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Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Luz Requer Visão - A. W. Tozer

Para achar o caminho precisamos de algo mais que luz; precisamos de visão também.

As Escrituras Sagradas são fonte de luz moral e espiritual. “A revelação das tuas palavras esclarece”, diz o salmista; e outra vez., “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz par os meus caminhos”.

Creio na inspiração plenária das Escrituras como originalmente dadas, e posso cantar:

“Louvamos-te pelo brilho
Que da página sagrada
Que é luz para nossos passos,
Através das eras fulge”.

Entretanto, penso que não lanço nenhuma desonra à página sagrada quando digo que o brilho dela não basta. A luz, só, não é suficiente.

A luz é uma figura que a Bíblia e os mestres religiosas empregam com freqüência quando querem falar de conhecimento.Enquanto os homens não têm conhecimento, diz-se que estão nas trevas. A vida do conhecimento é como o surgir do sol. Mas o raiar do sol nada significa para os olhos que não vêem. Somente os dotados de visão se beneficiam com a luz do sol.

Entre a luz e a visão a diferença é grande. Uma pessoa pode ter luz sem ter visão; é cega. Outra pode ter visão sem ter luz; é temporariamente cega, mas a chegada da luz rapidamente a capacita a ver. O carcereiro de Filipos tinha bons olhos, mas pediu “uma luz” para ver Paulo na escuridão. Mas nem toda a luz do sol, da lua e das estrelas poderiam ajudar Sansão, pois os filisteus lhe tinham furado os olhos.

É sempre noite para o cego, e sempre é dia para o homem que leva consigo uma lâmpada – desde que possa ver. Um dístico do Livro Hindu do Bom Conselho assinala isto:

“Mesmo que o cego leve uma lanterna
Seus passos se desviarão”.

Que nos diz isso tudo? Simplesmente que a instrução religiosa, mesmo da boa, não é suficiente em si. Traz luz mas não dá visão. Sem a iluminação do Espírito, o texto não pode salvar o pecador. A salvação resulta de uma ação do Espírito no coração. Não pode haver salvação isolada da verdade, mas pode haver, e muitas vezes é o que se dá, verdade sem salvação. Quantos múltiplos milhares aprenderam de cor o catecismo, e ainda vagam nas trevas morais porque não houve iluminação interior!

A suposição de que luz e visão são sinônimos tem trazido tragédia espiritual a milhões. O cego pode encarar um lindo panorama com os olhos bem abertos, e nada vê; e o coração cego pode ouvir a verdade salvadora, e nada entende. Os fariseus olharam diretamente a Luz do Mundo por três anos, mas nenhum raio de luz chegou ao interior do seu ser. A luz não basta.

Os discípulos de Jesus foram instruídos nas Escrituras. Cristo os instrui pessoalmente na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos; todavia, foi preciso um específico ato de “abertura” interior para que pudesse captar a verdade. “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.45). Quando Paulo pregou em Filipos, certa mulher chamada Lídia ouviu, creu, foi batizada e imediatamente pôs a sua casa à disposição de Paulo. Mas uma pequena frase, altamente significativa, explica a coisa toda: “o Senhor lhe abriu o coração” (At 16.14). Lídia recebeu visão bem como luz.

O apóstolo aprendeu bem cedo no seu ministério que, como ele o coloca, “a fé não é de todos”. Ele sabia por quê. “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.3,4)

Satanás não teme a luz enquanto pode manter as suas vítimas sem visão. A mente incapaz de compreender não é afetada pela verdade. O intelecto do ouvinte pode captar a verdade salvadora, e apesar disso o coração não lhe dá resposta moral. Um exemplo clássico disto se vê na história de Benjamim Franklin e George Whitefield. Em sua autobiografia, Franklin narra com alguns pormenores, como ouvira a poderosa pregação do grande evangelista. Chegou a dar uma volta ao redor da praça onde estava Whitefield para verificar pessoalmente a que distância ia aquela voz de ouro. Whitefield falou pessoalmente com Franklin sobre a sua necessidade de Cristo e prometeu orar por ele. Anos mais tarde, Franklin escreveu com muita tristeza que as orações do evangelista não deviam ter feito bem nenhum, pois ainda não se convertera.

Ninguém poria em dúvida o brilhantismo intelectual de Franklin, e certamente Whitefield pregava a verdade integralmente; contudo, aquilo deu em nada. Por quê? A única resposta é que Franklin tinha luz sem visão. Ele jamais viu a luz do mundo. Faze-lo requer um ato de iluminação interna operado pelo Espírito, coisa que aparentemente Franklin nunca recebeu.

A operação interior do Espírito Santo é necessária à fé salvadora. O Evangelho é luz, mas somente o Espírito pode dar visão. Ao procurarmos trazer perdidos a Cristo, devemos orar continuamente no sentido de que recebam o dom de ver. E devemos contrapor a nossa oração àquele espírito trevoso que cega o coração dos homens.

A. W. Tozer

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