, o anjo lhe disse: "para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas" (Lc 1.37).
Dizer que nada é impossível para Deus significa que ele pode fazer qualquer coisa que quira fazer. Seu poder não é limitado por limitações finitas. Nada ou "coisa nenhuma" pode restringir seu poder. Mesmo assim, seu poder é ainda restringido pelo quê e quem ele é. O pecado é impossível para ele porque ninguém pode pecar sem querer pecar. Deus é santo, ele jamais deseja pecar. Jó chega ao âmago desse questão quando declara: "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado" (Jó 42.2).
Para o cristão, a onipotência de Deus é uma grande fonte de conforto. Sabemos que o mesmo poder que Deus demonstrou ao criar o universo está a disposição dele para assegurar nossa salvação. Ele mostrou esse poder na saída do povo de Israel do Egito. Mostrou seu poder sobre a morte na ressurreição de Cristo... Sabemos que nenhuma parte da criação pode frustrar seus planos para o futuro. Não existe nem uma molécula independente, solta no universo, e que seja capaz de comprometer os planos de Deus. Embora os poderes e as forças deste mundo ameacem fazer isso, não tememos. Podemos descansar no conhecimento de que nada pode resistir ao poder de Deus. Ele é o Deus Todo-Poderoso.
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R. C. Sproul

Sexta-feira, Maio 26, 2006

Paradoxo, Mistério e Contradição.

Mt 13.11; Mt 16.25; Rm 16.25-27; 1Co 2.7; 1Co 14.33
A influência de vários movimentos em nossa cultura, tais como a Nova Era, as religiões orientais e a filosofia irracional tem provocado uma crise no entendimento. Um nova forma de misticismos tem surgido, a qual exalta o absurdo como a marca registrada da verdade religiosa. Lembremo-nos da máxima do Zen Budismo, de que "Deus pe uma mão batendo palmas" como uma ilustração desse padrão.
Dizer que Deus é uma mão batendo palmas tem uma ressonância profunda. Tal afirmação confunde a mente consciente, pois é um golpe nos padrões normais de pensamentos. Soa "profundo" e intrigante, até analisarmos cuidadosamente e descobrimos que a raiz é simplesmente destituída de sentido.
A irracionalidade é um tipo de caos mental. Fundamenta-se na confusão que se opõe ao Autor de toda a verdade, o quel não é de forma alguma outor de confusão.
O cristianismo bíblico é vulnerável a tais correntes de irracionalidade exaltada, porque irracionalidade admite condidamente que existem muitos paradoxos e mistérios na própria Bíblia. Existem linhas que separam o paradoxo, o mistério e a contradição; embora sejam tênues, essas linhas divisórias são cruciais e é importante que aprendamos a distingui-las.
Quando tentamos perscrutar as profundezas de Deus, somos facilmente confundidos. Nenhum mortal pode compreender a Deus exaustivamente. A Bíblia revela coisas sobre Deus que sabemos serem verdadeiras, a despeito da nossa capacidade de entendê-las completamente. Não temos um ponto de referência humano para entender, por exemplo, um ser que é três em termos de pessoa, mas um só em essência ( a Trindade ), ou um ser que é uma pessoa com duas naturezas distintas, humana e divina ( a pessoa de Cristo). Essas verdades, tão certas, como são, são "elevadas" demais para podermos compreendê-las.
encontramos problemas similares no mundo natural. Sabemos que a força da gravidade existe, mas não a entendemos e nem tentamos defini-la como irracional ou contraditória. A maioria das pessoas concorda que o movimento é uma parte integrante da realidade, embora a essência do movimento em si tenha deixado filósofos e cientistas perplexos por milênios. Há muito mistério sobre a realidade e muitas coisas que não entendemos. Isso, porém, não justifica um salto absurdo. A irracionalidade é fatal tanto para a religião como para a ciência. De fato, ela é mortal para qualquer verdade.
O filósofo cristão Gordon H. Clark certa vez definiu um paradoxo como "uma caimbra entre as orelhas". Seu comentário espirituoso destina-se a destacar que aquilo que às vezes é chamado de paradoxo freqüentemente nada mais é do que preguiça mental. Clark, entretanto, reconhecia claramente o papel legítimo e a função do paradoxo. A palavra paradoxo vem de uma raiz graga que significa "parecer ou aparentar". Paradoxos são difíceis de entender porque a primeira vista "parecem" contradições, mas quando são sujeitos a um exame minucioso, freqüentemente pode-se encontrar as soluções. Por exemplo, Jesus disse: Quem perda a vida por minha causa acha-la-á( Mt 10.39). Aparentemente, isso soa semelhante à declaração de que "Deus é uma mão batendo palmas". Soa como uma contradição. O que Jesus queria dizer, contudo, é que se alguém perde sua vida em um sentido, irá encontrá-la em outro sentido. Já que a perda e a salvação têm sentidos diferentes, não há contradições. Eu sou pai e filho ao mesmo tempo, mas obviamente não no mesmo relacionamento com a mesma pessoa.
O termo paradoxo é freqüentemente mal-interpretado como sendo sinônimo de Contradição; agora, inclusive, aparece em alguns dicionários como um significado secundário desse termo. Uma contradição é uma afirmação que viola a lei clássica da não-contradição. A Lei da não-contradição declara que A não pode ser A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Quer dizer, algo não pode ser o que é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Essa é a mais fundamental de todas as leis da lógica.
Ninguém pode entender uma contradição, porque uma contradição é inerentemente incompreensível. Nem mesmo Deus pode entender contradições; entretanto, certamente ele pode reconhecê-las pelo que são - falsidades.
A palavra contradição vem do Latim - "falar contra" -Às vezes é chamada uma antinomia, que significa "contra a lei". Para Deus, falar em contradições seria ser intelectualmente anormal, falar com língua bipartida. Até mesmo insinuar que o autor da verdade poderia cair em contradição seria um grande insulto e uma blasfêmia irresponsável. A contradição é a arma do mentiroso - o pai da mentira, que despreza a verdade.
Existe uma relação entre mistério e contradição, que facilmente nos leva a confundir ambos. Não entendemos mistérios. Não podemos entender contradições. O ponto de contato entre ambos os conceitos é seu caráter ininteligível.
Os mistérios podem não ser claros para nós agora simplesmente porque nos falta a informação ou a perspectiva para entendê-los. A Bíblia promete que np céu teremos mais luz sobre os mistérios que agora não podemos entender. Mais luz pode resolver os atuais mistérios. Não existe, entretanto, luz suficiente nem no céu nem na Terra para resolver uma óbvia contradição.
  • Paradoxo é uma contradição aparente que, quando examinada com mais cuidado, pode apresentar uma solução.
  • Mistério é algo desconhecido para nós no presente, mas que pode ser solucionado.
  • Contradição é uma violação da Lei da não-contradição. É impossível ser resolvida, tanto pelos mortais como pelo próprio Deus, tanto neste mundo como no mundo vindouro.

Quinta-feira, Maio 25, 2006

Antinomianismo

Jo 14.15; Rm 3.27-31; Rm 6.1,2; 1Jo 2.3-6; 1Jo 5.1-3.
Há um antigo verso queu serve para ilustrar bem o tema do antinomiano. O verso diz: "Livre da lei, que maravilhosa condição; posso pecar quanto quiser e ainda alcançar remissão".
Antinomianismo - significa literalmente "Antilei" - Ele nega ou diminui a importância da lei de Deus na vida do crente. É o oposto da heresia gêmea, o legalismo.
Os antinomianos cultivam aversão pela lei de várias maneiras. Alguns acreditam que não tem obrigação de obedecer às leis morais de Deus porque Jesus os libertou da lei. Insistem em que a graça não só nos liberta da maldição da lei de Deus, mas também nos liberta da obrigação de obedecê-la. A graça, pois, se trona um licença para a desobediência.
O mais surpreendente é que as pessoas defendem este ponto de vista a despeito do ensino vigoroso de Paulo contra ele. Paulo, mais do que qualquer ouro escritor do Novo Testamento, enfatizou as diferenças entre a lei e a graça.
Ele se gloriava na Nova Aliança. Mesmo assim, foi muito explícito em sua condenação do antinomianismo. Em Romanos 3.31 ele escreve: "Anulamos, pois, a dei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei".
Martinho Lutero , a defender a doutrina da justificação por fé somente, foi acusado de antinomianismo. Ele, no entanto, afirmava com Tiago que "a fé sem obras é morta". Lutero discutiu com seu discípulo João Agrícola sobre esta questão. Agrícola negava que a lei servisse para preparar o pecador para a graça. Lutero respondeu a Agrícola com sua obra Contra o Antinomianismo em 1539. Posteriormente, Agrícola se retratou de suas idéias antinomianas, mas a questão permaneceu.
Teólogos luteranos posteriores afirmaram a visão de Lutero da lei. Na Fórmula da Concórdia (1577) - a última das declarações clássicas da fé luterana, eles relacionavam três utilidades da lei: (1) revelar o pecado; (2) estabelecer um nível geral de decência na sociedade como um todo e (3) proporcionar uma regra de vida àqueles que foram regenerados pela fé em Cristo.
O erro primário do antinomianismo é donfundir justificação com santificação. Somos justificados pela fé somente, independentemente das obras. Entretanto, todos os crentes crescem na fé ao observarem os mandamentos de Deus - não para granjearem o favor de Deus, mas movidos por uma amorosa gratidão pela graça que já lhes foi concedida através da obra de Cristo.
É um grave erro supor que o Antigo Testamento era a aliança da lei e que o Novo Testamento é a aliança da graça. O Antigo Testamento é um testemunho monumental da maravilhosa graça de Deus em favor de seu povo. Semelhantemente, o Novo Testamento está literalmente cheio de mandamentos. Não somos salvos pela lei, mas demonstramos nossos amor a Cristo obedecendo a seus mandamentos. "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (Jo 14.15).
Freqüentemente ouvimos a afirmação: "O cristianismo não é um monte de normas sobre o que fazer e o que não fazer. Não é uma lista de regras" - Há alguma verdade nesta dedução, visto que o cristianismo é muito mais do que uma mera lista de regras. Em sua essência, o cristianismo também não é destituído de regras. O Novo Testamento claramente inclui alguns: "faça não faça". O cristianismo não é uma religião que sanciona a idéia de que todos têm o direito de fazer o que acharem melhor aos próprios olhos. Ao contrário, ele nunca dá a alguém o "direito" de fazer o que é errado.
  • Antinomianismo é a heresia que diz que os cristãos não tem qualquer obrigação de obedecer as leis de Deus.
  • A lei revela o pecado, é o fundamento para a decência na sociedade e é um guia para a vida cristã.
  • O antinomianismo confunde justificação com santificação.
  • Lei e graça enchem tanto o Antigo quanto no Novo Testamento
  • Embora obedecer a lei de Deus não seja a causa meritória da nossa justificação, espera-se que uma pessoa justificada busque ardentemente obedecer aos mandamentos de Deus.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

A Incompreensibilidade de Deus

Jó 38.1-41; Sl 139. 1-18; Is 55.8,9; Rm 11.33-36; 1Co 2.6-16.
Durante uma palestra nos Estados Unidos, um estudante perguntou ao teólogo suiço Karl Barth: "Dr. Barth, qual foi a coisa mais profunda que o Senhor já aprendeu em seu estudo da teologia?" Barth pensou por um momento e depois respondeu: "Jesus me ama, isto eu sei, pois a Bíblia assim o diz" (trecho hino infantil). Os estudantes sorriram diante da resposta tão simplista, mas a risada deles tornou-se um sorriso tímido quando lentamente perceberam que Barth estava falando sério.
Karl Barth deu uma resposta simples para uma pergunta profunda. Ao fazer isso, estava chamando a atenção pelo menos para duas noções de vital importância.
(1) Na verdade cristã mais simples reside uma profundidade que pode ocupar a mente das pessoas mais brilhantes por toda uma vida.
(2) Mesmo no aprendizado da teologia mais sofisticada, realmente nunca ultrapassamos o nível de uma criança no entendimento das misteriosas profundidades e riquezas do caráter de Deus.
João Calvino usava outra analogia. Ele dizia que Deus falava conosco numa espécie de balbucio. Como os pais se empenham em falar numa "linguagem de bebê" , quando se dirigem a seus filhos pequenos, assim também Deus, para se comunicar conosco, míseros mortais, precisa condescender a falar de maneira que possamos compreender.
Nenhum ser humano tem a habilidade de compreender a Deus exaustivamente. Existe uma barreira que impede a compreensão total e abrangente de Deus. Somos criaturas finitas; Deus é infinito. Nisso reside o nosso problema. Como o finito pode compreender o infinito? Os teólogos medievais tinham uma frase que se tornou um axioma dominante em todo estudo posterior de teologia: "O finito não pode apreender (ou conter) o infinito" .Nada é mais óbvio do que isso: um objeto infinito não pode ser comprimido dentro de um espaço finito.
Esse exioma comunica uma das doutrinas mais importantes do Cristianismo ortodoxo. É a Doutrina da incompreensibilidade de Deus. O termo pode ser mal-interpretado. Pode sugerir que, já que o finito não pode "apreender" o infinito, então não podemos saber nada sobre Deus. Se Deus está além da compreensão humana, isso não insinua que toda a nossa discussão religiosa não passa de tagarelice teológica e que, quando muito, somos deixados com um altar destinado a um Deus desconhecido?
Essa de maneira alguma é a inteção. A incompreensibilidade de Deus não significa que não sabemos nada sobre ele. antes significa que nosso conhecimento é parcial e limitado, muito além de um conhecimento ou de uma compreensão plena. O conhecimento que Deus nos dá através da revelação é real e útil. Podemos conhecer a Deus na mesma medida em que ele escolhe se revelar a nós. O finito pode "aprender" o infinito, mas o finito jamais poderá abarcar completamente o infinito. Sempre haverá mais sobre Deus do que podemos aprender.
A Bíblia se refere a isso da seguinte maneira: "As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos para sempre" (Dt 29.29). Martinho Lutero referia-se a dois aspectos de Deus - o oculto e o revelado. Uma porção do conhecimento divino permanece aculta de nossa vista. Trabalhamos à luz do que Deus nos revelou.
  • Existe um profundo significado mesmo na verdade cristã mais simples.
  • Não importa quão profundo seja o nosso conhecimento teológico, sempre haverá muitos aspectos da natureza e caráter de Deus que permanecerão um mistério para nós.
  • Nenhum ser humano pode ter um conhecimento pleno de Deus
  • A doutrina da incompreensibilidade de Deus não significa que não podemos conhecer nada sobre Ele. Significa que nosso conhecimento é limitada, restringido por nossa humanidade.

R. C. Sproul

Terça-feira, Maio 09, 2006

A Vontade Imutável de Deus.

Agostinho.

É certo que muitas coisas más são pelos maus praticadas contra a vontade de Deus. Mas tão grande é a Sua sabedoria e tamanha é a Sua virtude que tudo, mesmo o que parece contrário à Sua vontade, tende para os fins e resultados que Ele antecipadamente viu como bons e justos. Por isso, quando se diz que Deus muda de vontade, que, por exemplo, fica irado contra aqueles para quem era brando, - não foi Ele mas foram os homens que mudaram e de certo modo o acham mudado nas mudanças que experimentam: tal qual como o Sol muda para os olhos enfermos - de suave torna-se de certa maneira áspero, de deleitosos torna-se molesto, embora ele próprio continue a ser o mesmo que era. Também se chama de Deus a vontade que Ele suscita nos corações dos que obedecem aos seus mandamentos e da qual diz o Apóstolo:É Deus que opera em nós o próprio querer (Deus enim est, qui operatur in nobis et velle ) - (Filipenses 2:13); como se chama de Deus não só a justiça pela qual Ele próprio é justo, mas também a que Ele faz no homem que por Ele é justificado. Da mesma forma se chama de Deus a lei que é antes dos homens mas que por Ele foi dada; pois eram realmente homens aqueles a quem Jesus dizia: Está escrito na vossa lei (In lege vestra scriptum est) -(João 8:17), embora noutra passagem leiamos: A lei do seu Deus está no seu coração (Lex Dei ejus in corde ejus) -(Salmo 37:31).
Conforme esta vontade que Deus produz nos homens, diz-se que Ele quer o que Ele próprio não quer, mas faz com que os seus isso queiram, como se diz que Ele conheceu o que Ele fez que fosse conhecido por aqueles que isso ignoravam. Pois, nem quando o Apóstolo diz:Mas conhecendo agora a Deus, ou melhor, conhecidos de Deus (Nunc autem cognoscentes Deum, immo cogniti a Deo) -(Gálatas 4:9), é lícito que acreditemos que Deus conheceu então os que conhecia antes da criação do mundo; mas diz-se que conheceu então o que fez com que então fosse conhecido. Destas formas de expressão recordo-me que já se tratou nos livros anteriores. É, pois, conforme essa vontade (pela qual, como dizemos, Deus quer o que faz querer ao outros, pelos quais são ignoradas as coisas futuras) que Ele quer muitas coisas mas não é Ele que as faz.
Com efeito, os seus santos, com uma vontade santa por Ele inspirada, querem que se façam muitas coisas que não chegam a ser feitas; como rogam piedosa e santamente por alguns, mas Ele não faz o que lhe pedem, sendo Ele quem, pelo Seu Espírito, causa neles essa vontade de orar. Por isso, quando os santos querem e rogam, em conformidade com Deus, que cada um seja salvo, podemos dizer, segundo esse tipo de expressões: Deus quer mas não faz; dizemos então que Ele quer no sentido de que Ele faz com que os outros queiram. Mas, conforme essa vontade, que é sua e eterna como a sua presciência, claro está que tudo o que quis no Céu e na Terra, tanto passado e presente como futuro, fê-lo já. Mas antes que chegue o tempo em que se cumprirá como Ele quis o que antes de todos os tempos Ele previu e determinou, nós dizemos: Acontecerá quando Deus quiser; mas se ignoramos dum acontecimento, não só o momento (tempus) em que virá a acontecer, mas também se chegará a acontecer, então dizemos: Acontecerá se Deus quiser: não porque Deus venha a ter então uma vontade nova que antes não tinha, mas porque só então acontecerá aquilo que desde toda a eternidade está preparado na sua vontade imutável.

Terça-feira, Maio 02, 2006

Shekinah (Fundamentos da Fé Cristã 3)

Nós sabemos que fomos criados para a glória de Deus. O alvo de Deus é a Sua glória. Mas será que nós entendemos o que isso quer dizer? Será que não interpretamos mal muitas vezes isso? O fato de o alvo de Deus ser a sua glória não aponta para o "egoísmo" divino. Sem sombra de dúvida Deus deseja ser louvado pelo Seu merecimento. Ele é digno disso. Ser exaltado po sua grandeza e bondade. Ser apreciado pelo que Ele é.
Mas entenda, a glória que é seu alvo, é um relacionamento de dois lados. É uma conjunção de atos reveladores de sua parte, por meio dos quais Ele mostra sua glória a anjos e homens com extrema generosidade e bondade - com adoração responsiva da parte deles, por meio da qual lhe prestam glória de gratidão pelo que têm visto e recebido.
Essas duas coisas funcionando juntas - contemplar a glória de Deus e dar a Ele glória - é a verdadeira realização do homem - a realização e concretização do objetivo pelo qual fomos criados. Qual o resultado disso? Isso traz suprema alegria ao homem, e também a Deus (Sf 3.14-17).
"Glória" - No Velho Testamento encerra associações de peso, valor, riqueza, esplendor e dignidade - tudo isso e mais estão presentes quando se afirma que Deus revelou a sua glória.
Deus respondendo a Moisés - que pediu que lhe mostrasse Sua glória - lhe revelou Seu Nome - isto é, Sua natureza, caráter e poder (Êx 33.18 - 34.7) - Junto com a proclamação e revelação de quem Deus era houve uma manifestação física que inspirou medo e reverência - o Shekinah (Habitação de Deus), uma nuvem brilhante que era vista como um fogo consumidor. O Shekinah era ele mesmo chamado glória de Deus. Apareceu em momentos significativos da história bíblica como sinal da presença ativa de Deus (Êx 33.22; 34.5; 16.7,10; 24.15-17; 40.34,35; Lv9. 23,24; 1Rs 8.10,11; Ez 1.28; 8.4; 9.3; 10.4; 11.22,23; Mt17.5; Lc 2.9; At 1.9; 1Ts 4.17; ap 1.7).
O Novo Testamento proclama que a natureza, caráter, poder e propósito da glória de Deus é agora aberta a nossa visão na pessoa e papel do Filho encarnado de Deus, Jesus (Jo 1.14-18; 2Co 4.3-6; Hb 1.1-3).
A glória de Deus expressa no plano da graça que resgata pecadores indignos, deve gerar o louvor(Ef 1.6,12,14), ou seja, a expressão de glória a Deus por palavras faladas( Ap 4.9; 19.7). E também todas as atividades da vida devem ser exercidas com o objetivo de prestar a Deus homenagem, honra e prazer, o que significa conceder a Ele a glória em um nível prático (1Co 10.31).
Deus não dividiria com ídolos o louvor pela restauração do seu povo, pela simples razão de que, sendo irreais, os ídolas em nada contribuíram para esta obra, fruto somente da graça de Deus (Is 42.8; 48.11).
E Deus hoje não dividirá o louvor pela salvação com seres humanos como nós - apesar do homem sempre querer diminuir a graça para colocar seus "meritos" e da "igreja" estar cheia de super-apóstolos hoje - porque nós também sendo objetos dessa salvação em nada contribuímos para ele a não ser com a nossa desesperada necessidade. Do príncípio ao fim, e em todas as etapas, até estarmos no céu - a salvação vem do Senhor - e o nosso louvor deve mostrar nosso consciência disso. É por isso que a teologia da Reforma foi tão insistente no seu grito - Soli Deo Gloria - Esse princípio precisa nortear as nossas vidas até o fim.
"Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o esplendor ao redor" (Ez 1.28).
J.I.P

Segunda-feira, Maio 01, 2006

Deus é espírito.

"Deus é espírito" - (Jo 4.24) - Deus é plenamente pessoal, mas não vive em um corpo ou por meio dele. Ele não está fechado numa moldura espaço-tempo como nós. Ele então, não é marcado pela desintegração pessoal (falta de concentração e controle), como nós - algo que o pecado produziu em nós.
Podemos meditar então no que se chama de infinidade de Deus - sua imensidade e sua transcendência. Ele não está limitado nem pelo espaço (Ele está continuamente em todo lugar em sua plenitude) nem pelo tempo ( não há um momento "presente", no qual Ele esteja contido) - (!Rs 8.27; Is 40.12-26; 66.1).
Como Ele mantém todas as coisas existentes, assim Ele tem todas as coisas em todos os lugares sempre diante de sua mente, cada qual em sua própria relação com seu plano e propósito tatalmente abrangente para todo item e toda pessoa em seu mundo (Dn 4.34,35; Ef 1.11).
Deus é totalmente consistente - ou seja, imutável - porque Ele é perfeito, Ele não pode mudar - não pode melhorar, e muito menos piorar. E porque Ele não está limitado no tempo, Ele não está sujeito a mudança, como todos nós (2Pe 3.8). É essa imutabilidade que garante sua fidelidade a tudo que tem dito em sua Palavra e ao Seu plano eterno (Nm 23.19; Sl 33.11; Ml 3.6; Tg 1.16-18). Entenda, é exatamente essa imutabilidade que explica porque quando as pessoas mudam sua atitude para com Ele, Ele muda sua atitude para com elas (Gn 6.5-6; Êx 32.9-14; 1Sm 15.11; Jn 3.10) - Ele não muda para se adaptar as mudanças, Ele permanece o mesmo - A idéia de que a invariabilidade de Deus envolve indiferença ao que se passa nesse mundo é o oposto da verdade. Ele não se adapta a novas realidades para continuar em comunhão com as pessoas. Porque Ele é imutável.
Os sentimento de Deus não estão fora do seu controle, como nossos muitas vezes estão - então é dito que Deus é impassível e insensível. Então o que Ele sente, como o que Ele faz, é uma questão de Sua própria escolha deliberada e voluntária. Deus jamais é nossa vítima no sentido de que o fazemos sofrer naquilo que Ele não tinha previamente escolhido sofrer. Apesar disso, são abundantes as passagens que expressão a realidade das suas emoções (Alegria, tristeza, ira, deleite, amor, ódio...). - Então é um grande equívoco esquecer que Deus sente - embora em forma de necessidade que transcende a experiência emocional de um ser finito.
As emoções, pensamentos e ações de Deus envolvem todo o seu Ser. Esta perfeita integração é chamada de "sua simplicidade". Como assim? Ela está em completo contraste com a complexidade e falta de integração de nossa própria existência pessoal, na qual, como conseqüência do pecado, não podemos concentrar a totalidade do nosso ser sobre qualquer coisa. Um aspecto maravilhoso de Deus, é que Ele simultaneamente dá total e indivisa atenção não apenas a uma coisa de cada vez, mas atodas as coisas e a todas as pessoas em todo lugar em seu mundo - passado, presente e futuro (Mt 10.29,30).
Ele é espírito - e Ele deve ser adorado "em espírito e em verdade" (Jo 4.24). Em "espírito" - ou seja, com um coração renovado pelo Espírito Santo. Não são rituais, movimento do corpo, regras devocionais... que constituem a adoração. Sem o envolvimento total do coração - algo que só o Espírito pode produzir, adoração é impossível. Em "verdade" - com base na realidade plena de Deus conforme revelada pela Palavra encarnada - Cristo. Antes de mais nada, a revelação de que nós somos pecadores indignos e de que Deus só é por nos em pelo ministério redendor em Seu Filho Amado.
Apesar da peregrinação "mística" - dos evangélicos a Jerusalém... Nenhum lugar da terra é atualmente determinado como centro de adoração. A habitação simbólica de Deus em Jerusalém foi substituída, quando veio o tempo (Jo 4.23), por sua morada na Jerusalém celestial, de onde Jesus nos ministra (Hb 12.22-24). No Espírito, e somente assim, "perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade" - não importa onde estejam (Sl 145.18; Hb 4.14-16).
Esta disponibilidade universal de Deus, é uma das boas novas do evangelho.
"Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono e a terra o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós? E qual é o lugar do meu repouso?" (Is 66.1).
J. I. P

Sexta-feira, Abril 28, 2006

Teônomo.

"Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: 'Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos que hoje vos fala aos ouvidos, para que os aprendais cuideis em os cumprirdes" (Dt 5.1).


Não fomos criados autônomos - apesar de tudo o que é dito nos nossos dias. Não podemos servir de lei a nós mesmos - apesar de toda relação subjetiva que a "igreja" tem com a Palavra hoje. Fomos criados teônomos, ou seja, compelidos a guardar a lei do nosso Senhor e Dono.
No princípio
isso de forma alguma era um problema, porque fomos criados de tal forma por Deus que a obediência cheia de gratidão nos daria a mais profunda felicidade e deleite - como acontecia com Cristo ao andar neste mundo (Jo 4.34 - cf Sl 112.1; 119.14,16,47,48, 97-113, 127, 128, 163-167).
Mas o coração do homem caído não tem prazer na lei de Deus por 2 motivos: Por ser lei, e por ser de Deus. Agora, um homem em Cristo, descobre não só que ama a lei de Deus, como vive no desejo de observá-la - maravilhado com a graça (Rm 7.18-22; 12.1,2). E o trabalho do Espírito e levá-los a obediência - iniciando no coração a concretização dela (Rm 7.6; 8.4-6; Hb 10.16).
A lei moral de Deus é vista abundantemente em toda a Bíblia - Nos escritos Mosaicos, nos sermões dos profetas, no ensino de Jesus, nas cartas apostólicas... Ela reflete o caráter santo e imutável de Deus. Revela também seus propósitos para os seres que Ele criou.
Deus recomenda a conduta que Ele tem prazer de ver, e proíbe aquela que O ofende. Isso é pecado - tudo que ofende a Deus. Cristo resumiu toda lei em dois grandes mandamentos: Ame a Deus sobre tudo, ame ao próximo como a você mesmo (Mt 22.37-40). Todas as instruções morais do Velho Testamento dependem disso. O ensino moral de Cristo é a velha lei aprofundada e aplicada a todas as circunstâncias.
As leis morais determinam o comportamento que temos que sempre observar. Havia as leis políticas no Velho Testamento - que aplicavam os princípios da lei moral de Deus a situação nacional de Israel. Também havia as leis cerimoniais de purificação, dieta e sacrifícios... Eram decretos temporários para fins instrutivos que foram plenamente alcançados em Cristo - Tendo assim o Novo Testamenta as abolido (Mt 15.20; Mc 7.15-19; 1Tm 4.3-5; Hb 10.1-14, 13.9,10).
Mas é importante entendermos que a justaposição da lei moral, judicial e ritual no pentateuco continha uma mensagem que para nós hoje é fundamental - A vida sob Deus deve ser vista e vivida não compartimentalmente - mas como uma unidade multifacetada.

J. I. P


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'Deus requer total obediência da pessoa total às totais implicações de sua lei como foram dadas. Ele obriga "o homem todo... a uma inteira obediência para sempre" - "é espiritual, e assim alcança a compreensão, vontade, afeições e todos os outros poderes da alma, como também as palavras, obras e gestos" - em outras palavras, o desejo deve ser justo, assim como as ações; e a exterioridade farizaica não é suficiente (Mt 15.7,8; 23.25-28); e os corolários da lei são parte de seu conteúdo - "onde um dever é prescrito, o pecado contrário é proibido; e onde um pecado é proibido, o dever contrário é prescrito" (Catecismo Maior de Westminster, P.99).

Sexta-feira, Outubro 27, 2000

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