VOCÊ NÃO ESTÁ NA PÁGINA PRINCIPAL. CLIQUE AQUI PARA RETORNAR
Domingo, Outubro 28, 2007
Sábado, Outubro 27, 2007
Artigos Avulsos
- A Presciência de Deus
- A Velha Regra Adâmica
- Duas Naturezas
- A Ira de Deus
- A Sola Fide e Tiago 2
- Cinco Princípios para a interpretação Bíblica
- Deus deve ser Amado por Ele mesmo - Tozer
- Que é graça?
- Luz Requer Visão - Tozer
- Batalhando Pela Fé - Piper
- Seu Diabo é Grande Demais
- Milagres falsos.
- A Bondade Divina
- A Divindade de Deus
- Eleição
- Apostasia
- O Escândalo do Pecado
- O Poder de Deus
- Da Eternidade de Deus
- A Soberania de Deus
- A Solidão de Deus
- A Onisciência de Deus
- A Onipotência de Deus
- Paradoxo, Mistério e Contradição
- Antinomianismo
- A Incompreensibilidade de Deus
- A Vontade Imutável de Deus
- Shekinhah
- Deus é Espírito
- Teônomo
Quarta-feira, Setembro 20, 2006
A Regeneração Precede a Fé
Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, na formação de minha teologia, ocorreu em uma sala de aula de um seminário. Um de meus professores foi ao quadro negro e escreveu estas palavras em letras garrafais:
A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ
Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim:
"Fé - novo nascimento -justificação."
Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.
Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações.
Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.
MONERGISMO E SINERGISMO
Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com".
Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente.
A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.
Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração.
Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé.
Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.
R.C.Sproul
A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ
Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim:
"Fé - novo nascimento -justificação."
Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.
Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações.
Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.
MONERGISMO E SINERGISMO
Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com".
Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente.
A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.
Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração.
Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé.
Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.
R.C.Sproul
Brincar de Deus
PECADO
O PECADO É UM TEMA vital e precisamos tomar conhecimento dele. Dizer que a nossa necessidade primária na vida é conhecimento sobre o pecado, pode soar estranho, mas no sentido tencionado, expressa uma profunda verdade. É necessário fixar em nossas mentes, ter idéias “claras sobre o pecado”
Isso porém não é tarefa fácil, pelo menos por três razões.
EM PRIMEIRO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado não lisonjeia; e, naturalmente, mostramos aversão a qualquer opinião a nosso respeito que nos seja desfavorável. O nosso instinto de autodesculpa é muito forte, sendo ele mesmo produto do pecado (Gn 3.12,13). Deriva-se daí a tentação de suavizarmos a doutrina no pecado. Homens bons têm cedido a essa tentação, desde o início da igreja. É mister graça e iluminação espiritual para crermos que nossos pecados são um problema sério aos olhos de Deus, conforme a Bíblia nos diz. Precisamos orar para que Deus nos torne humildes e dispostos a aprender, quando estudamos esse tema.
EM SEGUNDO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado emerge do conhecimento bíblico acerca da santidade de Deus, conhecimento esse que anda muito escasso em nossos dias. O pecado só pode ser devidamente compreendido pelo lado de dentro, conforme o achamos e nós mesmos.
Tal como Isaías no templo, só começamos a perceber o pecado em nós quando no defrontamos conscientemente com o Deus Santo (Is 6.3-5). No cristianismo moderno, embora os conceitos da boa vontade e da compaixão de Deus muito signifiquem, pouco significam os conceitos acerca da sua santidade e da sua impureza. O fermento do cristão liberal na nossa herança, somando ao indiferentismo moral de nossa cultura, mas a nossa insensível apatia e desinteresse para com as coisas espirituais combinaram-se para suprimir o senso de santidade de Deus. Os escritores realmente autorizados a falar sobre o pecado - o próprio Isaías, Amós, Oséias, Jeremias, Ezequiel, Paulo, João, Agostinho, Lutero, João Calvino, John Owen, Thomas Goodwin, Jonathan Edwards... comunicaram um senso tão poderoso da santa presença de Deus que quase chega a ser tangível. Visto que a sentiam tanto, puderam compartilha-la conosco. Mas, a maioria de nós hoje não tem o conhecimento eu eles tinham do pecado, pois que também não temos a consciência que eles tinham da presença de Deus.
EM TERCEIRO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado tem sido secularizada nos tempos modernos. As pessoas continuam a falar sobre o , mas não mais meditam sobre ele de maneira teológica. O termo “pecado” tem deixado de transmitir a idéia de uma ofensa contra Deus e agora indica apenas uma quebra dos padrões aceitáveis de decência, particularmente nas questões sexuais. Porém, quando a Bíblia fala sobre o pecado, refere-se a ele precisamente como uma ofensa contra Deus. Embora o pecado seja cometido pelo homem, e com freqüência contra a sociedade, ele não pode se definido em termos do homem ou da sociedade. Jamais compreenderemos o que o pecado realmente é, enquanto não aprendemos a pensar nele em termos de nosso relacionamento com Deus.
NATUREZA DO PECADO
Os termos que nossa Bíblia traduz por “pecado”, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, significam ou errar o alvo, ou falhar em alcançar um padrão, ou falhar em obedecer uma autoridade. Seja o padrão inalcançado, o alvo não atingido, a vereda abandonada, a lei transgredida ou a autoridade desafiada, em cada caso é o homem contra Deus. O pecado é medido à luz de Deus e sua vontade. O pecado é desviar-se do caminho que Deus determinou (Ex 32.8), pra um caminho proibido, um caminho de própria escolha (Is 53.6). o pecado consiste em andar contrariamente a Deus, retroceder para longe de Deus, voltar as costas para Deus, desafiar e ignorar Deus.
Em termos positivos, qual é a essência do pecado? BRINCAR DE DEUS. E, como um meio para tanto, recusar-se a permitir que o Criador seja Deus, até onde estiver envolvido aquele que assim agir. A atitude que é a essência do pecado consiste em viver, não para Deus, mas para si mesmo; amar, servir, e agradar a si mesmo, sem importar-se com o Criador. Consiste em tentar ser tão independente de Deus quanto possível, colocando-se fora do alcance de sua mão, mantendo-O afastado, consevando as rédeas da vida em suas próprias mãos, agindo como a própria pessoa e os seus prazeres fossem a finalidade para a qual as demais coisas, incluindo Deus, existissem. O pecado é a exaltação de si mesmo contra o Criador, evitando prestar a homenagem que Lhe é devida e pondo-se no lugar dEle como padrão final de referência, em todas as decisões da vida. Agostinho analisou o pecado como orgulho (superbia"), aquela louca paixão de ser superior até mesmo a Deus, como um estado de espírito afastado de Deus para uma atitude de auto-absorção ( Homo incurvatus in se). Assim, o pecado é a imagem do diabo, pois o orgulho outro-exaltado foi o sei pecado antes que se tornasse o nosso (1Tm 3.6).
Todos esses elementos estavam embrionariamente contidos no primeiro pecado humano, que consistiu em entregar-se à tantação de ser "como Deus" (Gn 3.5). Paulo nos mostra que o pecado começou quando os homens, "tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças" (Rm 1.21). Ele mesmo nos oferece a mais precisa análise do espírito do pecado contida na Bíblia, ao dizer que "o pendor da carne (a mente e o coração do pecador não-regenerado) é inimizade contra Deus" (Rm 8.7) - descontentamento para com o seu governo, ressentimento contra suas reivindicações e hostilidade para com sua Palavra; tudo expresso por meio da teterminação fixa e inalterável de seguir a sua própria independência, em desafio ao Criador. O substantivo abstrato "inimizade" intensifica a idéia, como se Paulo houvesse dito "essencia da inimizade", ou então "inimizade pura".
Dessa atitude de autodeificação brotam atos de autodeterminação contra Deus e nossos semelhantes: atos de irreligiosidade, no primeiro caso; atos de desumanidade, no segundo caso. Um ser que desprezou o primeiro grande mandamento - amarás a Deus com todas as tuas forças - dificilmente poderia mostrar muito respeito para com o segundo - amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Disso deriva-se o espírito do pecado, que destroça as relações entre o homem e o seu Criador e também destrói a sociedade humana. Paulo nos apresenta três formas características em que essa ação destruidora se manifesta (Rm 1.26-31; Gl 5.19-21 e 2Tm 3.2-4).
J. I. Packer
O PECADO É UM TEMA vital e precisamos tomar conhecimento dele. Dizer que a nossa necessidade primária na vida é conhecimento sobre o pecado, pode soar estranho, mas no sentido tencionado, expressa uma profunda verdade. É necessário fixar em nossas mentes, ter idéias “claras sobre o pecado”
Isso porém não é tarefa fácil, pelo menos por três razões.
EM PRIMEIRO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado não lisonjeia; e, naturalmente, mostramos aversão a qualquer opinião a nosso respeito que nos seja desfavorável. O nosso instinto de autodesculpa é muito forte, sendo ele mesmo produto do pecado (Gn 3.12,13). Deriva-se daí a tentação de suavizarmos a doutrina no pecado. Homens bons têm cedido a essa tentação, desde o início da igreja. É mister graça e iluminação espiritual para crermos que nossos pecados são um problema sério aos olhos de Deus, conforme a Bíblia nos diz. Precisamos orar para que Deus nos torne humildes e dispostos a aprender, quando estudamos esse tema.
EM SEGUNDO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado emerge do conhecimento bíblico acerca da santidade de Deus, conhecimento esse que anda muito escasso em nossos dias. O pecado só pode ser devidamente compreendido pelo lado de dentro, conforme o achamos e nós mesmos.
Tal como Isaías no templo, só começamos a perceber o pecado em nós quando no defrontamos conscientemente com o Deus Santo (Is 6.3-5). No cristianismo moderno, embora os conceitos da boa vontade e da compaixão de Deus muito signifiquem, pouco significam os conceitos acerca da sua santidade e da sua impureza. O fermento do cristão liberal na nossa herança, somando ao indiferentismo moral de nossa cultura, mas a nossa insensível apatia e desinteresse para com as coisas espirituais combinaram-se para suprimir o senso de santidade de Deus. Os escritores realmente autorizados a falar sobre o pecado - o próprio Isaías, Amós, Oséias, Jeremias, Ezequiel, Paulo, João, Agostinho, Lutero, João Calvino, John Owen, Thomas Goodwin, Jonathan Edwards... comunicaram um senso tão poderoso da santa presença de Deus que quase chega a ser tangível. Visto que a sentiam tanto, puderam compartilha-la conosco. Mas, a maioria de nós hoje não tem o conhecimento eu eles tinham do pecado, pois que também não temos a consciência que eles tinham da presença de Deus.
EM TERCEIRO LUGAR, a doutrina bíblica do pecado tem sido secularizada nos tempos modernos. As pessoas continuam a falar sobre o , mas não mais meditam sobre ele de maneira teológica. O termo “pecado” tem deixado de transmitir a idéia de uma ofensa contra Deus e agora indica apenas uma quebra dos padrões aceitáveis de decência, particularmente nas questões sexuais. Porém, quando a Bíblia fala sobre o pecado, refere-se a ele precisamente como uma ofensa contra Deus. Embora o pecado seja cometido pelo homem, e com freqüência contra a sociedade, ele não pode se definido em termos do homem ou da sociedade. Jamais compreenderemos o que o pecado realmente é, enquanto não aprendemos a pensar nele em termos de nosso relacionamento com Deus.
NATUREZA DO PECADO
Os termos que nossa Bíblia traduz por “pecado”, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, significam ou errar o alvo, ou falhar em alcançar um padrão, ou falhar em obedecer uma autoridade. Seja o padrão inalcançado, o alvo não atingido, a vereda abandonada, a lei transgredida ou a autoridade desafiada, em cada caso é o homem contra Deus. O pecado é medido à luz de Deus e sua vontade. O pecado é desviar-se do caminho que Deus determinou (Ex 32.8), pra um caminho proibido, um caminho de própria escolha (Is 53.6). o pecado consiste em andar contrariamente a Deus, retroceder para longe de Deus, voltar as costas para Deus, desafiar e ignorar Deus.
Em termos positivos, qual é a essência do pecado? BRINCAR DE DEUS. E, como um meio para tanto, recusar-se a permitir que o Criador seja Deus, até onde estiver envolvido aquele que assim agir. A atitude que é a essência do pecado consiste em viver, não para Deus, mas para si mesmo; amar, servir, e agradar a si mesmo, sem importar-se com o Criador. Consiste em tentar ser tão independente de Deus quanto possível, colocando-se fora do alcance de sua mão, mantendo-O afastado, consevando as rédeas da vida em suas próprias mãos, agindo como a própria pessoa e os seus prazeres fossem a finalidade para a qual as demais coisas, incluindo Deus, existissem. O pecado é a exaltação de si mesmo contra o Criador, evitando prestar a homenagem que Lhe é devida e pondo-se no lugar dEle como padrão final de referência, em todas as decisões da vida. Agostinho analisou o pecado como orgulho (superbia"), aquela louca paixão de ser superior até mesmo a Deus, como um estado de espírito afastado de Deus para uma atitude de auto-absorção ( Homo incurvatus in se). Assim, o pecado é a imagem do diabo, pois o orgulho outro-exaltado foi o sei pecado antes que se tornasse o nosso (1Tm 3.6).
Todos esses elementos estavam embrionariamente contidos no primeiro pecado humano, que consistiu em entregar-se à tantação de ser "como Deus" (Gn 3.5). Paulo nos mostra que o pecado começou quando os homens, "tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças" (Rm 1.21). Ele mesmo nos oferece a mais precisa análise do espírito do pecado contida na Bíblia, ao dizer que "o pendor da carne (a mente e o coração do pecador não-regenerado) é inimizade contra Deus" (Rm 8.7) - descontentamento para com o seu governo, ressentimento contra suas reivindicações e hostilidade para com sua Palavra; tudo expresso por meio da teterminação fixa e inalterável de seguir a sua própria independência, em desafio ao Criador. O substantivo abstrato "inimizade" intensifica a idéia, como se Paulo houvesse dito "essencia da inimizade", ou então "inimizade pura".
Dessa atitude de autodeificação brotam atos de autodeterminação contra Deus e nossos semelhantes: atos de irreligiosidade, no primeiro caso; atos de desumanidade, no segundo caso. Um ser que desprezou o primeiro grande mandamento - amarás a Deus com todas as tuas forças - dificilmente poderia mostrar muito respeito para com o segundo - amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Disso deriva-se o espírito do pecado, que destroça as relações entre o homem e o seu Criador e também destrói a sociedade humana. Paulo nos apresenta três formas características em que essa ação destruidora se manifesta (Rm 1.26-31; Gl 5.19-21 e 2Tm 3.2-4).
J. I. Packer
Terça-feira, Setembro 19, 2006
A Presciência de Deus
Que controvérsias têm sido engendradas por este assunto no passado! Mas que verdade das Escrituras Sagradas existe que não se tenha tornado em ocasião para batalhas teológicas e eclesiásticas? A deidade de Cristo, Seu nascimento virginal, Sua morte expiatória, Seu segundo advento; a justificação do crente, sua santificação, sua segurança; a Igreja, sua organização, oficiais e disciplina; o batismo, a ceia do Senhor, e uma porção doutras preciosas verdades que poderiam ser mencionadas. Contudo, as controvérsias sustentadas não fecharam a boca dos fiéis servos de Deus; então, por que deveríamos evitar a disputada questão da presciência de Deus porque, com efeito, há alguns que nos acusarão de fomentar contendas? Que outros se envolvam em contendas, se quiserem; nosso dever é dar testemunho segundo a luz a nós concedida.
Há duas coisas referentes à presciência de Deus que muitos ignoram: o significado do termo e o seu escopo bíblico. Visto que esta ignorância é tão amplamente generalizada, é fácil aos pregadores e mestres impingir perversões deste assunto, até mesmo ao povo de Deus. Só há uma salvaguarda contra o erro: estar firme na fé. Para isso, é preciso fazer devoto e diligente estudo, e receber com singeleza a Palavra de Deus infundida. Só então ficamos fortalecidos contra as investidas dos que nos atacam. Hoje em dia existem os que fazem mau uso desta verdade, com o fim de desacreditar e negar a absoluta soberania de Deus na salvação dos pecadores. Assim como os seguidores da alta crítica repudiam a divina inspiração das Escrituras e os evolucionistas a obra de Deus na criação, alguns mestres pseudo-bíblicos andam pervertendo a presciência de Deus com o fim de pôr de lado a Sua incondicional eleição para a vida eterna.
Quando se expõe o solene e bendito tema da preordenação divina, e o da eterna escolha feita por Deus de algumas pessoas para serem amoldadas à imagem do Seu Filho, o diabo envia alguém para argumentar que a eleição se baseia na presciência de Deus, e esta “presciência” é interpretada no sentido de que Deus previu que alguns seriam mais dóceis que outros, que responderiam mais prontamente aos esforços do Espírito e que, visto que Deus sabia que eles creriam , por conseguinte, predestinou-os para a salvação. Mas tal declaração é radicalmente errônea. Repudia a verdade da depravação total, pois defende que há algo bom em alguns homens, Tira a independência de Deus, pois faz com que os Seus decretos se apóiem naquilo que Ele descobre na criatura. Vira completamente ao avesso as coisas, porquanto ao dizer que Deus previu que certos pecadores creriam em Cristo e, por isso, predestinou-os para a salvação, é o inverso da verdade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e, portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa , e a nossa fé em Cristo, o efeito .
Antes de continuar discorrendo sobre este tema, tão erroneamente interpretado, façamos uma pausa para definir os nossos termos. Que se quer dizer por “presciência”? “Conhecer de antemão”, é a pronta resposta de muitos. Mas não devemos tirar conclusões precipitadas, nem tampouco apelar para o dicionário do vernáculo como o supremo tribunal de recursos, pois não se trata de uma questão de etimologia do termo empregado. O que é preciso é descobrir como a palavra é empregada nas Escrituras. O emprego que o Espírito Santo faz de uma expressão sempre define o seu significado e escopo. Deixar de aplicar esta regra simples tem causado muita confusão e erro. Muitíssimas pessoas presumem que já sabem o sentido de certa palavra empregada nas Escrituras, pelo que negligenciam provar as suas pressuposições por meio de uma concordância. Ampliemos este ponto.
Tomemos a palavra “carne”. Seu significado parece tão óbvio, que muitos achariam perda de tempo examinar as suas várias significações nas Escrituras. Depressa se presume que a palavra é sinônima de corpo físico e, assim, não se faz pesquisa nenhuma. Mas, de fato, nas Escrituras “carne” muitas vezes inclui muito mais que a idéia de corpo. Tudo que o termo abrange, só pode ser verificado por uma diligente comparação de cada passagem em que ocorre e pelo estudo de cada contexto, separadamente.
Tomemos a palavra “mundo”. O leitor comum da Bíblia imagina que esta palavra equivale a “raça humana” e, conseqüentemente, muitas passagens que contêm o termo são interpretadas erroneamente. Tomemos a palavra “imortalidade”. Certamente esta não requer estudo! É óbvio que se refere à indestrutibilidade da alma. Ah, meu leitor, é uma tolice e um erro fazer qualquer suposição, quando se trata da Palavra de Deus. Se o leitor se der ao trabalho de examinar cuidadosamente cada passagem em que se acham “mortal” e “imortal”, verá que estas palavras nunca são aplicadas à alma, porém sempre ao corpo.
Pois bem, o que acabamos de dizer sobre “carne”, “mundo”, e “imortalidade”, aplica-se com igual força aos termos “conhecer” e “pré-conhecer”. Em vez de imaginar que estas palavras não significam mais que simples cognição, é preciso ver que as diferentes passagens em que elas ocorrem exigem ponderado e cuidadoso exame. A palavra “presciência” (pré-conhecimento) não se acha no Velho Testamento. Mas “conhecer” (ou “saber”) ocorre ali muitas vezes. Quando esse termo é empregado com referência a Deus, com freqüência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas sim afeição pelo objeto em vista. “... te conheço por nome” (Êxodo 33:17). “Rebeldes fostes contra o Senhor desde o dia em que vos conheci ” (Deuteronômio 9:24). “Antes que te formasse no ventre te conheci ... “ (Jeremias 1:5). “... constituíram príncipes, mas eu não o soube ...” (Oséias 8:4). “De todas as famílias da terra a vós somente conheci ...” (Amos 3:2). Nestas passagens, “conheci” significa amei ou designei .
Assim também a palavra “conhecer” é empregada muitas vezes no Novo Testamento no mesmo sentido do Velho Testamento. “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci ...” (Mateus 7:23). “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido ” (João 10:14). “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Coríntios 8:3). “... o Senhor conhece os que são seus...” (2 Timóteo 2:19).
Pois bem, a palavra “presciência”, como é empregada no Novo Testamento, é menos ambígua que a sua forma simples, “conhecer”. Se cada passagem em que ela ocorre for estudada cuidadosamente, ver-se-á que é discutível se alguma vez se refere apenas à percepção de eventos que ainda estão por acontecer. O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas . Pessoas é que Deus declara que “de antemão conheceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas. Para provar isto, citaremos agora cada uma das passagens em que se acha esta expressão ou sua equivalente.
A primeira é Atos 2:23. Lemos ali: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Se se der cuidadosa atenção à terminologia deste versículo, ver-se-á que o apóstolo não estava falando do conhecimento antecipado que Deus tinha do ato da crucificação, mas sim da Pessoa crucificada: “A este (Cristo) que vos foi entregue”, etc.
A segunda é Romanos 8:29-30. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho; a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou”, etc. Considere-se bem o pronome aqui empregado. Não se refere a algo , mas a pessoas , que ele conheceu, de antemão. O que se tem em vista não é a submissão da vontade, nem a fé do coração, mas as pessoas mesmas .
“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu...” (Romanos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas, e somente a pessoas.
A última citação é de 1 Pedro 1:2: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai...” Quem são “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, a Diáspora, a Dispersão, os judeus crentes. Portanto, aqui também a referência é a pessoas, e não aos seus atos previstos.
Ora, em vista destas passagens (e não há outras mais), que base bíblica há para alguém dizer que Deus “pré-conheceu” os atos de certas pessoas, a saber, o seu “arrependimento e fé”, e que devido a esses atos Ele as elegeu para a salvação? A resposta é: absolutamente nenhuma. As Escrituras nunca falam de arrependimento e fé como tendo sido previsto ou pré-conhecido por Deus. Na verdade, Ele sabia desde toda a eternidade que certas pessoas se arrependeriam e creriam ; entretanto, não é a isto que as Escrituras se referem como objeto da “presciência” de Deus. Esta palavra se refere uniformemente ao pré-conhecimento de pessoas; portanto, conservemos “... o modelo das sãs palavras. . .” (2 Timóteo 1:13).
Outra coisa para a qual desejamos chamar particularmente a atenção é que as duas primeiras passagens acima citadas mostram com clareza e ensinam implicitamente que a “presciência” de Deus não é causativa , pelo contrário, alguma outra realidade está por trás dela e a precede, e essa realidade é o Seu decreto soberano . Cristo “... foi entregue pelo (1) determinado conselho e (2) presciência de Deus” (Atos 2:23). Seu “conselho” ou decreto foi a base da Sua presciência. Assim também em Romanos 8:29. Esse versículo começa com a palavra “porque”, conjunção que nos leva a examinar o que o precede imediatamente. E o que diz o versículo anterior? “... todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles... que são chamados por seu decreto”. Assim é que a “presciência” de Deus baseia-se em Seu decreto (ver Salmo 2:7).
Deus conhece de antemão o que será porque Ele decretou o que há de ser . Portanto, afirmar que Deus elege pessoas porque as pré-conhece é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta: Ele as “pré-conhece” porque as elegeu . Isto retira da criatura a base ou causa da eleição, e a coloca na soberana vontade de Deus. Deus Se propôs eleger certas pessoas, não por haver nelas ou por proceder delas alguma coisa boa, quer concretizada quer prevista, mas unicamente por Seu beneplácito. Quanto ao por que Ele escolheu os que escolheu, não sabemos, e só podemos dizer: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus li :26). A verdade patente em Romanos 8:29 é que Deus, antes da fundação do mundo, elegeu certos pecadores e os destinou para a salvação (2 Tessalonicenses 2:13). Isto se vê com clareza nas palavras finais do versículo: “... os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”, etc. Deus não predestinou aqueles que “dantes conheceu” sabendo que eram “conformes”, mas, ao contrário, aqueles que Ele “dantes conheceu” (isto é, que Ele amou e elegeu), “predestinou para serem conformes”. Sua conformidade a Cristo não é a causa, mas o efeito da presciência e predestinação divina.
Deus não elegeu nenhum pecador porque previu que creria, pela razão simples, mas suficiente, de que nenhum pecador jamais crê enquanto Deus não lhe dá fé; exatamente como nenhum homem pode ver antes que Deus lhe dê a vista. A vista é dom de Deus, e ver é a conseqüência do uso do Seu dom. Assim também a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9), e crer é a conseqüência do uso deste Seu dom. Se fosse verdade que Deus elegeu alguns para serem salvos porque no devido tempo eles creriam, isso tornaria o ato de crer num ato meritório e, nesse caso, o pecador salvo teria motivo para gloriar-se, o que as Escrituras negam enfaticamente (veja Efésios 2:9).
Certamente a Palavra de Deus é bastante clara ao ensinar que crer não é um ato meritório. Afirma ela que os cristãos vieram a crer “pela graça” (Atos 18:27). Se, pois, eles vieram a crer “pela graça”, absolutamente não há nada de meritório em “crer”, e, se não há nada de meritório nisso, não poderia ser o motivo ou causa que levou Deus a escolhê-los. Não; a escolha feita por Deus não procede de coisa nenhuma existente em nós , ou que de nós provenha, mas unicamente da Sua soberana boa vontade.
Mais uma vez, em Romanos 11:5 lemos sobre “... um resto, segundo a eleição da graça”. Eis aí, suficientemente claro; a eleição mesma é “da graça”, e a graça é favor imerecido , coisa a que não tínhamos direito nenhum diante de Deus.
Vê-se, pois, como é importante para nós, termos idéias claras e bíblicas sobre a “presciência” de Deus. Os conceitos errôneos sobre ela, inevitavelmente levam a idéias que desonram em extremo a Deus. A noção popular da presciência divina é inteiramente inadequada. Deus não somente conheceu o fim desde o princípio, mas planejou, fixou, predestinou tudo desde o princípio. E, como a causa está ligada ao efeito, assim o propósito de Deus é o fundamento da Sua presciência. Se, pois, o leitor é um cristão verdadeiro, é porque Deus o escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), e o fez não porque previu que você creria , mas simplesmente porque Lhe agradou fazê-lo; você foi escolhido apesar da tua incredulidade natural. Sendo assim, toda a glória e louvor pertence a Deus somente. Você não tem base nenhuma para arrogar-se crédito algum. Você creu “pela graça” (Atos 15:27), e isso porque a tua própria eleição foi “da graça” (Romanos 11:5).
A. W. Pink
Há duas coisas referentes à presciência de Deus que muitos ignoram: o significado do termo e o seu escopo bíblico. Visto que esta ignorância é tão amplamente generalizada, é fácil aos pregadores e mestres impingir perversões deste assunto, até mesmo ao povo de Deus. Só há uma salvaguarda contra o erro: estar firme na fé. Para isso, é preciso fazer devoto e diligente estudo, e receber com singeleza a Palavra de Deus infundida. Só então ficamos fortalecidos contra as investidas dos que nos atacam. Hoje em dia existem os que fazem mau uso desta verdade, com o fim de desacreditar e negar a absoluta soberania de Deus na salvação dos pecadores. Assim como os seguidores da alta crítica repudiam a divina inspiração das Escrituras e os evolucionistas a obra de Deus na criação, alguns mestres pseudo-bíblicos andam pervertendo a presciência de Deus com o fim de pôr de lado a Sua incondicional eleição para a vida eterna.
Quando se expõe o solene e bendito tema da preordenação divina, e o da eterna escolha feita por Deus de algumas pessoas para serem amoldadas à imagem do Seu Filho, o diabo envia alguém para argumentar que a eleição se baseia na presciência de Deus, e esta “presciência” é interpretada no sentido de que Deus previu que alguns seriam mais dóceis que outros, que responderiam mais prontamente aos esforços do Espírito e que, visto que Deus sabia que eles creriam , por conseguinte, predestinou-os para a salvação. Mas tal declaração é radicalmente errônea. Repudia a verdade da depravação total, pois defende que há algo bom em alguns homens, Tira a independência de Deus, pois faz com que os Seus decretos se apóiem naquilo que Ele descobre na criatura. Vira completamente ao avesso as coisas, porquanto ao dizer que Deus previu que certos pecadores creriam em Cristo e, por isso, predestinou-os para a salvação, é o inverso da verdade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e, portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa , e a nossa fé em Cristo, o efeito .
Antes de continuar discorrendo sobre este tema, tão erroneamente interpretado, façamos uma pausa para definir os nossos termos. Que se quer dizer por “presciência”? “Conhecer de antemão”, é a pronta resposta de muitos. Mas não devemos tirar conclusões precipitadas, nem tampouco apelar para o dicionário do vernáculo como o supremo tribunal de recursos, pois não se trata de uma questão de etimologia do termo empregado. O que é preciso é descobrir como a palavra é empregada nas Escrituras. O emprego que o Espírito Santo faz de uma expressão sempre define o seu significado e escopo. Deixar de aplicar esta regra simples tem causado muita confusão e erro. Muitíssimas pessoas presumem que já sabem o sentido de certa palavra empregada nas Escrituras, pelo que negligenciam provar as suas pressuposições por meio de uma concordância. Ampliemos este ponto.
Tomemos a palavra “carne”. Seu significado parece tão óbvio, que muitos achariam perda de tempo examinar as suas várias significações nas Escrituras. Depressa se presume que a palavra é sinônima de corpo físico e, assim, não se faz pesquisa nenhuma. Mas, de fato, nas Escrituras “carne” muitas vezes inclui muito mais que a idéia de corpo. Tudo que o termo abrange, só pode ser verificado por uma diligente comparação de cada passagem em que ocorre e pelo estudo de cada contexto, separadamente.
Tomemos a palavra “mundo”. O leitor comum da Bíblia imagina que esta palavra equivale a “raça humana” e, conseqüentemente, muitas passagens que contêm o termo são interpretadas erroneamente. Tomemos a palavra “imortalidade”. Certamente esta não requer estudo! É óbvio que se refere à indestrutibilidade da alma. Ah, meu leitor, é uma tolice e um erro fazer qualquer suposição, quando se trata da Palavra de Deus. Se o leitor se der ao trabalho de examinar cuidadosamente cada passagem em que se acham “mortal” e “imortal”, verá que estas palavras nunca são aplicadas à alma, porém sempre ao corpo.
Pois bem, o que acabamos de dizer sobre “carne”, “mundo”, e “imortalidade”, aplica-se com igual força aos termos “conhecer” e “pré-conhecer”. Em vez de imaginar que estas palavras não significam mais que simples cognição, é preciso ver que as diferentes passagens em que elas ocorrem exigem ponderado e cuidadoso exame. A palavra “presciência” (pré-conhecimento) não se acha no Velho Testamento. Mas “conhecer” (ou “saber”) ocorre ali muitas vezes. Quando esse termo é empregado com referência a Deus, com freqüência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas sim afeição pelo objeto em vista. “... te conheço por nome” (Êxodo 33:17). “Rebeldes fostes contra o Senhor desde o dia em que vos conheci ” (Deuteronômio 9:24). “Antes que te formasse no ventre te conheci ... “ (Jeremias 1:5). “... constituíram príncipes, mas eu não o soube ...” (Oséias 8:4). “De todas as famílias da terra a vós somente conheci ...” (Amos 3:2). Nestas passagens, “conheci” significa amei ou designei .
Assim também a palavra “conhecer” é empregada muitas vezes no Novo Testamento no mesmo sentido do Velho Testamento. “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci ...” (Mateus 7:23). “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido ” (João 10:14). “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Coríntios 8:3). “... o Senhor conhece os que são seus...” (2 Timóteo 2:19).
Pois bem, a palavra “presciência”, como é empregada no Novo Testamento, é menos ambígua que a sua forma simples, “conhecer”. Se cada passagem em que ela ocorre for estudada cuidadosamente, ver-se-á que é discutível se alguma vez se refere apenas à percepção de eventos que ainda estão por acontecer. O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas . Pessoas é que Deus declara que “de antemão conheceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas. Para provar isto, citaremos agora cada uma das passagens em que se acha esta expressão ou sua equivalente.
A primeira é Atos 2:23. Lemos ali: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Se se der cuidadosa atenção à terminologia deste versículo, ver-se-á que o apóstolo não estava falando do conhecimento antecipado que Deus tinha do ato da crucificação, mas sim da Pessoa crucificada: “A este (Cristo) que vos foi entregue”, etc.
A segunda é Romanos 8:29-30. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho; a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou”, etc. Considere-se bem o pronome aqui empregado. Não se refere a algo , mas a pessoas , que ele conheceu, de antemão. O que se tem em vista não é a submissão da vontade, nem a fé do coração, mas as pessoas mesmas .
“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu...” (Romanos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas, e somente a pessoas.
A última citação é de 1 Pedro 1:2: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai...” Quem são “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, a Diáspora, a Dispersão, os judeus crentes. Portanto, aqui também a referência é a pessoas, e não aos seus atos previstos.
Ora, em vista destas passagens (e não há outras mais), que base bíblica há para alguém dizer que Deus “pré-conheceu” os atos de certas pessoas, a saber, o seu “arrependimento e fé”, e que devido a esses atos Ele as elegeu para a salvação? A resposta é: absolutamente nenhuma. As Escrituras nunca falam de arrependimento e fé como tendo sido previsto ou pré-conhecido por Deus. Na verdade, Ele sabia desde toda a eternidade que certas pessoas se arrependeriam e creriam ; entretanto, não é a isto que as Escrituras se referem como objeto da “presciência” de Deus. Esta palavra se refere uniformemente ao pré-conhecimento de pessoas; portanto, conservemos “... o modelo das sãs palavras. . .” (2 Timóteo 1:13).
Outra coisa para a qual desejamos chamar particularmente a atenção é que as duas primeiras passagens acima citadas mostram com clareza e ensinam implicitamente que a “presciência” de Deus não é causativa , pelo contrário, alguma outra realidade está por trás dela e a precede, e essa realidade é o Seu decreto soberano . Cristo “... foi entregue pelo (1) determinado conselho e (2) presciência de Deus” (Atos 2:23). Seu “conselho” ou decreto foi a base da Sua presciência. Assim também em Romanos 8:29. Esse versículo começa com a palavra “porque”, conjunção que nos leva a examinar o que o precede imediatamente. E o que diz o versículo anterior? “... todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles... que são chamados por seu decreto”. Assim é que a “presciência” de Deus baseia-se em Seu decreto (ver Salmo 2:7).
Deus conhece de antemão o que será porque Ele decretou o que há de ser . Portanto, afirmar que Deus elege pessoas porque as pré-conhece é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta: Ele as “pré-conhece” porque as elegeu . Isto retira da criatura a base ou causa da eleição, e a coloca na soberana vontade de Deus. Deus Se propôs eleger certas pessoas, não por haver nelas ou por proceder delas alguma coisa boa, quer concretizada quer prevista, mas unicamente por Seu beneplácito. Quanto ao por que Ele escolheu os que escolheu, não sabemos, e só podemos dizer: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus li :26). A verdade patente em Romanos 8:29 é que Deus, antes da fundação do mundo, elegeu certos pecadores e os destinou para a salvação (2 Tessalonicenses 2:13). Isto se vê com clareza nas palavras finais do versículo: “... os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”, etc. Deus não predestinou aqueles que “dantes conheceu” sabendo que eram “conformes”, mas, ao contrário, aqueles que Ele “dantes conheceu” (isto é, que Ele amou e elegeu), “predestinou para serem conformes”. Sua conformidade a Cristo não é a causa, mas o efeito da presciência e predestinação divina.
Deus não elegeu nenhum pecador porque previu que creria, pela razão simples, mas suficiente, de que nenhum pecador jamais crê enquanto Deus não lhe dá fé; exatamente como nenhum homem pode ver antes que Deus lhe dê a vista. A vista é dom de Deus, e ver é a conseqüência do uso do Seu dom. Assim também a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9), e crer é a conseqüência do uso deste Seu dom. Se fosse verdade que Deus elegeu alguns para serem salvos porque no devido tempo eles creriam, isso tornaria o ato de crer num ato meritório e, nesse caso, o pecador salvo teria motivo para gloriar-se, o que as Escrituras negam enfaticamente (veja Efésios 2:9).
Certamente a Palavra de Deus é bastante clara ao ensinar que crer não é um ato meritório. Afirma ela que os cristãos vieram a crer “pela graça” (Atos 18:27). Se, pois, eles vieram a crer “pela graça”, absolutamente não há nada de meritório em “crer”, e, se não há nada de meritório nisso, não poderia ser o motivo ou causa que levou Deus a escolhê-los. Não; a escolha feita por Deus não procede de coisa nenhuma existente em nós , ou que de nós provenha, mas unicamente da Sua soberana boa vontade.
Mais uma vez, em Romanos 11:5 lemos sobre “... um resto, segundo a eleição da graça”. Eis aí, suficientemente claro; a eleição mesma é “da graça”, e a graça é favor imerecido , coisa a que não tínhamos direito nenhum diante de Deus.
Vê-se, pois, como é importante para nós, termos idéias claras e bíblicas sobre a “presciência” de Deus. Os conceitos errôneos sobre ela, inevitavelmente levam a idéias que desonram em extremo a Deus. A noção popular da presciência divina é inteiramente inadequada. Deus não somente conheceu o fim desde o princípio, mas planejou, fixou, predestinou tudo desde o princípio. E, como a causa está ligada ao efeito, assim o propósito de Deus é o fundamento da Sua presciência. Se, pois, o leitor é um cristão verdadeiro, é porque Deus o escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), e o fez não porque previu que você creria , mas simplesmente porque Lhe agradou fazê-lo; você foi escolhido apesar da tua incredulidade natural. Sendo assim, toda a glória e louvor pertence a Deus somente. Você não tem base nenhuma para arrogar-se crédito algum. Você creu “pela graça” (Atos 15:27), e isso porque a tua própria eleição foi “da graça” (Romanos 11:5).
A. W. Pink
Sexta-feira, Setembro 15, 2006
A Velha Regra Adâmica - Tozer
TAMANHO É PALAVRA CARACTERÍSTICA DA CRIATURA.
Para Deus a qualidade é imensamente importante, e o tamanho tem pouca importância. Quando postos em oposição mútua, a qualidade é tudo e o tamanho não é nada.
Não é difícil entender isso, visto que tamanho é palavra característica da criatura, e só se aplica a matéria. Tem a ver com dimensão, peso ou número de coisas criadas. Deus não tem tamanho, pela simples razão de que nenhum dos atributos da matéria se aplica a Ele, e tamanho é atributo da matéria.
Atribuir tamanho a Deus é faze-lo sujeito a graus, o que Ele nunca pode ser, visto que a própria idéia de grau relaciona-se unicamente com as coisas criadas. Aquilo que é infinito não pode ser mais ao menos, maior ou menor, e Deus é “Eu Sou o que Sou” é como Ele, em Sua condescendente paciência, explica a inteligência criada o Seu Ser incriado.
Qualidade, no sentido em que usamos aqui a palavra, tem a ver com o ser puro, com o intrínseco, e não admite propriamente grau. Por esta razão podemos atribuir qualidade a Deus, não tamanho, porém.
Deus fez o homem à sua imagem e lhe deu intelecto, emoção e vontade, juntamente com percepções moral e capacidade de conhecer e cultuar a seu Criador. Estes atributos constituem qualidade do ser e diferenciam o homem do mundo que o cerca, e mesmo do seu próprio corpo. Os corpos materiais têm extensão no espaço, peso e forma, mas lhes falta capacidade para pensar, sentir, amar, comover-se, cultuar. Porque lhes falta esta capacidade, e especialmente porque lhes falta o poder da vontade, não possuem qualidades morais e espirituais de nenhuma espécie. E porque não têm estas qualidades, não são nada em si mesmos. Seu único significado é aquele que ocasionalmente lhes pode ser outorgado por Deus ou pelo homem, que Ele fez a sua semelhança.
A queda moral do homem obscureceu a sua visão, confundiu o seu pensamento e o tornou sujeito à ilusão. Uma evidência disso é a sua quase incurável propensão para confundir os valores e pôr o tamanho antes da qualidade em sua apreciação das coisas. A fé cristã inverte esta ordem, mas até os cristãos tendem a julgar as coisas pela velha regra adâmica. QUE TAMANHO? QUANTO? QUANTOS? São as questões levantadas mais freqüentemente pelas pessoas religiosas quando tentam avaliar as coisas cristãs. Isto se faz mediante uma sorte de reflexo inconsciente, porque no mundo da matéria, do movimento , do espaço e do tempo, essas questões têm significação válida. No mundo do espírito nada significam, e, apesar disso, nós as carreamos para dentro do reino de Deus, prova suficiente de que as nossas mentes só foram renovadas imperfeitamente.
Nosso problema é que pensamos como homens. Temos gosta da terra, e não do céu, e a nossa psicologia não é a de Cristo, mas, sim, a de Adão. Todo o tempo insistimos teimosamente em que somos cristãos bíblicos, mas é para vergonha nossa que muitos filósofos pagãos tinham mais inclinação espiritual que nós. Sócrates, Epicteto, Marco Arrelio e muitíssimos mais poderiam apresentar-se para testemunhar contra nós. Foram mais sábios em sua geração destituída da luz do Novo Testamento do que nós a possuímos.
A fé cristã bate-se por um reino espiritual onde a qualidade do ser é tudo. “Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai e espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura pra seus adoradores. Deus é espírito e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Com estas palavras Jesus mostrou como os judeus e os samaritanos estavam extraviados em seus argumentos sobre o lugar próprio para o culto. Nem a beleza de uma cidade, nem o vulto de um monte têm importância para o Pai. Verdade e espírito, e toda a riqueza de qualidades morais que os cercam: estas coisas são o supra-sumo de tudo.
Não é raro encontrar estudantes universitários cuja fé em Cristo foi lamentavelmente abalada por expor-se aos ensinamentos da ciência. Depois de algumas aulas de astronomia e uma olhada pelo telescópio, o seu pulcro e diminuto universo começa a desmoronar-se. A consumada enormidade dos corpos celestes e a imensidão do espaço os oprimem. A Terra é apenas uma pinta microscópica na vastidão do espaço, e o homem nada mais que uma cabeça de alfinete na superfície da Terra, e Deus é algo que está além da mais distante estrela, afastado bilhões de anos-luz – como, pois, poderia Deus fazer-se homem e habitar entre nós? E de que vale o homem, insignificantemente pequeno e de vida pateticamente curta?
Pensar deste jeito é confundir tamanho com qualidade; é pensar de maneira ignóbil do Deus Altíssimo; é identifica-lo com a matéria e fazê-lo servo do tempo e do espaço; é degradar o conceito cristão da Divindade e cair vítima da incredulidade.
A verdade é que uma só alma feita à imagem de Deus Lhe é mais preciosa do que todo o universo repleto de astros.
A astronomia lida com espaço, matéria e movimento; a teologia lida com a vida, a personalidade e o mistério do ser. O corpo do salmista Davi, por exemplo, embora de porte médio, era tão pequeno que podia ter ficado oculto numa fenda das montanhas da Judéia sem nunca ser encontrado, ainda que o procurassem durante mil anos. Tamanho é isso, e não é muito importante. Entretanto, numa hora de inspiração, Davi escreveu o Salmo do Pastor! Qualidade é isso, e quão preciosa é poder-se inferir do som de dez mil vozes contando aquele salmo todos os domingos do ano ao redor do mundo inteiro.
A igreja dedica-se a coisas que importam. Qualidade importa. Não nos deixemos arrastar para fora do rumo pelo tamanho das coisas.
A. W. Tozer
Quinta-feira, Setembro 14, 2006
Duas Naturezas
JESUS CRISTO É INTEIRAMENTE HUMANO
“Muitos enganadores têm saído pelo mundo a fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo” (2Jo 7)
Jesus foi um homem que convenceu os que estavam próximos dele de que Ele era também Deus; portanto, sua condição humana não está em dúvida. A condenação de João daqueles que negavam que “Jesus Cristo veio em carne” (1Jo 4.2,3; 2Jo 7) visava aos docetas, que substituíram a Encarnação pela idéia de que Jesus foi um visitante sobrenatural (na Deus), que parecia humano, mas era realmente uma espécie de fantasma, um mestre que, na realidade, não morre pelos pecados.
Os Evangelhos mostram Jesus experimentando as limitação humanas( fome, Mt 4.2; cansaço, Jô 4.6; ignorância de um fato, Lc 8.45-47). E sofrimento humano (choro junto ao túmulo de Lázaro, Jô 11.35,38; agonia no Getsêmani, Mc 14.32-42; Lc 12.50; Hb 5.7-10; e o sofrimento na cruz).
Hebreus enfatiza que, se Ele não tivesse experimentado as aflições humanas – fraqueza, tentação, sofrimento – Ele não estaria qualificado para ajudar-nos quando passamos pr essas coisas (Hb 2.17,18; 4.15,16; 5.2,7-9). Nestas circunstâncias, sua experiência humana é de modo a garantir que, em qualquer momento de pretensão ou premência em nossa relação e caminhada com Deus, podemos ir a Ele, confiantes de que de alguma maneira Ele esteve lá antes de nós, sendo assim o ajudador de que necessitamos.
Os cristãos, focalizando a divindade de Jesus, têm às vezes pensado que minimizar sua humanidade é honra-lo. A primitiva heresia do monofisismo (idéia de que Jesus tinha somente uma natureza ) expressa esta suposição, como fazem as modernas deduções de que Ele apenas fingiu ser ignorante de fatos (na suposição de que Ele utilizava sua onisciência e, portanto, estava ciente de todas as coisas), e estar com fome e cansado (na suposição de que sua divindade sobrenaturalmente nutria de forças sua humanidade todo o tempo, colocando-o acima das demandas da existência comum). Mas a Encarnação significa, antes, que o Filho de Deus viveu sua vida divino-humana em e através de sua mente e corpo humanos em todos os aspectos, maximizando sua identificação e empatia com aqueles que Ele viera salvar, e lançando mão dos recursos divinos para transcender os limites humanos de conhecimento e energia somente quando exigências particulares da vontade do Pai assim o requeressem.
A idéia de que as duas naturezas de Jesus eram como circuitos elétricos alternados, de sorte que algumas vezes Ele agia em sua humanidade e algumas vezes em sua divindade, é também equivocada. Ele realizou e suportou todas as coisas, incluindo seus sofrimentos na cruz, na unidade de sua pessoa divino-humana (isto é, como Filho de Deus que havia tomado para si todos os poderes humanos de agir, reagir e experimentar, em sua forma não decaída). Dizer isto não contradiz a impassibilidade divina, pois impassibilidade não significa que Deus nunca experimentou angústia, mas que o que Ele experimenta, angústia inclusive, é experimentado por sua própria vontade e por sua própria decisão predeterminada.
Jesus, sendo divino, era impecável (não podia pecar), mas isto não quer dizer que Ele não podia ser tentado. Satanás tentou-o a desobedecer ao pai por auto-gratificação , auto-exibição e auto-glorificação (Mt 4.1-11), e a tentação para recuar da cruz foi constante (Lc 22.28; Mt 16.23); e a oração de Jesus no Getsêmani). Sendo humano, Jesus não podia vencer a tentação sem luta, mas, sendo divino, era sua natureza fazer a vontade do Pai (Jo 5.19,30) e, portanto, resistir e lutar contra a tentação até vence-la. Do Getsêmani podemos inferir que suas lutas foram bem mais agudas e agônicas do que qualquer outra que possamos imaginar. O final feliz resultante é que “naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso pra socorrer os que são tentados” (Hb 2.18).
J. I. Packer
A Ira de Deus
É triste ver tantos cristãos professos que parecem considerar a ira de Deus como uma coisa pela qual eles precisam pedir desculpas, ou, pelo menos, parece que gostariam que não existisse tal coisa. Conquanto alguns não fossem longe o bastante para admitir abertamente que a consideram uma mancha no caráter divino, contudo, estão longe de vê-la com bons olhos, não gostam de pensar nisso e dificilmente a ouvem mencionada sem que surja em seus corações um ressentimento contra essa idéia. Mesmo dentre os mais sóbrios em sua maneira de julgar, não poucos parecem imaginar que há na questão da ira de Deus uma severidade terrificante demais para propiciar um tema para consideração proveitosa. Outros dão abrigo ao erro de pensar que a ira de Deus não é coerente com a Sua bondade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos.
Sim, muitos há que fogem de visualizar a ira de Deus, como se fossem intimados a ver alguma nódoa no caráter divino, ou algum defeito no governo divino. Mas, o que dizem as Escrituras? Quando a procuramos nelas, vemos que Deus não dez tentativa alguma para ocultar a realidade da Sua ira. Ele não se envergonha de ar a conhecer que a vingança e a cólera Lhe pertencem. Eis o Seu desafio: "Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum Deus comigo; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantei a minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada reluzente, a travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos meus aborrecedores"(Dt.32:39-41). Um estudo na concordância mostrará que há mais referências nas Escrituras à indignação, à cólera e à ira de Deus, do que aos Seu amor e ternura. Porque Deus é santo, ele odeia todo pecado; e porque ele odeia todo pecado, a Sua ira inflama-se contra o pecador. (Sl.7:11).
Pois bem, a ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se Nele não houvesse "ira"! A indiferença para com o pecado é uma nódoa moral, e aquele que não odeia é um leproso moral. Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelência olhar com igual satisfação para a virtude e o vício, para a sabedoria e a estultícia? Como poderia Aquele que é infinitamente santo ficar indiferente ao pecado e negar-Se a manifestar a Sua "severidade"(Rm.11:22) para com ele? Como poderia Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e de odiar o que é impuro e vil? A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão real, um requisito tão imperativo e eterno como o céu o é. Não somente não há imperfeição nenhuma em Deus, mas também não há Nele perfeição que seja menos perfeita do que outra.
A ira de Deus é sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina equidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável. Os insurgentes contra o governo de Deus saberão um dia que Deus é o Senhor. Serão levados a sentir quão grandiosa é aquela Majestade que eles desprezaram, e como é terrível aquela ira de que foram ameaçados e a que não deram a mínima importância. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maldosa e mal intencionada, infligindo agravo só pelo prazer de infligi-lo, ou devolver a ofensa recebida. Não; embora seja verdade que Deus vindicará o domínio como Governador do universo, ele não será revanchista.
Evidencia-se que a ira divina é uma das perfeições de Deus, não somente pelas considerações acima apresentadas, mas também fica estabelecido claramente pelas declarações expressas da Sua Palavra. "Porque do céu manifesta a ira de Deus..."(Rm.1:18). "Manifestou-se quando foi pronunciada a primeira sentença de morte, quando a terra foi amaldiçoada e o homem foi expulso do paraíso terrestre; e depois, mediante castigos exemplares como o dilúvio e a destruição das cidades da planície com fogo do céu, mas, especialmente pelo reinado da morte no mundo todo. Foi proclamada na maldição da lei para cada transgressão, e foi imposta na instituição do sacrifício. No capítulo 8 de romanos, o apóstolo Paulo chama a atenção para o fato de que a criação inteira ficou sujeita à vaidade, e geme e tem dores de parto. A mesma criação que declara que existe um Deus, e publica a Sua glória, também proclama que Ele é inimigo do pecado e o vingador dos crimes dos homens. Acima de tudo, porém, do céu se manifestou a ira de Deus quando o Filho de Deus veio a este mundo para revelar o caráter divino, e quando essa ira foi demostrada nos Seus sofrimentos e morte, de maneira mais terrível do que por todas as provas que Deus antes dera da Sua aversão pela pecado. Além disso, o castigo futuro e eterno dos ímpios agora é declarado em termos mais solenes e explícitos do que antes. Sob a nova dispensação há duas revelações dadas do céu, uma da ira, a outra da graça"(Robert Haldane).
Mais: que a ira de Deus é uma perfeição divina está demostrado claramente pelo que lemos nos Salmo 95:11: "Por isso jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso". Duas sãos as ocasiões em que Deus "jura": quando faz promessas (Gn22:16), e quando faz ameaças(Dt.1:34). Na primeira, jura com misericórdia dos Seus filhos; na Segunda, jura para aterrorizar os ímpios. Um juramento é feito para confirmação: Hb.6:16. Em Gn.22:16 disse Deus: "Por mim mesmo, jurei". NO Sl.89:35 ele declara: "Uma vez jurei por minha santidade". Enquanto que no Sl.95:11 ele afirma: "Jurei na minha ira". Assim é que o grande Jeová pessoalmente recorre à Sua "ira" como a uma perfeição igual à sua "santidade": tanto jura por uma como pela outra! Ainda: como em Cristo "...habita corporalmente toda a plenitude da divindade"(Cl.2:9), e como todas as perfeições divinas são notavelmente manifestadas por Ele (Jo.1:18), por isso lemos sobre "... a ira do Cordeiro"(Ap.6:16).
A ira de Deus é uma perfeição do caráter divino sobre a qual precisamos meditar com freqüência. Primeiro, para que os nosso corações fiquem devidamente impressionados com a ojeriza de Deus pelo pecado. Estamos sempre inclinados a uma consideração superficial do pecado, a encobrir a sua fealdade, a desculpá-lo com escusas várias. Mas, quanto mais estudarmos e ponderarmos a aversão de Deus pelo pecado e a maneira terrível como se vinga dele, mais probabilidade teremos de compreender quão horrível é o pecado. Segundo, para produzir em nossas almas um verdadeiro temor de Deus: "... retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade ("santo temos"); porque o nosso Deus é fogo consumidor"(Hb.12:28-29). Não podemos serví-lO "agradavelmente" sem a devida "reverência" ante a sua tremenda Majestade e sem o devido "santo temor" de Sua ira, e promoveremos melhor estas coisas trazendo freqüentemente à memória o fato de que "o nosso Deus é um fogo consumidor". Terceiro, para induzir nossas almas a fervoroso louvor a Deus por Ter-nos livrado "... da ira futura"(I Ts.1:10).
A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: "... pensavas que (Eu) era como tu"(Sl.50:21). Se não nos alegramos "... em memória da sua santidade"(Sl.97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração sumamente gloriosa da Sua ira, tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda, permanecemos em nossos pecados, rumo às chamas eternas.
"Jubilai, ó nações (gentios), com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança..."(Dt.32:43). E ainda lemos: "E, depois destas coisas, ouvi no céu como que uma grande voz de grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verdadeiros e justos sãos os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia..." (Ap.19:1-3). Grande será o regozijo dos santos naquele dia em que o Senhor irá vindicar a sua majestade, exercer o Seu domínio formidável, magnificar a Sua justiça, e derribar os orgulhosos rebeldes que ousaram desafiá-lO.
"Se tu, Senhor, observares (imputares) as iniquidades, Senhor quem subsistirá? (Sm. 130:3). Cada um de nós pode bem fazer esta pergunta, pois está escrito que "...os ímpios não subsistirão no juízo..." (Sl.1:5). Quão dolorosamente a alma de Cristo padeceu ao pensar na ação de Deus observando as iniquidades do Seu povo quando estas pesaram sobre Ele! Ele "... começou a Ter pavor, e a angustiar-se"(Mc. 14:33). Sua agonia terrível, Seu suor de sangue, Seu grande clamor e súplicas (Hb.5:7), Suas reiteradas orações: "Se é possível, passe de mim este cálice", Seu último e tremendo brado, "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?"- tudo manifesta que pavorosas apreensões Ele teve quanto ao que era para Deus "observar iniquidades". Bem que nós, pobres pecadores, podemos clamar: Senhor, quem subsistirá, se o próprio Filho de Deus tremeu tanto sob o peso da Tua ira? Se tu, meu leitor, ainda não correste em busca do refúgio em Cristo, o único salvador, "... que farás na enchente do Jordão?"(Jr.12:5).
"Quando considero como a bondade de Deus sofre abusos da maior parte da humanidade, não posso senão apoiar quem disse: "O maior milagre do mundo é a paciência e generosidade de Deus para como mundo ingrato. Se um príncipe tem inimigos metidos numa de suas cidades, não lhes envia provisões, mas mantém sitiado o local e faz o que pode para vencê-los pela fome. Mas o grande Deus, que poderia levar todos os Seus inimigos à destruição num piscar de olhos, tolera-os e se empenha diariamente para sustentá-los. Aquele que faz o bem aos maus e ingratos, pode muito bem ordenar-nos que bendigamos os que nos maldizem. Não penseis, porém, que escapareis assim, pecadores; o moinho de Deus mói devagar, mas mói fino; quanto mais admirável é agora a Sua paciência e generosidade, mais terrível e insuportável será a fúria resultante dos abusos feitos à Sua bondade. Nada é mais brando do que o mar; contudo, quando se agita e forma temporal, nada se enfurece mais. Nada é tão suave como a paciência e bondade de Deus, e nada tão terrível como a sua ira quando se inflama" (William Gurnall, 1660). "Fuja", pois, meu leitor, fuja para Cristo; fuja "... da ira futura"(Mt.3:7), antes que seja tarde demais. Nós lhe rogamos com todo o empenho, não pense que esta mensagem tem em vista outra pessoa. É para você que está lendo! Não fique satisfeito em pensar que você já fugiu para Cristo. Obtenha certeza disso! Rogue ao Senhor que sonde o teu coração e te revele o que tu és (pois o erro ou engano, será fatal e eterno).
--------------------------------------------------------------------------------
Uma palavra aos pregadores: Irmãos, em nossos ministérios temos pregado sobre este solene assunto tanto como deveríamos? Os profetas do Velho Testamento muitas vezes diziam aos seus ouvintes que as suas vidas ímpias provocavam o Santo de Israel, e que estavam entesourando para si mesmos ira para o dia da ira. E as condições do mundo hoje não são melhores do que eram então! Nada se presta mais para despertar os indiferentes e fazer com que os crentes carnais sondem os seus corações, do que alongar-nos sobre o fato de que Deus "... se ira todos os dias" com os ímpios (Sl.7:11). O precursor de Cristo exortava os seus ouvintes a fugirem "... da ira futura"(Mt.3:7). O Salvador ordenava a quantos O ouviam: "Temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno, sim, vos digo, a esse temei"(Lc.12:5). O apóstolo Paulo dizia: "... sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens..."(2Co.5:11). A fidelidade exige que falemos tão claramente do inferno como do céu.
A. W. Pink
Sim, muitos há que fogem de visualizar a ira de Deus, como se fossem intimados a ver alguma nódoa no caráter divino, ou algum defeito no governo divino. Mas, o que dizem as Escrituras? Quando a procuramos nelas, vemos que Deus não dez tentativa alguma para ocultar a realidade da Sua ira. Ele não se envergonha de ar a conhecer que a vingança e a cólera Lhe pertencem. Eis o Seu desafio: "Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum Deus comigo; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantei a minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada reluzente, a travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos meus aborrecedores"(Dt.32:39-41). Um estudo na concordância mostrará que há mais referências nas Escrituras à indignação, à cólera e à ira de Deus, do que aos Seu amor e ternura. Porque Deus é santo, ele odeia todo pecado; e porque ele odeia todo pecado, a Sua ira inflama-se contra o pecador. (Sl.7:11).
Pois bem, a ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se Nele não houvesse "ira"! A indiferença para com o pecado é uma nódoa moral, e aquele que não odeia é um leproso moral. Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelência olhar com igual satisfação para a virtude e o vício, para a sabedoria e a estultícia? Como poderia Aquele que é infinitamente santo ficar indiferente ao pecado e negar-Se a manifestar a Sua "severidade"(Rm.11:22) para com ele? Como poderia Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e de odiar o que é impuro e vil? A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão real, um requisito tão imperativo e eterno como o céu o é. Não somente não há imperfeição nenhuma em Deus, mas também não há Nele perfeição que seja menos perfeita do que outra.
A ira de Deus é sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina equidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável. Os insurgentes contra o governo de Deus saberão um dia que Deus é o Senhor. Serão levados a sentir quão grandiosa é aquela Majestade que eles desprezaram, e como é terrível aquela ira de que foram ameaçados e a que não deram a mínima importância. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maldosa e mal intencionada, infligindo agravo só pelo prazer de infligi-lo, ou devolver a ofensa recebida. Não; embora seja verdade que Deus vindicará o domínio como Governador do universo, ele não será revanchista.
Evidencia-se que a ira divina é uma das perfeições de Deus, não somente pelas considerações acima apresentadas, mas também fica estabelecido claramente pelas declarações expressas da Sua Palavra. "Porque do céu manifesta a ira de Deus..."(Rm.1:18). "Manifestou-se quando foi pronunciada a primeira sentença de morte, quando a terra foi amaldiçoada e o homem foi expulso do paraíso terrestre; e depois, mediante castigos exemplares como o dilúvio e a destruição das cidades da planície com fogo do céu, mas, especialmente pelo reinado da morte no mundo todo. Foi proclamada na maldição da lei para cada transgressão, e foi imposta na instituição do sacrifício. No capítulo 8 de romanos, o apóstolo Paulo chama a atenção para o fato de que a criação inteira ficou sujeita à vaidade, e geme e tem dores de parto. A mesma criação que declara que existe um Deus, e publica a Sua glória, também proclama que Ele é inimigo do pecado e o vingador dos crimes dos homens. Acima de tudo, porém, do céu se manifestou a ira de Deus quando o Filho de Deus veio a este mundo para revelar o caráter divino, e quando essa ira foi demostrada nos Seus sofrimentos e morte, de maneira mais terrível do que por todas as provas que Deus antes dera da Sua aversão pela pecado. Além disso, o castigo futuro e eterno dos ímpios agora é declarado em termos mais solenes e explícitos do que antes. Sob a nova dispensação há duas revelações dadas do céu, uma da ira, a outra da graça"(Robert Haldane).
Mais: que a ira de Deus é uma perfeição divina está demostrado claramente pelo que lemos nos Salmo 95:11: "Por isso jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso". Duas sãos as ocasiões em que Deus "jura": quando faz promessas (Gn22:16), e quando faz ameaças(Dt.1:34). Na primeira, jura com misericórdia dos Seus filhos; na Segunda, jura para aterrorizar os ímpios. Um juramento é feito para confirmação: Hb.6:16. Em Gn.22:16 disse Deus: "Por mim mesmo, jurei". NO Sl.89:35 ele declara: "Uma vez jurei por minha santidade". Enquanto que no Sl.95:11 ele afirma: "Jurei na minha ira". Assim é que o grande Jeová pessoalmente recorre à Sua "ira" como a uma perfeição igual à sua "santidade": tanto jura por uma como pela outra! Ainda: como em Cristo "...habita corporalmente toda a plenitude da divindade"(Cl.2:9), e como todas as perfeições divinas são notavelmente manifestadas por Ele (Jo.1:18), por isso lemos sobre "... a ira do Cordeiro"(Ap.6:16).
A ira de Deus é uma perfeição do caráter divino sobre a qual precisamos meditar com freqüência. Primeiro, para que os nosso corações fiquem devidamente impressionados com a ojeriza de Deus pelo pecado. Estamos sempre inclinados a uma consideração superficial do pecado, a encobrir a sua fealdade, a desculpá-lo com escusas várias. Mas, quanto mais estudarmos e ponderarmos a aversão de Deus pelo pecado e a maneira terrível como se vinga dele, mais probabilidade teremos de compreender quão horrível é o pecado. Segundo, para produzir em nossas almas um verdadeiro temor de Deus: "... retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade ("santo temos"); porque o nosso Deus é fogo consumidor"(Hb.12:28-29). Não podemos serví-lO "agradavelmente" sem a devida "reverência" ante a sua tremenda Majestade e sem o devido "santo temor" de Sua ira, e promoveremos melhor estas coisas trazendo freqüentemente à memória o fato de que "o nosso Deus é um fogo consumidor". Terceiro, para induzir nossas almas a fervoroso louvor a Deus por Ter-nos livrado "... da ira futura"(I Ts.1:10).
A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: "... pensavas que (Eu) era como tu"(Sl.50:21). Se não nos alegramos "... em memória da sua santidade"(Sl.97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração sumamente gloriosa da Sua ira, tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda, permanecemos em nossos pecados, rumo às chamas eternas.
"Jubilai, ó nações (gentios), com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança..."(Dt.32:43). E ainda lemos: "E, depois destas coisas, ouvi no céu como que uma grande voz de grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verdadeiros e justos sãos os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia..." (Ap.19:1-3). Grande será o regozijo dos santos naquele dia em que o Senhor irá vindicar a sua majestade, exercer o Seu domínio formidável, magnificar a Sua justiça, e derribar os orgulhosos rebeldes que ousaram desafiá-lO.
"Se tu, Senhor, observares (imputares) as iniquidades, Senhor quem subsistirá? (Sm. 130:3). Cada um de nós pode bem fazer esta pergunta, pois está escrito que "...os ímpios não subsistirão no juízo..." (Sl.1:5). Quão dolorosamente a alma de Cristo padeceu ao pensar na ação de Deus observando as iniquidades do Seu povo quando estas pesaram sobre Ele! Ele "... começou a Ter pavor, e a angustiar-se"(Mc. 14:33). Sua agonia terrível, Seu suor de sangue, Seu grande clamor e súplicas (Hb.5:7), Suas reiteradas orações: "Se é possível, passe de mim este cálice", Seu último e tremendo brado, "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?"- tudo manifesta que pavorosas apreensões Ele teve quanto ao que era para Deus "observar iniquidades". Bem que nós, pobres pecadores, podemos clamar: Senhor, quem subsistirá, se o próprio Filho de Deus tremeu tanto sob o peso da Tua ira? Se tu, meu leitor, ainda não correste em busca do refúgio em Cristo, o único salvador, "... que farás na enchente do Jordão?"(Jr.12:5).
"Quando considero como a bondade de Deus sofre abusos da maior parte da humanidade, não posso senão apoiar quem disse: "O maior milagre do mundo é a paciência e generosidade de Deus para como mundo ingrato. Se um príncipe tem inimigos metidos numa de suas cidades, não lhes envia provisões, mas mantém sitiado o local e faz o que pode para vencê-los pela fome. Mas o grande Deus, que poderia levar todos os Seus inimigos à destruição num piscar de olhos, tolera-os e se empenha diariamente para sustentá-los. Aquele que faz o bem aos maus e ingratos, pode muito bem ordenar-nos que bendigamos os que nos maldizem. Não penseis, porém, que escapareis assim, pecadores; o moinho de Deus mói devagar, mas mói fino; quanto mais admirável é agora a Sua paciência e generosidade, mais terrível e insuportável será a fúria resultante dos abusos feitos à Sua bondade. Nada é mais brando do que o mar; contudo, quando se agita e forma temporal, nada se enfurece mais. Nada é tão suave como a paciência e bondade de Deus, e nada tão terrível como a sua ira quando se inflama" (William Gurnall, 1660). "Fuja", pois, meu leitor, fuja para Cristo; fuja "... da ira futura"(Mt.3:7), antes que seja tarde demais. Nós lhe rogamos com todo o empenho, não pense que esta mensagem tem em vista outra pessoa. É para você que está lendo! Não fique satisfeito em pensar que você já fugiu para Cristo. Obtenha certeza disso! Rogue ao Senhor que sonde o teu coração e te revele o que tu és (pois o erro ou engano, será fatal e eterno).
--------------------------------------------------------------------------------
Uma palavra aos pregadores: Irmãos, em nossos ministérios temos pregado sobre este solene assunto tanto como deveríamos? Os profetas do Velho Testamento muitas vezes diziam aos seus ouvintes que as suas vidas ímpias provocavam o Santo de Israel, e que estavam entesourando para si mesmos ira para o dia da ira. E as condições do mundo hoje não são melhores do que eram então! Nada se presta mais para despertar os indiferentes e fazer com que os crentes carnais sondem os seus corações, do que alongar-nos sobre o fato de que Deus "... se ira todos os dias" com os ímpios (Sl.7:11). O precursor de Cristo exortava os seus ouvintes a fugirem "... da ira futura"(Mt.3:7). O Salvador ordenava a quantos O ouviam: "Temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno, sim, vos digo, a esse temei"(Lc.12:5). O apóstolo Paulo dizia: "... sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens..."(2Co.5:11). A fidelidade exige que falemos tão claramente do inferno como do céu.
A. W. Pink
Terça-feira, Setembro 12, 2006
Reverência pela Vida
Albert Schweitzer - Teólogo, médico e escritor francês ganhador do prêmio Nobel da paz, disse que a "ética nada mais é que reverência pela vida". Hoje, mesmo aqueles que defendem a ética, na maioria das vezes, já nem sabem mais o que ela quer dizer. Ética e moral tem se tornada palavras sinônimas. Isso é sinal da confusão que permeia o cenário da ética hoje. Historicamente o significado de ambas e completamente distinto. Ética vem do grego ethos - que se deriva da raiz que quer dizer estábulo, um, lugar para cavalos. Juntava dois sentidos - um lugar para morar e um lugar de estabilidade e permanência. Por outro lado, moralidade vem da palavra mores, que descreve os padrões de comportamento de uma sociedade.
A diferença então é fundamental. Ética é uma ciência normativa, que busca fundamentos principais que irão descrever obrigações e deveres. A ética está interessada efetivamenteno que é imperativo e na premissa filosófica em que se apóia o imperativo.
A moralidade é uma ciência apenas descritiva. Está interessada no que É - e no indicativo. A moral descreve o que as pessoas fazem; a ética define o que as pessoas deveriam fazer. A diferença entre elas é entre o normal e o normativo.
A diferença então é fundamental. Ética é uma ciência normativa, que busca fundamentos principais que irão descrever obrigações e deveres. A ética está interessada efetivamenteno que é imperativo e na premissa filosófica em que se apóia o imperativo.
A moralidade é uma ciência apenas descritiva. Está interessada no que É - e no indicativo. A moral descreve o que as pessoas fazem; a ética define o que as pessoas deveriam fazer. A diferença entre elas é entre o normal e o normativo.
A Ética então é:
Normativa
Imperativa
O que deveria ser
Absoluto
A Moral é:
Descritiva
Indicativa
O que é
Relativo
Aqui então entra o drama que vivemos hoje, no país, na igreja, na vida pessoal... Quando a moral é identificada como ética, o normal se torna o normativo, e o imperativo é engolido por como vive a maioria.
Neste esquema, o que é bom é determinado pelo normal, e o normal é determinado pela média estatística. A "norma" é descoberta por uma análise do normal. A conformidade com essa norma torna-se então uma obrigação ética.
Somos orelhas ou juízes? O poeta espanhol Fracisco de Quevedo y Villegas dizia que "quem julga pelo que ouve e não pelo que sabe, é orelha e não juiz" - O que sabemos sobre o que realmente importa? Como temos nos relacionado com a sociedade que nos cerca? Quando de conformismo existe em nós? Tá bom, chega de perguntas.
Como vimos anteriormente, há uma grande confusão hoje entre ética e moral. Talvez fosse mais saudável se as pessoas, como aquela frase de parachoque de caminhão falassem: "não me sigam, estou perdido também" .
A norma, como vimos, é descoberta por uma análise do "normal", e o normal é determinado pela média estatística. Como funciona isso?
1. Compilamos uma análise dos padrões de comportamento estatístico. Por exemplo; se descobrimos que a maioria das pessoas está de fato participando de relações sexuais antes do casamento, então declaramos tal atividade como normal.
2. Rapidamente nos movemos e declaramos que o normal é o autênticamente humano. O que é humano é definido como sendo o que os humanos fazem. Daí, se o ser humano normal está engajado em relações sexuais antes do casamento, concluímos que tal atividade é normal, e portanto boa.
3. O terceiro passo é declarar que os que se desviam do padrão normal como sendo anormais, não humanos, não autênticos. Neste esquema, a castidade se torna um comportamento sexual anormal. O estigma então é colocado sobre a (o) virgem, e não sobre a (o) não virgem.
Nesta consideração "humanista" da ética, o bem supremo (summun bonnum) é definido pela atividade que é mais "autenticamente" humana. Isso alegra muito a alguns, talvez a maioria. Mas se nós fizermos uma análise estatística, por exemplo, da experiência de trapacear e tirar cola entre os estudantes, ou mentir... descobriremos que a maioria, alguma vez trapaceou, e que talvez todas as pessoas, alguma vez já mentiu. Se essa "maralidade" e suas regras forem aplicadas, só poderíamos chegar ao veredicto de que trapacear os professores, ludibriar no merecimento outros alunos, ou mentir para os outros é uma virtude.
Mas esses padrões tem sido usados quase que universalmente.
Ética cristã é baseada na antítese entre o que é e o que deveria ser. Em que mundo vivemos? Num mundo caído; uma análise do comportamento humano decaído descreve o que é normal para uma situação completamente anormal - a corrupção humana.
Deus nos chama para fora - isto é ou deveria ser a igreja. Somos chamados para fora do indicativo do mundo pelo Imperativo de Deus. Nosso chamado não é para "... muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender..." - Não! Nosso chamado é para a não-conformidade, para uma ética transformadora que quebra o status quo.
Sola Fide e Tiago 2
A Prova da Sola Fide
O caluniador moderno faz objeção - sola fide é só um argumento que veio da experiência psicológica de Lutero e dos debates escolásticos medievais da época. [Dizem eles que] simplesmente não é o ensino direto do Novo Testamento. Mas, com Lutero e Calvino, estou persuadido de que se a pessoa entende o ensino de Paulo em Romanos e Gálatas, então sola fide realmente é o ensino claro do Novo Testamento. A contribuição de Lutero foi esta - ele trouxe á luz do dia o ensino claro e significativo da doutrina de Paulo da sola fide. Ele não a inventou, nem a redescobriu, pelo menos no sentido de que já havia sido tão claramente afirmada antes.
Quando Lutero foi atacado por acrescentar a palavra somente à sua tradução alemã de Romanos 3.28, ele respondeu que "... a palavra extra foi necessária no alemão para destacar a força do original". Será que ele está certo em sua afirmação?
Se vamos responder a essa pergunta, devemos observar algumas coisas muito importantes que Paulo ensina especificamente com respeito à fé e o relacionamento dela com a nossa justificação. Primeiro, o apóstolo, referindo-se à fé do patriarca Abraão em Gênesis 15.6, escreve:
"Pois que diz a Escritura? 'Abraão creu e isso lhe foi imputado para justiça'. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como recompensa. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça" (Aos Romanos 4.3-5).
Seria fatal para o evangelho e para o argumento todo de Paulo transformar a fé referida aqui em "obra". A fé de Abraão não foi um substituto da obediência (cf. Hb 11.8). Para ser preciso, era uma fé para (eis) justiça, não em vez de (anti) justiça.
Em Romanos 4.3-5 há uma clara antítese. A antítese não está entre o que trabalha e o que não trabalha, e sim entre o que trabalha e a pessoa que não trabalha, porém crê. Esse crer tem uma qualidade e orientação específica, a saber, "{crê} naquele que justifica o ímpio...".
Segundo, Paulo ensina com a mesma clareza que os crentes são justificados "mediante a fé" (dia pisteos, Rm 3.25). E mais tarde, em 3.28, é aquilo que é "pela fé" (pistei). E novamente em [Romanos] 3.30 é "por fé" (ek pisteos). J. I.Packer observa apropriadamente:
"O dativo com a preposição dia (mediante) representa a fé como o meio instrumental pelo qual Cristo e sua justiça são apropriados; a preposição ek (de, saído de) mostra que a fé ocasiona, e logicamente precede, nossa justificação pessoal. Que os crentes são justificados dia pistin, por causa da fé, Paulo nunca diz e haveria de negar."
Se a fé fosse a base real da justificação, a fé seria então uma obra meritória. Se a fé fosse uma obra meritória, em qualquer sentido, então Paulo estaria dizendo algo do qual discorda redondamente em outros lugares da Bíblia. Em Romanos 11.6, ouvimos o mesmo apóstolo dizendo "... se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". A fé não é justiça, nem mesmo um substituto da justiça. A fé é, antes, as mãos vazias de uma alma crente que se estende para aquele que justifica os ímpios na base de misericórdia somente.
Terceiro, fazer da fé o único canal da justificação é coerente com a ênfase da doutrina de Paulo de que as obras são inteiramente excluídas da declaração de Deus de que o pecador crente está justificado. Romanos 3.28 declara: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei". E Gálatas 2.16 acrescenta: "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei, ninguém será justificado". O texto clássico sobre isso é muitas vezes citado mas poucas vezes apreciado. Efésios 2.8,9 diz: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie".
Deve-se notar nesse ponto que se as obras contribuem para a justificação diante de Deus ou antes ou depois que nos chegamos à fé em Cristo, então nossa salvação também não é somente pela graça. Isso leva a uma rejeição de sola gratia tão certamente como de sola fide. Mas que diremos do ensino de Tiago? A epístola não ensina que a justificação é alcançada por meio de obras meritórias, nem mesmo de fé que opera interiormente pelo amor, e sim que as obras dão prova de fé. Tiago condena esse tipo de fé sem eficácia, isto é, uma fé que não confia genuinamente. Paulo condena as obras em termos de estarem acrescentando algo de mérito (ou de valor) à fé do pecador crente. O conflito por vezes imaginado entre essas duas epístolas não existe quando elas são entendidas corretamente. Para o apologista católico contemporâneo Scott Hahn, dizer repetidamente que Lutero ensina a fé somente enquanto Tiago ensina a fé que opera é uma deturpação tanto de Lutero como de Tiago (veja abaixo a Análise de Tiago 2).
Quarto e último, Paulo revela, ao se apoiar em Habacuque (citado em Rm 1.17), que ele crê que o homem piedoso ("o justo") goza o favor de Deus e a vida por causa de sua resposta confiante a Deus, Paulo diz: "... visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: 'O justo viverá por fé'"(Rm 1.16-17).
Gramaticalmente, o versículo 17 pode estar dizendo ou que "pela fé" um homem é "justo" ou que "pela fé" "ele viverá". Lutero optou pelo primeiro. Os comentadores contemporâneos como Cranfield concordam. Outros optam pela segunda possibilidade. O primeiro sentido parece fazer melhor uso do contexto da epístola, mas por qualquer dos dois Paulo está dizendo que a justiça é absolutamente necessária para salvação. Mas o que é essa "justiça que é pela fé"? Como o pecador chega a essa justiça? Como Deus a dá ao pecador? Filipenses 3.9 se refere a isso como "a justiça que procede de Deus mediante a fé". É a justiça de Deus precisamente porque Deus a providenciou. A Nova Versão Internacional (NIV) da Bíblia traduz essa expressão paulina corretamente quando a chama de "uma justiça de Deus" (dikaiusune Theou).
Essa "justiça de Deus" pode ser entendida como o ato de Deus ou então pode ser a provisão de Deus. De um modo ou de outro Paulo está falando de algo inteiramente objetivo, isto é, fora do homem. Esse é o sentido óbvio de Romanos 3.21 onde Paulo diz mais que, "agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus...". Nenhum cumprimento da lei pelo crente pode acrescentar um til à salvação que é toda de graça.
Além disso, Romanos 4.6 diz: "... Deus atribui justiça, independentemente de obras". A questão central, tanto aqui como no versículo 5, é esta - Deus imputa a justiça, isto é, ele a atribui àqueles que crêem, só na base de promessas graciosas e bondosas de Deus (cf. Rm 4.18). O conceito de imputação, que é entendido na palavra "atribui" (vs. 6), é sinônimo de justificação nessa frase. Se isso não for verdade, então todo o argumento de Paulo cai por terra. Sua tese é bem clara - a justificação é por fé e não por obras, portanto é sozinha, e deve ser sozinha, porque do contrário algo teria, necessariamente, de lhe ser acrescentado.
E quando Paulo diz que essa justiça de Cristo é "de fé em fé", ele quer dizer que é pela fé do começo ao fim. É um modo de dizer que a graça é recebida por fé e por nada senão a fé - isto é, sola fide. Ele reforça essa declaração sumária em vários pontos, como em 4.6 onde diz: "... o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras".
A verdadeira fé salvadora, por definição bíblica, precisa vir só - qualquer coisa que lhe fosse acrescentada tornaria algo diferente de fé. Essa idéia está presente em declarações explícitas, como já vimos, mas também pode ser vista tanto nos contrastes como nas negativas que vemos em vários desses textos. "Somente" é parte integrante do sentido paulino da fé em si. Se a graça de Deus não é dada ao homem por meio da fé somente, então o que chamamos de fé bíblica não é fé de maneira alguma. Ou eu levo algo para a aceitação de Deus pela graça ou eu nada levo. Se nada apresento, então sou salvo pela, ou mediante a, fé somente. Se levo algo á aceitação de minha pessoa por Deus como pecador culpado, então tenho algum espaço para me gloriar. Se nada levo, então tudo que posso fazer é confiar inteiramente em Cristo e sua justiça. Como diz um velho hino:
Numa vida que não vivi,
Numa morte que não morri,
A vida de Outro, a morte de Outro,
Nisto repousa toda a minha eternidade.
Ainda mais, se a justificação não é pela fé somente, como Paulo raciocina, então não pode ser por Cristo somente, ou "pela justiça de Cristo". Por quê? Porque fé significa, simplesmente, que Cristo me salva, não a igreja, não minhas obras, não outro salvador mas Cristo somente! Eu nada posso fazer. Nada preciso fazer senão confiar, e mesmo essa confiança, essa fé, me é dada graciosamente pelo próprio Deus. De fato, não pode haver lugar para o ser humano gloriar-se numa obra divina tão grande.
A Justificação pela Fé somente e Tiago 2
Aqueles que mantém uma visão tridentina da justificação, negando que a fé somente seja suficiente, apelam para Tiago 2.14-26 como sendo sua prova textual. Afrimam que a Bíblia nunca emprega a frase “justificação pela fé somente”, o que concedemos, mas que ela declara que Abraão não foi salvo pela fé somente. Na verdade, nos é dito que Abraão foi “justificado por suas obras". Tiago 2.14-26 diz assim:
(14) Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? (15) Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, (16) e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? (17) Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (18) Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. (19) Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.(20) Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? (21) Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? (22) Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, (23) e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. (24) Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente. (25) De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? (26) Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.
Aparentemente, a impressão é que Paulo e Tiago estão divergindo entre si. Paulo ensina que Abraão foi justificado pela fé somente e Tiago parece estar ensinando o contrário, que Abraão foi justificado por suas obras. São duas visões diferentes, ao que parece, e ambas estão apelando para Abraão para provar sua tese.
Distinguir a verdade aqui não é tão difícil quanto pode parecer à primeira vista. O livro de Tiago é o equivalente no Novo Testamento à literatura de “sabedoria” do Antigo Testamento. Na mente hebraica, a sabedoria é como se vive. É prática e não teoria ou, talvez, prática baseada em teoria. Tiago está respondendo à pergunta: “O que é uma fé viva e vital?” ou como Lutero chamava “uma fides viva”.
Às vezes a terminologia teológica impede nossa compreensão do Novo Testamento. Por exemplo, em 1 Timóteo 2.15, Paulo diz que as mulheres serão salvas por darem à luz. Ora, sabemos que as mulheres não são justificadas por ficarem grávidas. As palavras têm sentidos diferentes de acordo com seu contexto. E a palavra grega para justificação ou justificado pode ter pelo menos sete sentidos diferentes.
Em Romanos, Paulo está escrevendo doutrina, e tratando da questão de como uma pessoa é levada à paz com Deus. Tiago não está escrevendo doutrina, e sim examinando qual é a essência da fé autêntica, ou a evidência da fé justificadora. Em Mateus 11.19, Jesus afirma que a “sabedoria é justificada por suas obras”. Será que isso significa que a sabedoria é levada a um relacionamento correto com Deus? Não, Jesus simplesmente diz que a sabedoria prova ser sabedoria pelos frutos de sabedoria!
Precisamente falando, Paulo e Tiago não estão discorrendo [exatamente] sobre a mesma coisa. Paulo apela para Gênesis 15.6: “Abraão... creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça”. Pela fé, Abrão (Abraão) foi justificado diante de Deus. Por outro lado, Tiago apela para Gênesis 22.9-18, uma diferença de sete capítulos! Em Gênesis 22, Deus pôs Abraão à prova, e a autenticidade da fé de sua fé foi manifesta (cf. 2 Co 13.5). Em Gênesis 12, Abraão foi justificado por sua fé. Em Gênesis 22, a fé de Abraão é justificada por sua obediência.
Tiago não está respondendo à pergunta “Como posso ser salvo?” e sim “Como posso saber que minha fé é autêntica?” Podemos ver isso pela declaração do versículo 18: “Você DIZ que tem fé”. A validação dessa afirmativa é dada no mesmo versículo: “Mostre-me sua fé POR suas obras”. A fé já existe, mas ela é evidenciada pelas necessárias obras que se seguem. Minha fé não prova minha fé para Deus. Ele já conhece meu coração; você não. Você pode ver minhas obras mas não pode ver meu coração. As obras são um testemunho para mim e para você.
O nobre puritano Thomas Manton disse: “Pela justiça da fé somos quitados do pecado, e pela justiça das obras somos quitados da hipocrisia”. As obras da obediência nada acrescentam à sua justificação; são a prova visível dela.
É isso que Paulo quer dizer em Romanos 1.5 com a expressão “a obediência por fé”. A fé, em sua essência, é fidelidade ou obediência pactual. Não é que as obras estejam de um lado e a fé de outro, mantendo-se como opostos, e sim que a fé salvadora, em sua essência, é uma fé obediente. A propriedade intrínseca ou indispensável que caracteriza a fé bíblica é a obediência. A fé salvadora, pela natureza do caso, produz obras por causa daquilo que é.
Em Tiago 2 não se encontra uma refutação da justificação pela fé somente, nem em qualquer outro lugar na Bíblia, para dizer a verdade. É uma doutrina resolvida e segura tanto em Tiago quanto em Paulo. Possamos nós pregá-la com confiança e ousadia!
Dr. John Armstrong
O caluniador moderno faz objeção - sola fide é só um argumento que veio da experiência psicológica de Lutero e dos debates escolásticos medievais da época. [Dizem eles que] simplesmente não é o ensino direto do Novo Testamento. Mas, com Lutero e Calvino, estou persuadido de que se a pessoa entende o ensino de Paulo em Romanos e Gálatas, então sola fide realmente é o ensino claro do Novo Testamento. A contribuição de Lutero foi esta - ele trouxe á luz do dia o ensino claro e significativo da doutrina de Paulo da sola fide. Ele não a inventou, nem a redescobriu, pelo menos no sentido de que já havia sido tão claramente afirmada antes.
Quando Lutero foi atacado por acrescentar a palavra somente à sua tradução alemã de Romanos 3.28, ele respondeu que "... a palavra extra foi necessária no alemão para destacar a força do original". Será que ele está certo em sua afirmação?
Se vamos responder a essa pergunta, devemos observar algumas coisas muito importantes que Paulo ensina especificamente com respeito à fé e o relacionamento dela com a nossa justificação. Primeiro, o apóstolo, referindo-se à fé do patriarca Abraão em Gênesis 15.6, escreve:
"Pois que diz a Escritura? 'Abraão creu e isso lhe foi imputado para justiça'. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como recompensa. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça" (Aos Romanos 4.3-5).
Seria fatal para o evangelho e para o argumento todo de Paulo transformar a fé referida aqui em "obra". A fé de Abraão não foi um substituto da obediência (cf. Hb 11.8). Para ser preciso, era uma fé para (eis) justiça, não em vez de (anti) justiça.
Em Romanos 4.3-5 há uma clara antítese. A antítese não está entre o que trabalha e o que não trabalha, e sim entre o que trabalha e a pessoa que não trabalha, porém crê. Esse crer tem uma qualidade e orientação específica, a saber, "{crê} naquele que justifica o ímpio...".
Segundo, Paulo ensina com a mesma clareza que os crentes são justificados "mediante a fé" (dia pisteos, Rm 3.25). E mais tarde, em 3.28, é aquilo que é "pela fé" (pistei). E novamente em [Romanos] 3.30 é "por fé" (ek pisteos). J. I.Packer observa apropriadamente:
"O dativo com a preposição dia (mediante) representa a fé como o meio instrumental pelo qual Cristo e sua justiça são apropriados; a preposição ek (de, saído de) mostra que a fé ocasiona, e logicamente precede, nossa justificação pessoal. Que os crentes são justificados dia pistin, por causa da fé, Paulo nunca diz e haveria de negar."
Se a fé fosse a base real da justificação, a fé seria então uma obra meritória. Se a fé fosse uma obra meritória, em qualquer sentido, então Paulo estaria dizendo algo do qual discorda redondamente em outros lugares da Bíblia. Em Romanos 11.6, ouvimos o mesmo apóstolo dizendo "... se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". A fé não é justiça, nem mesmo um substituto da justiça. A fé é, antes, as mãos vazias de uma alma crente que se estende para aquele que justifica os ímpios na base de misericórdia somente.
Terceiro, fazer da fé o único canal da justificação é coerente com a ênfase da doutrina de Paulo de que as obras são inteiramente excluídas da declaração de Deus de que o pecador crente está justificado. Romanos 3.28 declara: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei". E Gálatas 2.16 acrescenta: "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei, ninguém será justificado". O texto clássico sobre isso é muitas vezes citado mas poucas vezes apreciado. Efésios 2.8,9 diz: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie".
Deve-se notar nesse ponto que se as obras contribuem para a justificação diante de Deus ou antes ou depois que nos chegamos à fé em Cristo, então nossa salvação também não é somente pela graça. Isso leva a uma rejeição de sola gratia tão certamente como de sola fide. Mas que diremos do ensino de Tiago? A epístola não ensina que a justificação é alcançada por meio de obras meritórias, nem mesmo de fé que opera interiormente pelo amor, e sim que as obras dão prova de fé. Tiago condena esse tipo de fé sem eficácia, isto é, uma fé que não confia genuinamente. Paulo condena as obras em termos de estarem acrescentando algo de mérito (ou de valor) à fé do pecador crente. O conflito por vezes imaginado entre essas duas epístolas não existe quando elas são entendidas corretamente. Para o apologista católico contemporâneo Scott Hahn, dizer repetidamente que Lutero ensina a fé somente enquanto Tiago ensina a fé que opera é uma deturpação tanto de Lutero como de Tiago (veja abaixo a Análise de Tiago 2).
Quarto e último, Paulo revela, ao se apoiar em Habacuque (citado em Rm 1.17), que ele crê que o homem piedoso ("o justo") goza o favor de Deus e a vida por causa de sua resposta confiante a Deus, Paulo diz: "... visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: 'O justo viverá por fé'"(Rm 1.16-17).
Gramaticalmente, o versículo 17 pode estar dizendo ou que "pela fé" um homem é "justo" ou que "pela fé" "ele viverá". Lutero optou pelo primeiro. Os comentadores contemporâneos como Cranfield concordam. Outros optam pela segunda possibilidade. O primeiro sentido parece fazer melhor uso do contexto da epístola, mas por qualquer dos dois Paulo está dizendo que a justiça é absolutamente necessária para salvação. Mas o que é essa "justiça que é pela fé"? Como o pecador chega a essa justiça? Como Deus a dá ao pecador? Filipenses 3.9 se refere a isso como "a justiça que procede de Deus mediante a fé". É a justiça de Deus precisamente porque Deus a providenciou. A Nova Versão Internacional (NIV) da Bíblia traduz essa expressão paulina corretamente quando a chama de "uma justiça de Deus" (dikaiusune Theou).
Essa "justiça de Deus" pode ser entendida como o ato de Deus ou então pode ser a provisão de Deus. De um modo ou de outro Paulo está falando de algo inteiramente objetivo, isto é, fora do homem. Esse é o sentido óbvio de Romanos 3.21 onde Paulo diz mais que, "agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus...". Nenhum cumprimento da lei pelo crente pode acrescentar um til à salvação que é toda de graça.
Além disso, Romanos 4.6 diz: "... Deus atribui justiça, independentemente de obras". A questão central, tanto aqui como no versículo 5, é esta - Deus imputa a justiça, isto é, ele a atribui àqueles que crêem, só na base de promessas graciosas e bondosas de Deus (cf. Rm 4.18). O conceito de imputação, que é entendido na palavra "atribui" (vs. 6), é sinônimo de justificação nessa frase. Se isso não for verdade, então todo o argumento de Paulo cai por terra. Sua tese é bem clara - a justificação é por fé e não por obras, portanto é sozinha, e deve ser sozinha, porque do contrário algo teria, necessariamente, de lhe ser acrescentado.
E quando Paulo diz que essa justiça de Cristo é "de fé em fé", ele quer dizer que é pela fé do começo ao fim. É um modo de dizer que a graça é recebida por fé e por nada senão a fé - isto é, sola fide. Ele reforça essa declaração sumária em vários pontos, como em 4.6 onde diz: "... o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras".
A verdadeira fé salvadora, por definição bíblica, precisa vir só - qualquer coisa que lhe fosse acrescentada tornaria algo diferente de fé. Essa idéia está presente em declarações explícitas, como já vimos, mas também pode ser vista tanto nos contrastes como nas negativas que vemos em vários desses textos. "Somente" é parte integrante do sentido paulino da fé em si. Se a graça de Deus não é dada ao homem por meio da fé somente, então o que chamamos de fé bíblica não é fé de maneira alguma. Ou eu levo algo para a aceitação de Deus pela graça ou eu nada levo. Se nada apresento, então sou salvo pela, ou mediante a, fé somente. Se levo algo á aceitação de minha pessoa por Deus como pecador culpado, então tenho algum espaço para me gloriar. Se nada levo, então tudo que posso fazer é confiar inteiramente em Cristo e sua justiça. Como diz um velho hino:
Numa vida que não vivi,
Numa morte que não morri,
A vida de Outro, a morte de Outro,
Nisto repousa toda a minha eternidade.
Ainda mais, se a justificação não é pela fé somente, como Paulo raciocina, então não pode ser por Cristo somente, ou "pela justiça de Cristo". Por quê? Porque fé significa, simplesmente, que Cristo me salva, não a igreja, não minhas obras, não outro salvador mas Cristo somente! Eu nada posso fazer. Nada preciso fazer senão confiar, e mesmo essa confiança, essa fé, me é dada graciosamente pelo próprio Deus. De fato, não pode haver lugar para o ser humano gloriar-se numa obra divina tão grande.
A Justificação pela Fé somente e Tiago 2
Aqueles que mantém uma visão tridentina da justificação, negando que a fé somente seja suficiente, apelam para Tiago 2.14-26 como sendo sua prova textual. Afrimam que a Bíblia nunca emprega a frase “justificação pela fé somente”, o que concedemos, mas que ela declara que Abraão não foi salvo pela fé somente. Na verdade, nos é dito que Abraão foi “justificado por suas obras". Tiago 2.14-26 diz assim:
(14) Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? (15) Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, (16) e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? (17) Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (18) Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. (19) Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.(20) Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? (21) Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? (22) Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, (23) e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. (24) Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente. (25) De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? (26) Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.
Aparentemente, a impressão é que Paulo e Tiago estão divergindo entre si. Paulo ensina que Abraão foi justificado pela fé somente e Tiago parece estar ensinando o contrário, que Abraão foi justificado por suas obras. São duas visões diferentes, ao que parece, e ambas estão apelando para Abraão para provar sua tese.
Distinguir a verdade aqui não é tão difícil quanto pode parecer à primeira vista. O livro de Tiago é o equivalente no Novo Testamento à literatura de “sabedoria” do Antigo Testamento. Na mente hebraica, a sabedoria é como se vive. É prática e não teoria ou, talvez, prática baseada em teoria. Tiago está respondendo à pergunta: “O que é uma fé viva e vital?” ou como Lutero chamava “uma fides viva”.
Às vezes a terminologia teológica impede nossa compreensão do Novo Testamento. Por exemplo, em 1 Timóteo 2.15, Paulo diz que as mulheres serão salvas por darem à luz. Ora, sabemos que as mulheres não são justificadas por ficarem grávidas. As palavras têm sentidos diferentes de acordo com seu contexto. E a palavra grega para justificação ou justificado pode ter pelo menos sete sentidos diferentes.
Em Romanos, Paulo está escrevendo doutrina, e tratando da questão de como uma pessoa é levada à paz com Deus. Tiago não está escrevendo doutrina, e sim examinando qual é a essência da fé autêntica, ou a evidência da fé justificadora. Em Mateus 11.19, Jesus afirma que a “sabedoria é justificada por suas obras”. Será que isso significa que a sabedoria é levada a um relacionamento correto com Deus? Não, Jesus simplesmente diz que a sabedoria prova ser sabedoria pelos frutos de sabedoria!
Precisamente falando, Paulo e Tiago não estão discorrendo [exatamente] sobre a mesma coisa. Paulo apela para Gênesis 15.6: “Abraão... creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça”. Pela fé, Abrão (Abraão) foi justificado diante de Deus. Por outro lado, Tiago apela para Gênesis 22.9-18, uma diferença de sete capítulos! Em Gênesis 22, Deus pôs Abraão à prova, e a autenticidade da fé de sua fé foi manifesta (cf. 2 Co 13.5). Em Gênesis 12, Abraão foi justificado por sua fé. Em Gênesis 22, a fé de Abraão é justificada por sua obediência.
Tiago não está respondendo à pergunta “Como posso ser salvo?” e sim “Como posso saber que minha fé é autêntica?” Podemos ver isso pela declaração do versículo 18: “Você DIZ que tem fé”. A validação dessa afirmativa é dada no mesmo versículo: “Mostre-me sua fé POR suas obras”. A fé já existe, mas ela é evidenciada pelas necessárias obras que se seguem. Minha fé não prova minha fé para Deus. Ele já conhece meu coração; você não. Você pode ver minhas obras mas não pode ver meu coração. As obras são um testemunho para mim e para você.
O nobre puritano Thomas Manton disse: “Pela justiça da fé somos quitados do pecado, e pela justiça das obras somos quitados da hipocrisia”. As obras da obediência nada acrescentam à sua justificação; são a prova visível dela.
É isso que Paulo quer dizer em Romanos 1.5 com a expressão “a obediência por fé”. A fé, em sua essência, é fidelidade ou obediência pactual. Não é que as obras estejam de um lado e a fé de outro, mantendo-se como opostos, e sim que a fé salvadora, em sua essência, é uma fé obediente. A propriedade intrínseca ou indispensável que caracteriza a fé bíblica é a obediência. A fé salvadora, pela natureza do caso, produz obras por causa daquilo que é.
Em Tiago 2 não se encontra uma refutação da justificação pela fé somente, nem em qualquer outro lugar na Bíblia, para dizer a verdade. É uma doutrina resolvida e segura tanto em Tiago quanto em Paulo. Possamos nós pregá-la com confiança e ousadia!
Dr. John Armstrong
Quinta-feira, Setembro 07, 2006
Cinco Princípios para a Interpretação Bíblica
1. O Princípio Literal – Significa entender as Escrituras no seu sentido natural e normal. Isto é, quais os significados costumeiros das palavras utilizadas? Se Deus quer comunicar-nos Sua Palavra, Ele o fará da forma mais óbvia e simples possível, em palavras claramente compreendidas. Embora exista linguagem figurada, simbolismo e alegoria (Gl 4.19-31) nas Escrituras, a primeira coisa pela qual procurarmos é o significado literal, não algo mais profundo, segredo escondido ou alguma interpretação espiritual
Quando se chega alguns dos trechos apocalípticos tais como Zacarias, Daniel, Ezequiel, Isaías ou o Apocalipse, as figuras e os símbolos devem ser estudados cuidadosamente para se ver a verdade literal que trazem consigo. A reprodução do contexto histórico geralmente os deixa claros. Então o estudante pode refletir sobre o significado literal da figura dentro do seu contexto histórico.
A pedra fundamental da interpretação bíblica é encara-la de forma LITERAL. Uma vez abandonada a interpretação literal, deixa-se de lado toda esperança de conseguir exatidão. No lugar da exatidão, temos confusão em que só a imaginação reina. Quando se nega o sentido literal, não se está servindo as Escrituras pela procura de entende-las; está se fazendo escravas as Escrituras tentando moldá-la para dizer o que nós queremos que digam.
É como os rabinos do período interbíblico que interpretavam as Escrituras usando seu valor numérico para cada letra do alfabeto hebraico. Estes rabinos tomavam as letras do nome de alguma pessoa, somavam-nas e chegavam a um significado. Por exemplo, no alfabeto hebraico o nome de Abraão soma 318. Isso, supostamente, significava que Abraão tinha 318 empregados. É fácil ver que quando violamos o propósito simples da linguagem, QUALQUER interpretação é POSSÍVEL.
2. O Princípio Histórico – Também é básico quando se interpretam as Escrituras. É muito importante recriar o contexto histórico em que o livro foi escrito. Se compreendermos a cena histórica na qual foi escrita uma passagem bíblica, freqüentemente a própria passagem se interpretará.
Ao chegarmos a qualquer livro da Bíblia, temos que compreender a história circundante. Quem reinava aonde? Quais países envolvidos e de que maneira? Quais as tensões, problemas e as crises da sociedade? Como era realmente a cultura da época? Quais eram os costumes do povo?
Precisamos de livros tais como dicionários bíblicos, manuais bíblicos e livros sobre costumes da época para responder tais questões. Com tais auxílios, podemos reconstruir o pano d fundo dum trecho bíblico, e deste contexto o significado virá à tona.
3. O Princípio Gramatical – É também necessário. O que o trecho diz em termos de palavras e gramática? É freqüentemente necessário explicar e o seu significado. De vez em quando, as preposições são muito importantes. Pode ser fundamental se um trecho diz “dentro” ou “em” ou “por” ou “com”. Por vezes há uma diferença marcante entre “por causa de” e “através de”. Se a frase se refere a “isto” ou “ele”, é importante saber o antecedente ao pronome – noutras palavras, a que “isto” ou “ele” está se referindo?
A gramática pode não ser a matéria preferida da maioria de nós, mas precisamos conhecê-la ao interpretar as Escrituras. Não podemos catar algo de um trecho e fazer com que diga o que queremos que diga. Temos que seguir a seqüência das palavras e frases a fim de sabermos precisamente o que diz a Palavra de Deus.
Às vezes as pessoas me perguntam, “Qual a primeira coisa que o senhor faz quando prepara uma mensagem? “Eu estudo o texto – se possível no grego ou hebraico... Procuro ver a ordem certa das palavras e sentenças. Repasso a estrutura gramatical e a ordem das frases. Quero saber exatamente o que está sendo dito.
Talvez você esteja perguntando agora: “Não conheço o grega, não foi bom em gramática – como poderei estudar minha próprio Bíblia?” É claro que pode – em seu próprio nível. Estou dando princípios básicos que devem ser seguidos no estudo bíblico. Se você não conhece o grego, pode consultar um bom comentário bíblico . E mais importante, treine sua mente para tomar cuidado com escritores e pregadores que parecem não dar valor a gramática. Aprenda também a fazer estudos bíblicos indutivos em que você separa os versículos por frases, palavras, modificadores e outras partes a fim de ver mais claramente seu significado.
4. O Princípio da Síntese – É o que os antigos reformadores chamavam de ANALOGIA SCRIPTURA, ou seja, a analogia da Escritura. O princípio da síntese é baseado na idéia de que nenhuma parte da Bíblia contradiz outra. Um “Autor” – o Espírito Santo – inspirou toda a Bíblia. Tam apenas uma maravilhosa unidade. Se ouvimos um interpretação que não condiz com algo de outra passagem, uma das passagens (possivelmente as duas) está sendo interpretada incorretamente. O Espírito Santo não discorda com Ele mesmo.
Ao ensinar um trecho bíblico, eu freqüentemente levo a congregação a procurar outras partes da Bíblia a fim de mostrar como o trecho em estudo se enquadra na analogia total das Escrituras. E como o quadro todo se encaixa? No seu excelente livro - Deus tem Falado – J. I. Packer disse:
“A Bíblia se apresenta como uma orquestra sinfônica, como o Espírito Santo como maestro; cada instrumento foi trazido voluntariamente, espontaneamente, criativamente, para tocar as notas como o grande condutor desejou, sem que nenhum desses pudesse ouvir a música como um todo... O valor de cada parte só se torna plenamente claro quando visto em relação aos demais”
Pedro disse o mesmo quando escreveu: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram a respeito da graça A VÓS DESTINADA, investigando atentamente qual a ocasião os quais circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo que neles estava” (1Pe 1:10-11). Mesmo os escritores da Bíblia nem sempre sabiam tudo o significado daquilo que estavam escrevendo. Hoje, porque o Novo Testamento é completo, vemos como a Bíblia se encaixa num todo glorioso.
5. O Princípio Prático – É aquele que devemos usar na aplicação da Bíblia às nossas próprias vidas. Sempre a questão final que devemos responder é: “E o que isso tem a ver comigo? Que devo fazer?” 2Timóteo 3.16 diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil...” Toda ela se aplica às nossas vidas duma forma ou de outra. É útil para “o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”.
A “doutrina” é a verdade divina básica, o princípio do fato que qualquer aspecto da Bíblia ensina. A doutrina inclui os princípios pelos quais vivemos. Por exemplo, a Bíblia contém certas doutrinas quanto ao casamento e a família. Temos que aplicar esses ensinamentos às nossas vidas.
A “repreensão” é outro trabalho prático da Bíblia. Quanto mais estudamos, mais a Bíblia desmascara o nosso pecado, revela nosso culpa escondida, e tira os esqueletos de nossos armários, trazendo-os à plena luz. Quando nós aplicamos a doutrina, freqüentemente, a repreensão é sua primeira obra.
A repreensão leva a “correção”, que é o desviar do pecado que foi reprovado pela doutrina.
Finalmente vem a “instrução na justiça” – a exposição do novo caminho de justiça em resposta à verdadeira doutrina. Esta é a obra prática da Palavra.
J. MacArtur
Quando se chega alguns dos trechos apocalípticos tais como Zacarias, Daniel, Ezequiel, Isaías ou o Apocalipse, as figuras e os símbolos devem ser estudados cuidadosamente para se ver a verdade literal que trazem consigo. A reprodução do contexto histórico geralmente os deixa claros. Então o estudante pode refletir sobre o significado literal da figura dentro do seu contexto histórico.
A pedra fundamental da interpretação bíblica é encara-la de forma LITERAL. Uma vez abandonada a interpretação literal, deixa-se de lado toda esperança de conseguir exatidão. No lugar da exatidão, temos confusão em que só a imaginação reina. Quando se nega o sentido literal, não se está servindo as Escrituras pela procura de entende-las; está se fazendo escravas as Escrituras tentando moldá-la para dizer o que nós queremos que digam.
É como os rabinos do período interbíblico que interpretavam as Escrituras usando seu valor numérico para cada letra do alfabeto hebraico. Estes rabinos tomavam as letras do nome de alguma pessoa, somavam-nas e chegavam a um significado. Por exemplo, no alfabeto hebraico o nome de Abraão soma 318. Isso, supostamente, significava que Abraão tinha 318 empregados. É fácil ver que quando violamos o propósito simples da linguagem, QUALQUER interpretação é POSSÍVEL.
2. O Princípio Histórico – Também é básico quando se interpretam as Escrituras. É muito importante recriar o contexto histórico em que o livro foi escrito. Se compreendermos a cena histórica na qual foi escrita uma passagem bíblica, freqüentemente a própria passagem se interpretará.
Ao chegarmos a qualquer livro da Bíblia, temos que compreender a história circundante. Quem reinava aonde? Quais países envolvidos e de que maneira? Quais as tensões, problemas e as crises da sociedade? Como era realmente a cultura da época? Quais eram os costumes do povo?
Precisamos de livros tais como dicionários bíblicos, manuais bíblicos e livros sobre costumes da época para responder tais questões. Com tais auxílios, podemos reconstruir o pano d fundo dum trecho bíblico, e deste contexto o significado virá à tona.
3. O Princípio Gramatical – É também necessário. O que o trecho diz em termos de palavras e gramática? É freqüentemente necessário explicar e o seu significado. De vez em quando, as preposições são muito importantes. Pode ser fundamental se um trecho diz “dentro” ou “em” ou “por” ou “com”. Por vezes há uma diferença marcante entre “por causa de” e “através de”. Se a frase se refere a “isto” ou “ele”, é importante saber o antecedente ao pronome – noutras palavras, a que “isto” ou “ele” está se referindo?
A gramática pode não ser a matéria preferida da maioria de nós, mas precisamos conhecê-la ao interpretar as Escrituras. Não podemos catar algo de um trecho e fazer com que diga o que queremos que diga. Temos que seguir a seqüência das palavras e frases a fim de sabermos precisamente o que diz a Palavra de Deus.
Às vezes as pessoas me perguntam, “Qual a primeira coisa que o senhor faz quando prepara uma mensagem? “Eu estudo o texto – se possível no grego ou hebraico... Procuro ver a ordem certa das palavras e sentenças. Repasso a estrutura gramatical e a ordem das frases. Quero saber exatamente o que está sendo dito.
Talvez você esteja perguntando agora: “Não conheço o grega, não foi bom em gramática – como poderei estudar minha próprio Bíblia?” É claro que pode – em seu próprio nível. Estou dando princípios básicos que devem ser seguidos no estudo bíblico. Se você não conhece o grego, pode consultar um bom comentário bíblico . E mais importante, treine sua mente para tomar cuidado com escritores e pregadores que parecem não dar valor a gramática. Aprenda também a fazer estudos bíblicos indutivos em que você separa os versículos por frases, palavras, modificadores e outras partes a fim de ver mais claramente seu significado.
4. O Princípio da Síntese – É o que os antigos reformadores chamavam de ANALOGIA SCRIPTURA, ou seja, a analogia da Escritura. O princípio da síntese é baseado na idéia de que nenhuma parte da Bíblia contradiz outra. Um “Autor” – o Espírito Santo – inspirou toda a Bíblia. Tam apenas uma maravilhosa unidade. Se ouvimos um interpretação que não condiz com algo de outra passagem, uma das passagens (possivelmente as duas) está sendo interpretada incorretamente. O Espírito Santo não discorda com Ele mesmo.
Ao ensinar um trecho bíblico, eu freqüentemente levo a congregação a procurar outras partes da Bíblia a fim de mostrar como o trecho em estudo se enquadra na analogia total das Escrituras. E como o quadro todo se encaixa? No seu excelente livro - Deus tem Falado – J. I. Packer disse:
“A Bíblia se apresenta como uma orquestra sinfônica, como o Espírito Santo como maestro; cada instrumento foi trazido voluntariamente, espontaneamente, criativamente, para tocar as notas como o grande condutor desejou, sem que nenhum desses pudesse ouvir a música como um todo... O valor de cada parte só se torna plenamente claro quando visto em relação aos demais”
Pedro disse o mesmo quando escreveu: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram a respeito da graça A VÓS DESTINADA, investigando atentamente qual a ocasião os quais circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo que neles estava” (1Pe 1:10-11). Mesmo os escritores da Bíblia nem sempre sabiam tudo o significado daquilo que estavam escrevendo. Hoje, porque o Novo Testamento é completo, vemos como a Bíblia se encaixa num todo glorioso.
5. O Princípio Prático – É aquele que devemos usar na aplicação da Bíblia às nossas próprias vidas. Sempre a questão final que devemos responder é: “E o que isso tem a ver comigo? Que devo fazer?” 2Timóteo 3.16 diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil...” Toda ela se aplica às nossas vidas duma forma ou de outra. É útil para “o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”.
A “doutrina” é a verdade divina básica, o princípio do fato que qualquer aspecto da Bíblia ensina. A doutrina inclui os princípios pelos quais vivemos. Por exemplo, a Bíblia contém certas doutrinas quanto ao casamento e a família. Temos que aplicar esses ensinamentos às nossas vidas.
A “repreensão” é outro trabalho prático da Bíblia. Quanto mais estudamos, mais a Bíblia desmascara o nosso pecado, revela nosso culpa escondida, e tira os esqueletos de nossos armários, trazendo-os à plena luz. Quando nós aplicamos a doutrina, freqüentemente, a repreensão é sua primeira obra.
A repreensão leva a “correção”, que é o desviar do pecado que foi reprovado pela doutrina.
Finalmente vem a “instrução na justiça” – a exposição do novo caminho de justiça em resposta à verdadeira doutrina. Esta é a obra prática da Palavra.
J. MacArtur
Segunda-feira, Agosto 28, 2006
Deus Deve Ser Amado por Ele Mesmo - Tozer
SENDO DEUS O QUE ELE É, precisamos buscá-lo por Ele mesmo e jamais como um meio para obter uma outra coisa.
Quem quer que busque outros objetos e não Deus está sozinho; é possível que venha a conseguir tais objetos, mas jamais terá Deus. Deus nunca é encontrado acidentalmente: “Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29.13).
Quem quer que busque a Deus como um meio para atingir um fim desejado, não encontrará Deus. O Deus poderoso, o criador dos céus e da terra, não será um dentre muitos tesouros, nem sequer o maior deles. Ele será tudo em todos ou nada será. Deus não se deixa manipular. Sua misericórdia e graça são infinitas e sua compreensão paciente é incomensurável, mas não ajudará os homens em seu esforço egoísta para obter ganhos pessoais. Não auxiliará os homens a atingir fins que, uma vez alcançados, usurpem o lugar que por direito lhe pertence no seu interesse e afeição.
O cristianismo popular, entretanto, dá a sua maior ênfase à idéia de que Deus existe para ajudar as pessoas a progredirem neste mundo. O Deus dos pobres tornou-se o Deus de uma sociedade afluente. Cristo não mais se recusa a ser juiz ou divisor entre irmãos gananciosos. Ele pode ser agora persuadido a ajudar o irmão que o aceitou a aproveitar-se do irmão que o rejeitou.
Um exemplo crasso do esforço moderno para manipular Deus, favorecendo propósitos egoístas, é a história do conhecido comediante que depois de repetidos fracassos, prometeu a alguém que chamava de Deus que se o ajudasse a ter sucesso no mundo do palco ele o recompensaria contribuindo generosamente para o cuidado das crianças enfermas. Pouco depois teve êxito em várias casas noturnas e na televisão. Ele cumpriu a sua palavra e está levantando grandes somas em dinheiro para construir hospitais infantis. Essas contribuições para a caridade, em sua opinião, são o preço bem pequeno a pagar pelo sucesso em um dos campos mais difíceis do empreendimento humano.
É possível desculpar a atitude desse artista como algo a ser esperado de um pagão do século XXI; mas que multidões de evangélicos no mundo acreditassem realmente que Deus tivesse algo a ver com o acontecido não pode ser tão facilmente posto de lado. Esta visão diminuída e falsa da divindade é uma das principais razões da imensa popularidade gozada por Deus hoje em dia entre os bem nutridos ocidentais.
O ensino bíblico é que Deus é Ele mesmo o fim para o qual o homem foi criado. “Quem mais tenho eu no céu?” clamou o salmista, “não há outro em quem eu me compraza na terra” (Sl 73.25). O primeiro e maior mandamento é amar a Deus com todas as fibras do nosso ser. Onde existe um amor assim, não pode haver lugar para um segundo objeto. Se amarmos a Deus quanto devemos, não podemos certamente sequer imaginar um objeto a ser amado além dEle, que possa ajudar-nos a obter.
Bernard de Clairvaux inicia seu pequeno e brilhante tratado sobre o amor de Deus com uma pergunta e uma resposta. A pergunta: por que devemos amar a Deus? A resposta: Porque Ele é Deus. Ele desenvolve ainda mais a idéia, mas para o coração esclarecido pouco mais precisa ser dito. Devemos amar a Deus porque Ele é Deus. Além disto os anjos não podem pensar.
Sendo quem é, Deus deve ser amado por Ele mesmo. Ele é a razão para que o amemos, da mesma forma que é a razão de seu amor por nós e para todos os outros atos por Ele realizados, os que irá realizar e está realizando, perpetuamente. O principal motivo de Deus para tudo é o seu próprio prazer. A busca de razões secundárias é gratuita e perfeitamente inútil. Ela supre os teólogos de uma ocupação e acrescenta páginas aos livros de doutrina, mas é duvidoso que apresente quaisquer explicações válidas.
Está, porém, na natureza de Deus partilhar. Seus poderosos atos de criação e redenção foram feitos para o seu próprio prazer, mas o seu prazer se estende a todas as coisas criadas. Basta olhar para uma criança sadia brincando ou ouvir o canto de um pássaro no fim da tarde e saberemos que Deus quis que seu universo fosse cheio de alegria.
Os que foram espiritualmente capacitados a amar a Deus por Ele mesmo, irão descobrir milhares de fontes brotando do trono cercado de arco-íris, e ofertando tesouros incontáveis que deve ser recebidos com gratidão reverente como sendo o transbordar do amor de Deus por seus filhos. Cada dom é um presente da graça que, por não ter sido buscado igoisticamente, pode ser gozado sem prejuízo para a alma. Neles se incluem as bênçãos simples da vida, tais como a saúde, o lar, a família, amigos congeniais, alimento, abrigo, as alegrias puras da natureza ou os prazeres artificiais da música e da arte.
O esforço de encontrar esses tesouros, buscando-os diretamente, em separado de Deus, tem sido a principal atividade humana no correr dos séculos; e este tem sido o fardo e o mal do homem. O esforço de obtê-los como o motivo oculto por trás da aceitação de Cristo pode ser algo novo sob o sol; mas novo ou velho é um mal que só pode terminar em condenação.
Deus quer que nós o amemos por Ele mesmo sem quaisquer razões ocultas, confiando nEle para que seja tudo o que nossas naturezas requerem. Nosso Senhor disse isto muito bem: Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).
Quem quer que busque outros objetos e não Deus está sozinho; é possível que venha a conseguir tais objetos, mas jamais terá Deus. Deus nunca é encontrado acidentalmente: “Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29.13).
Quem quer que busque a Deus como um meio para atingir um fim desejado, não encontrará Deus. O Deus poderoso, o criador dos céus e da terra, não será um dentre muitos tesouros, nem sequer o maior deles. Ele será tudo em todos ou nada será. Deus não se deixa manipular. Sua misericórdia e graça são infinitas e sua compreensão paciente é incomensurável, mas não ajudará os homens em seu esforço egoísta para obter ganhos pessoais. Não auxiliará os homens a atingir fins que, uma vez alcançados, usurpem o lugar que por direito lhe pertence no seu interesse e afeição.
O cristianismo popular, entretanto, dá a sua maior ênfase à idéia de que Deus existe para ajudar as pessoas a progredirem neste mundo. O Deus dos pobres tornou-se o Deus de uma sociedade afluente. Cristo não mais se recusa a ser juiz ou divisor entre irmãos gananciosos. Ele pode ser agora persuadido a ajudar o irmão que o aceitou a aproveitar-se do irmão que o rejeitou.
Um exemplo crasso do esforço moderno para manipular Deus, favorecendo propósitos egoístas, é a história do conhecido comediante que depois de repetidos fracassos, prometeu a alguém que chamava de Deus que se o ajudasse a ter sucesso no mundo do palco ele o recompensaria contribuindo generosamente para o cuidado das crianças enfermas. Pouco depois teve êxito em várias casas noturnas e na televisão. Ele cumpriu a sua palavra e está levantando grandes somas em dinheiro para construir hospitais infantis. Essas contribuições para a caridade, em sua opinião, são o preço bem pequeno a pagar pelo sucesso em um dos campos mais difíceis do empreendimento humano.
É possível desculpar a atitude desse artista como algo a ser esperado de um pagão do século XXI; mas que multidões de evangélicos no mundo acreditassem realmente que Deus tivesse algo a ver com o acontecido não pode ser tão facilmente posto de lado. Esta visão diminuída e falsa da divindade é uma das principais razões da imensa popularidade gozada por Deus hoje em dia entre os bem nutridos ocidentais.
O ensino bíblico é que Deus é Ele mesmo o fim para o qual o homem foi criado. “Quem mais tenho eu no céu?” clamou o salmista, “não há outro em quem eu me compraza na terra” (Sl 73.25). O primeiro e maior mandamento é amar a Deus com todas as fibras do nosso ser. Onde existe um amor assim, não pode haver lugar para um segundo objeto. Se amarmos a Deus quanto devemos, não podemos certamente sequer imaginar um objeto a ser amado além dEle, que possa ajudar-nos a obter.
Bernard de Clairvaux inicia seu pequeno e brilhante tratado sobre o amor de Deus com uma pergunta e uma resposta. A pergunta: por que devemos amar a Deus? A resposta: Porque Ele é Deus. Ele desenvolve ainda mais a idéia, mas para o coração esclarecido pouco mais precisa ser dito. Devemos amar a Deus porque Ele é Deus. Além disto os anjos não podem pensar.
Sendo quem é, Deus deve ser amado por Ele mesmo. Ele é a razão para que o amemos, da mesma forma que é a razão de seu amor por nós e para todos os outros atos por Ele realizados, os que irá realizar e está realizando, perpetuamente. O principal motivo de Deus para tudo é o seu próprio prazer. A busca de razões secundárias é gratuita e perfeitamente inútil. Ela supre os teólogos de uma ocupação e acrescenta páginas aos livros de doutrina, mas é duvidoso que apresente quaisquer explicações válidas.
Está, porém, na natureza de Deus partilhar. Seus poderosos atos de criação e redenção foram feitos para o seu próprio prazer, mas o seu prazer se estende a todas as coisas criadas. Basta olhar para uma criança sadia brincando ou ouvir o canto de um pássaro no fim da tarde e saberemos que Deus quis que seu universo fosse cheio de alegria.
Os que foram espiritualmente capacitados a amar a Deus por Ele mesmo, irão descobrir milhares de fontes brotando do trono cercado de arco-íris, e ofertando tesouros incontáveis que deve ser recebidos com gratidão reverente como sendo o transbordar do amor de Deus por seus filhos. Cada dom é um presente da graça que, por não ter sido buscado igoisticamente, pode ser gozado sem prejuízo para a alma. Neles se incluem as bênçãos simples da vida, tais como a saúde, o lar, a família, amigos congeniais, alimento, abrigo, as alegrias puras da natureza ou os prazeres artificiais da música e da arte.
O esforço de encontrar esses tesouros, buscando-os diretamente, em separado de Deus, tem sido a principal atividade humana no correr dos séculos; e este tem sido o fardo e o mal do homem. O esforço de obtê-los como o motivo oculto por trás da aceitação de Cristo pode ser algo novo sob o sol; mas novo ou velho é um mal que só pode terminar em condenação.
Deus quer que nós o amemos por Ele mesmo sem quaisquer razões ocultas, confiando nEle para que seja tudo o que nossas naturezas requerem. Nosso Senhor disse isto muito bem: Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).
Que é Graça? Abraham Booth ( 1734 - 1806 )
QUE É GRAÇA?
Paulo emprega a palavra “graça” para significar o oposto de “obras e méritos”. “Pela graça sois salvos...não por obras” (Ef 2.8,9). Graça significa FAVOR IMERECIDO OU FAVOR DADO SEM QUE SEJA GANHO POR ESFORÇO ALGUM”.
Pela palavra “misericórdia” entendemos que alguém em dificuldade ou derrotado está recebendo um benefício. Misericórdia faz supor uma pessoa sofredora a quem ela é concedida. Semelhante, “graça” sempre pressupõe indignidade na pessoa que a recebe.
Se alguém nos dá qualquer coisa por graça, é porque nós não merecemos. Qualquer coisa que mereçamos por direito não pode ser nossa por graça. Graça e mérito não podem estar ligados no mesmo ato. São realidades tão opostas como luz e trevas. “Se é por graça, então não é por obras; de outra maneira, a graça já não é graça” (Rm 11.6)
Assim, dizemos que nós recebemos a graça de Deus. Estamos dizendo, ao mesmo tempo, que somos indignos dela e que não podemos trabalhar por ela. Dessa maneira, definimos graça com ela é usada no Novo Testamento, ou seja,
“o eterno e absolutamente livre favor de Deus na doação de bênçãos espirituais e eternas concedido a pessoas indignas e culpadas”.
Nas páginas que se seguem tentarei descrever em que consistem estas bênçãos espirituais e eternas, porém, por agora, note que a graça de Deus é eterna.
A graça de modo algum depende do mérito humano; depende só da vontade de Deus. Não é ganha por mérito nem perdida por culpa. A graça é absolutamente livre de qualquer influencia humana. Portanto nada há que possa derrotá-la, uma vez que ela tenha sido dada. Por isso, Deus pode dizer: “... pois que com amor eterno te amai” (jer 31.3) Tal é a gloriosa base da nossa salvação!
Graça não é como uma franja de ouro na fímbria do vestuário; não é como um enfeite que decora um vestido; porém, é como o propiciatório do Tabernáculo, que era de ouro – de ouro puro – inteiramente de ouro!
Portanto, aprendemos como estão inteiramente enganados os que sugerem que a grala de Deus pode ser alcançada pelas boas obras. A graça de Deus recusa-se a ser ajudada naquilo que ela tem que fazer.
Não seria um insulto à soberania de Deus sugerir que Ele precisa de ajuda do pobre desempenho do homem? Ou a graça é absolutamente livre de toda a nossa influência, ou então NÃO É GRAÇA DE MODO ALGUM.
Paulo emprega a palavra “graça” para significar o oposto de “obras e méritos”. “Pela graça sois salvos...não por obras” (Ef 2.8,9). Graça significa FAVOR IMERECIDO OU FAVOR DADO SEM QUE SEJA GANHO POR ESFORÇO ALGUM”.
Pela palavra “misericórdia” entendemos que alguém em dificuldade ou derrotado está recebendo um benefício. Misericórdia faz supor uma pessoa sofredora a quem ela é concedida. Semelhante, “graça” sempre pressupõe indignidade na pessoa que a recebe.
Se alguém nos dá qualquer coisa por graça, é porque nós não merecemos. Qualquer coisa que mereçamos por direito não pode ser nossa por graça. Graça e mérito não podem estar ligados no mesmo ato. São realidades tão opostas como luz e trevas. “Se é por graça, então não é por obras; de outra maneira, a graça já não é graça” (Rm 11.6)
Assim, dizemos que nós recebemos a graça de Deus. Estamos dizendo, ao mesmo tempo, que somos indignos dela e que não podemos trabalhar por ela. Dessa maneira, definimos graça com ela é usada no Novo Testamento, ou seja,
“o eterno e absolutamente livre favor de Deus na doação de bênçãos espirituais e eternas concedido a pessoas indignas e culpadas”.
Nas páginas que se seguem tentarei descrever em que consistem estas bênçãos espirituais e eternas, porém, por agora, note que a graça de Deus é eterna.
A graça de modo algum depende do mérito humano; depende só da vontade de Deus. Não é ganha por mérito nem perdida por culpa. A graça é absolutamente livre de qualquer influencia humana. Portanto nada há que possa derrotá-la, uma vez que ela tenha sido dada. Por isso, Deus pode dizer: “... pois que com amor eterno te amai” (jer 31.3) Tal é a gloriosa base da nossa salvação!
Graça não é como uma franja de ouro na fímbria do vestuário; não é como um enfeite que decora um vestido; porém, é como o propiciatório do Tabernáculo, que era de ouro – de ouro puro – inteiramente de ouro!
Portanto, aprendemos como estão inteiramente enganados os que sugerem que a grala de Deus pode ser alcançada pelas boas obras. A graça de Deus recusa-se a ser ajudada naquilo que ela tem que fazer.
Não seria um insulto à soberania de Deus sugerir que Ele precisa de ajuda do pobre desempenho do homem? Ou a graça é absolutamente livre de toda a nossa influência, ou então NÃO É GRAÇA DE MODO ALGUM.
Luz Requer Visão - A. W. Tozer
Para achar o caminho precisamos de algo mais que luz; precisamos de visão também.
As Escrituras Sagradas são fonte de luz moral e espiritual. “A revelação das tuas palavras esclarece”, diz o salmista; e outra vez., “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz par os meus caminhos”.
Creio na inspiração plenária das Escrituras como originalmente dadas, e posso cantar:
“Louvamos-te pelo brilho
Que da página sagrada
Que é luz para nossos passos,
Através das eras fulge”.
Entretanto, penso que não lanço nenhuma desonra à página sagrada quando digo que o brilho dela não basta. A luz, só, não é suficiente.
A luz é uma figura que a Bíblia e os mestres religiosas empregam com freqüência quando querem falar de conhecimento.Enquanto os homens não têm conhecimento, diz-se que estão nas trevas. A vida do conhecimento é como o surgir do sol. Mas o raiar do sol nada significa para os olhos que não vêem. Somente os dotados de visão se beneficiam com a luz do sol.
Entre a luz e a visão a diferença é grande. Uma pessoa pode ter luz sem ter visão; é cega. Outra pode ter visão sem ter luz; é temporariamente cega, mas a chegada da luz rapidamente a capacita a ver. O carcereiro de Filipos tinha bons olhos, mas pediu “uma luz” para ver Paulo na escuridão. Mas nem toda a luz do sol, da lua e das estrelas poderiam ajudar Sansão, pois os filisteus lhe tinham furado os olhos.
É sempre noite para o cego, e sempre é dia para o homem que leva consigo uma lâmpada – desde que possa ver. Um dístico do Livro Hindu do Bom Conselho assinala isto:
“Mesmo que o cego leve uma lanterna
Seus passos se desviarão”.
Que nos diz isso tudo? Simplesmente que a instrução religiosa, mesmo da boa, não é suficiente em si. Traz luz mas não dá visão. Sem a iluminação do Espírito, o texto não pode salvar o pecador. A salvação resulta de uma ação do Espírito no coração. Não pode haver salvação isolada da verdade, mas pode haver, e muitas vezes é o que se dá, verdade sem salvação. Quantos múltiplos milhares aprenderam de cor o catecismo, e ainda vagam nas trevas morais porque não houve iluminação interior!
A suposição de que luz e visão são sinônimos tem trazido tragédia espiritual a milhões. O cego pode encarar um lindo panorama com os olhos bem abertos, e nada vê; e o coração cego pode ouvir a verdade salvadora, e nada entende. Os fariseus olharam diretamente a Luz do Mundo por três anos, mas nenhum raio de luz chegou ao interior do seu ser. A luz não basta.
Os discípulos de Jesus foram instruídos nas Escrituras. Cristo os instrui pessoalmente na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos; todavia, foi preciso um específico ato de “abertura” interior para que pudesse captar a verdade. “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.45). Quando Paulo pregou em Filipos, certa mulher chamada Lídia ouviu, creu, foi batizada e imediatamente pôs a sua casa à disposição de Paulo. Mas uma pequena frase, altamente significativa, explica a coisa toda: “o Senhor lhe abriu o coração” (At 16.14). Lídia recebeu visão bem como luz.
O apóstolo aprendeu bem cedo no seu ministério que, como ele o coloca, “a fé não é de todos”. Ele sabia por quê. “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual
As Escrituras Sagradas são fonte de luz moral e espiritual. “A revelação das tuas palavras esclarece”, diz o salmista; e outra vez., “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz par os meus caminhos”.
Creio na inspiração plenária das Escrituras como originalmente dadas, e posso cantar:
“Louvamos-te pelo brilho
Que da página sagrada
Que é luz para nossos passos,
Através das eras fulge”.
Entretanto, penso que não lanço nenhuma desonra à página sagrada quando digo que o brilho dela não basta. A luz, só, não é suficiente.
A luz é uma figura que a Bíblia e os mestres religiosas empregam com freqüência quando querem falar de conhecimento.Enquanto os homens não têm conhecimento, diz-se que estão nas trevas. A vida do conhecimento é como o surgir do sol. Mas o raiar do sol nada significa para os olhos que não vêem. Somente os dotados de visão se beneficiam com a luz do sol.
Entre a luz e a visão a diferença é grande. Uma pessoa pode ter luz sem ter visão; é cega. Outra pode ter visão sem ter luz; é temporariamente cega, mas a chegada da luz rapidamente a capacita a ver. O carcereiro de Filipos tinha bons olhos, mas pediu “uma luz” para ver Paulo na escuridão. Mas nem toda a luz do sol, da lua e das estrelas poderiam ajudar Sansão, pois os filisteus lhe tinham furado os olhos.
É sempre noite para o cego, e sempre é dia para o homem que leva consigo uma lâmpada – desde que possa ver. Um dístico do Livro Hindu do Bom Conselho assinala isto:
“Mesmo que o cego leve uma lanterna
Seus passos se desviarão”.
Que nos diz isso tudo? Simplesmente que a instrução religiosa, mesmo da boa, não é suficiente em si. Traz luz mas não dá visão. Sem a iluminação do Espírito, o texto não pode salvar o pecador. A salvação resulta de uma ação do Espírito no coração. Não pode haver salvação isolada da verdade, mas pode haver, e muitas vezes é o que se dá, verdade sem salvação. Quantos múltiplos milhares aprenderam de cor o catecismo, e ainda vagam nas trevas morais porque não houve iluminação interior!
A suposição de que luz e visão são sinônimos tem trazido tragédia espiritual a milhões. O cego pode encarar um lindo panorama com os olhos bem abertos, e nada vê; e o coração cego pode ouvir a verdade salvadora, e nada entende. Os fariseus olharam diretamente a Luz do Mundo por três anos, mas nenhum raio de luz chegou ao interior do seu ser. A luz não basta.
Os discípulos de Jesus foram instruídos nas Escrituras. Cristo os instrui pessoalmente na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos; todavia, foi preciso um específico ato de “abertura” interior para que pudesse captar a verdade. “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.45). Quando Paulo pregou em Filipos, certa mulher chamada Lídia ouviu, creu, foi batizada e imediatamente pôs a sua casa à disposição de Paulo. Mas uma pequena frase, altamente significativa, explica a coisa toda: “o Senhor lhe abriu o coração” (At 16.14). Lídia recebeu visão bem como luz.
O apóstolo aprendeu bem cedo no seu ministério que, como ele o coloca, “a fé não é de todos”. Ele sabia por quê. “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual